Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘WWII’

Para o cidadão pouco familiarizado com o cotidiano brasileiro dos anos 40, é um tanto difícil imaginar o que representou a campanha submarina do Eixo contra a navegação nacional durante a II Guerra Mundial. Abordando este tema, está sendo lançado o livro Torpedo – o terror no Atlântico, do escritor Marcus Vinícius de Lima Arantes.

O episódio dos afundamentos já havia sido analisado com propriedade, dentro de um contexto mais amplo, pelo jornalista Ricardo Bonalume Neto em seu livro A nossa Segunda Guerra: os brasileiros em combate, 1942-1945 e pelo professor Francisco César Alves Ferraz em Os brasileiros e a Segunda Guerra Mundial, entre outros. Desta feita, Marcus Vinícius “mergulha” de cabeça nesse evento marcante da história brasileira.

Na década de 40, a ligação entre o Sudeste e as demais regiões (exceto a região Centro-Oeste) era feita através do mar, em sua quase totalidade. Ainda não existiam estradas modernas, ligando a capital federal ao nordeste ou ao sul do Brasil. Para se viajar do Rio de Janeiro a São Paulo, por exemplo, a alternativa à ferrovia era uma estrada de terra poeirenta. O meio aéreo, ainda incipiente, era privilégio das autoridades e de uma ínfima parcela de abonados. Assim, quando os U-Boat alemães e submarinos italianos iniciaram o torpedeamento da nossa frota mercante e de passageiros, interrompendo o tráfego marítimo, o país foi quase tomado pelo caos.

Para se chegar ao nordeste, começou a ser utilizada uma rota alternativa, viajando-se de trem até as cabeceiras do Rio São Francisco, no interior de Minas Gerais, onde era feito o embarque nas “gaiolas” do rio. Uma viagem de Pirapora até Petrolina chegava a durar 14 dias, se não houvesse contratempo. O corte das ligações ao saliente nordestino, conjugado ao sucesso do Afrika Korps de Rommel no norte da África, ensejou o medo de uma invasão nazista ao nosso território. Nas ruas, o povo exigia vingança contra a morte de civis e militares: homens, mulheres e crianças, cujo número subia exponencialmente a cada afundamento.

A obra descreve os submarinos agressores, identificando cada um deles e detalhando os ataques. À época, a propaganda nazi-fascista espalhou o boato de que a ação fora perpretada pelos EUA, destinada a forçar a entrada do Brasil na IIGM a seu favor. Por incrível que pareça, essa versão permanece até os dias de hoje inclusa no discurso de alguns educadores, hábeis na formulação das chamadas “Teorias da Conspiração”, com fundo ideológico e antiamericano. No cerne dessas teorias, o ataque à navegação brasileira na IIGM, o 11/09/2001, e outros episódios da história recente, são apresentados aos estudantes como “planos de manipulação midiática dos ianques”. Também por conta disso, o livro de Marcus Vinícius chega em boa hora.

Em 1942, o Brasil foi bem além dos “protestos enérgicos” e inócuos emitidos por sua diplomacia, quando do afundamento de nossos navios mercantes durante a I Guerra Mundial. Desta vez nosso país estava disposto a revidar à altura. Ao declarar guerra ao Eixo, éramos um país agrário que tomava uma decisão corajosa, jogando a sorte na aliança com os EUA, num momento onde o Eixo parecia invencível. Sobretudo, tomamos uma decisão que modificaria a história brasileira para sempre. E para melhor.

Sinopse do livro disponível neste link

______________________________________________________________________________________

Read Full Post »

Em 1985, foi lançado o polêmico livro “As duas Faces da Glória”, de William Waack, sobre a Força Expedicionária Brasileira. À época, o jornalista trabalhava como correspondente do Jornal do Brasil na Alemanha, desde 1979.

Um dos méritos do livro foi divulgar uma série de informações e relatos até então desconhecidos do público. Waack foi talvez o primeiro pesquisador brasileiro a realizar a busca de informações sobre a FEB em arquivos alemães, norte-americanos, ingleses e italianos.

Outro mérito do autor, que merece ser destacado, foi a complexa localização de veteranos das unidades alemães que tiveram os brasileiros como oponentes, durante a II Guerra Mundial. Waack conseguiu entrevistar uma série deles, espalhados pela então Alemanha Ocidental.

Fig.1 – As Duas Faces da Glória: pioneirismo na pesquisa em arquivos alemães e entrevistas com veteranos da Wehrmacht

O autor relatou que os arquivos da 232ª Divisão de Infantaria alemã, referentes às tentativas de tomada do Monte Castello, foram destruídos num bombardeio a Berlim, em 1945. Mesmo assim, conseguiu disponibilizar registros pertencentes ao Estado-Maior alemão e à 114ª Divisão Ligeira: cartas topográficas, mapas de situação, arquivos do julgamento de Nuremberg e relatórios diversos. Um trabalho de pesquisa formidável.

A leitura da obra pode feita sem dificuldade, graças à linguagem clara e a boa sintaxe. A escrita em estilo jornalístico é fluida, apresentando ao leitor idéias perspicazes, baseadas na interpretação pessoal do material de pesquisa escolhido. Waack revela um talento precoce que futuramente lhe daria — com justiça, diga-se de passagem — o posto de âncora do Jornal da Globo.

Entretanto, se quanto à forma e pesquisa a obra pode ser considerada admirável, infelizmente seu embasamento histórico é inversamente proporcional. Aliás, seria uma proeza se o autor conseguisse apresentar uma obra de conteúdo sólido, sobre um tema tão complexo, durante o intervalo de tempo utilizado. Enquanto historiadores renomados levam, por vezes, quase uma década de pesquisas para escrever um único livro sobre a IIGM, Waack revela ter dado início ao projeto da obra meses antes, em 1984, lançando-a já no ano seguinte.

Dada a característica meramente informativa deste Blog, a análise do livro de Waack não descerá a pormenores, inclusive os que a metodologia de pesquisa histórica preconiza. Até porque, dissecar todos os aspectos contraditórios de “As Duas Faces da Glória” seria inadequado para um simples post.

1. Os alemães – A Wehrmacht de Waack

Logo de início, o autor procura desqualificar as divisões alemãs que a FEB enfrentou na Guerra e, por conseguinte, o mérito das vitórias brasileiras. Segundo ele:

“A FEB enfrentou nove divisões alemãs ou esteve em contato com elas, durante os meses que permaneceu na Itália: a 42ª Ligeira, a 232ª de Infantaria, a 84ª de Infantaria, a 114ª Ligeira, a 29ª Motorizada, a 334ª de Infantaria, a 305ª de Infantaria, a 90ª Motorizada e a 148ª de Infantaria. O leitor deve ter observado os ‘números altos’ da maior parte dessas divisões — para o especialista, isso indica que a unidade se formou já no final da guerra, às pressas, com recursos reduzidos e deficiência de tropas aptas” (Pg. 39).

Fig. 2- A Wehrmacht: segundo Waack, as divisões que a FEB enfrentou na Itália eram “deficientes”

Mais adiante, curiosamente, o próprio autor afirma que o General Eccart Von Gablenz (Fig. 3), comandante da 232ª Divisão alemã, já havia comandado uma outra divisão de infantaria: a 384ª Divisão alemã, na batalha de Stalingrado, ainda em 1942 (Pg 133): uma unidade de numeração superior a quaisquer das unidades com que a FEB se deparou. A “numeração alta” das unidades não é, portanto, determinante para classificar uma divisão segundo o seu poderio.

Fig. 3 – General Von Gablenz: apontado pelo próprio autor como o comandante da 384º Divisão alemã em Stalingrado, em 1942. Fonte: Axishistory.com

Em outra vertente, o livro procura descaracterizar a capacidade combativa da 232ª, com base numa suposta composição de faixa etária elevada. Entretanto, os informes do autor uma vez mais são contraditórios, quando afirma: ” A esmagadora maioria dos 9 mil homens da 232ª compunha-se de veteranos de diversas campanhas”  (Pg. 46). Ou seja, mesmo tendo a 232ª Divisão alemã sido formada em junho de 1944, sua espinha dorsal era composta por oficiais e graduados veteranos de diversas campanhas, inclusive do Afrika Korps e da frente russa, para onde Hitler enviou suas melhores tropas.

O autor prossegue nesse raciocínio, desta feita com relação aos mais jovens: “Apenas 10% do efetivo eram soldados bens jovens, de 17 anos, recrutados na região de Frankfurt.” (Pg. 46) Esse é um caso típico de menosprezo que embosca os aventureiros do tema II GM. Quando os Aliados desembarcaram na Normandia, por exemplo, encontraram boa parte das divisões alemãs compostas com efetivos de faixas etárias heterogêneas, que incluíam veteranos e jovens: uma formação comum para unidades com missão defensiva. Nem por isso o desembarque Aliado — especialmente em Omaha Beach — deixou de ser um dos episódios mais dolorosos da história militar dos EUA.

Fig. 4 – Prisioneiros da 232ª Divisão alemã: segundo o autor, “veteranos cansados”

Com base na experiência de guerra alemã, em especial a da I GM,  sua logística sabia recompor batalhões dizimados em novas unidades, mesclando a experiência de veteranos com o vigor da juventude. Já o fator idade, por si só, não significa muita coisa, pois um jovem com o dedo no gatilho de uma metralhadora pode ser tão ou mais mortal que um adulto.

Calcula-se que em Omaha Beach, no dia D, o soldado Heinz Severloh, de apenas 20 anos, foi o responsável por boa parte das 4.200 baixas norte-americanas no setor, disparando durante 9 horas seguidas cerca de 12.000 cartuchos da sua MG-42. Severloh ficou conhecido como a “Besta de Omaha” (Fonte: A Vida no Front).

Fig.5 – Heinz Severloh, um jovem de apenas 20 anos: a “Besta de Omaha”

A obra revela algumas informações particularmente interessantes sobre os oficiais da 232ª, em especial sobre o seu comandante, o General Gablenz: “O Barão foi um dos mais bem-sucedidos comandantes de tropa na frente de batalha da França… e, aos 49 anos, tornou-se em 1940, o mais jovem tenente-general do Exército alemão, um dos primeiros oficiais a ostentarem a Cruz de Cavaleiro sobre a Cruz de Ferro” (Pg. 54)

Todavia, o capítulo destinado aos alemães desvia-se do eixo temático da obra. Aborda detalhes menores da vida pessoal dos entrevistados no pré e pós-guerra, insistindo em afirmar que a maior parte dos alemães da 232ª desconhecia haver lutado contra os brasileiros. A intenção do texto é óbvia: tornar irrelevante a participação da FEB.

De fato, o repasse de informações do Comando alemão à linha de frente era problemático. Um do relatórios da 3ª Seção da FEB, feito com base no interrogatório de prisioneiros alemães logo após a batalha de Montese, revelou que 80% deles pensava estar lutando contra ingleses. Se tal desinformação foi deliberadamente premeditada pelo Comando alemão ou não, isso é assunto para um novo post. Contudo, não há dúvida de que a inteligência nazista acompanhava os movimentos da FEB em detalhes.

A propaganda psicológica que os alemães lançavam sobre nossas posições, ainda em dezembro de 1944, por exemplo (Fig. 6 e 7,  fonte: Cobra Fumando), prova de que o Comando alemão conhecia não só a nossa presença, como até mesmo a divisão regimental da FEB.

Fig. 6 – Panfleto de guerra psicológica alemã lançado sobre as posições brasileiras em 1944: detalhe para a identificação da composição regimental da FEB. De resto, propaganda nazista, esquizofrênica e antiamericana, repetida até o presente.

Fig.7 – Verso do panfleto: segundo um pracinha entrevistado, os panfletos eram utilizados pela tropa para atividades, digamos, menos nobres

Conclusão

Com relação às forças inimigas que a FEB enfrentou diante do Monte Castello, a obra minimiza a capacidade combativa da 232ª Divisão alemã, composta, na maior parte, de veteranos com quase 5 anos de experiência de combate, do seu comandante até os graduados — algo que nenhum brasileiro possuía.

Waack acerta quando menciona o poder combativo debilitado da 232ª — o que não era novidade alguma para o Exército Alemão nos idos de 1944-45. Porém, a missão dessa Divisão era essencialmente defensiva, limitada à ocupação de posições estáticas nos Apeninos, tarefa que exige muito menos tempo de preparação, esforço físico e a presença de recursos de toda ordem.

Mesmo que, supostamente, os alemães não tenham recebido o melhor treinamento (os que ainda não dispunham) e equipamento, estavam eles meses à frente do grosso da FEB. Os brasileiros do 2º e 3º escalões só chegaram à Itália no final de setembro de 1944, trazendo apenas a roupa do corpo, a bagagem pessoal  e  sem o treinamento específico para o combate.

Somente a 10ª Divisão de Montanha norte-americana — tropa de elite treinada e equipada para o combate em ambiente de montanha — sofreu 999 baixas durante a tomada da região fortemente defendida pela “deficiente” 232ª (entre 18 Fev e 05 Mar de 1945). As baixas sofridas pela Divisão norte-americana falam por si só.

Por fim, o leitor interessado em conhecer como os alemães da 232ª realmente enxergavam os brasileiros, deve procurar o relato dos seus veteranos, sem intermediários, como no livro Bombardeiros, Caças e Guerrilheiros (BIBILEX) Bomber, Jabos, Partisanen. Die 232. Infanterie-Division 1944/45″, de Heinrich Boucseinveterano da 232ª Divisão alemã, que lutou do primeiro ao último dia da II GM; em especial no capítulo “Die Brasilianer und der Monte Castello”: Os Brasileiros diante do Monte Castello.

Fig.8 – Bombardeiros, Caças e Guerrilheiros: a FEB vista pelos alemães da 232ª. Sem intermediários

Read Full Post »

Em menos de uma semana, a cidade cearense de Maranguape perdeu dois filhos ilustres. Ao falecimento do humorista Chico Anísio, no dia 23 de março, somou-se a morte do febiano Raimundo Nonato Monteiro, na última terça-feira, 27 de março, em Juiz de Fora-MG. O talento e a fama de Chico Anísio dispensam maiores comentários, mas a trajetória do seu conterrâneo Raimundo Nonato Monteiro — um dos três naturais de Maranguape que integraram a FEB — também merece ser relembrada.

Atitude comum nos veteranos que vivenciaram situações terríveis em combate, Raimundo Nonato não gostava de falar sobre a guerra. Por motivos óbvios, preferia contar episódios pitorescos ou, no máximo, situações vividas por companheiros seus. Com um sorriso nos lábios, lembrava da primeira frase que aprendeu em italiano: “belle gambe” (belas pernas), a fim de paquerar as moças que passeavam de bicicleta.

Gostava de lembrar de “causos” envolvendo um soldado medroso e “raro” do pelotão, apelidado de “Branca de Neve” — um negro retinto, muito seu amigo. Certa feita, quando “Branca de Neve” estava de sentinela, à frente do seu posto apareceu de surpresa um soldado alemão desertor, oferecendo rendição. Mais tarde, já recolhido o prisioneiro ao PC do Batalhão, um Capelão Militar perguntou ao soldado tedesco o que havia causado o enorme galo proeminente em sua testa. O alemão respondeu que foi por conta de um brasileiro que lhe havia jogado uma pedra. Estava enganado. Não foi uma pedra, mas uma granada de mão arremessada pelo assustado “Branca de Neve”; a granada foi encontrada mais tarde, ainda travada com o pino de segurança ….

Raimundo Nonato Monteiro aos 20 anos, em abril de 1945: Herói da FEB

Era muito fácil se deixar levar pela sua conversa descontraída. Ouvindo as histórias, um observador desavisado poderia imaginar que a trajetória de Raimundo na Itália não passou de uma excursão animada, com direito a alguns sobressaltos. Mas a realidade foi outra. São impressionantes, por exemplo, os relatos das patrulhas que empreendeu. Numa delas, ele conta que o comandante de pelotão lhe mandou reconhecer uma posição defensiva alemã:

“—Vai lá Raimundo, você que é cearense e filho de índio!” 

Raimundo rasteja com habilidade até o local, surpreende o sentinela cochilando e apanha sorrateiramente a sua metralhadora. Nisso, sai do abrigo um suboficial que lhe aplica uma coronhada, jogando-o ao chão. Logo a seguir, o alemão desfere um tiro que perfura seu capacete e que, milagrosamente, apenas raspa o couro cabeludo. Ainda caído, Raimundo atira, acertando dois alemães. Na confusão, sua patrulha captura a guarnição alemã. Raimundo Nonato foi promovido, por bravura, de cabo à graduação de 1º Sargento, algo raro na Força Expedicionária Brasileira. Participou de várias batalhas, inclusive as de Monte Castello e de Montese, integrando a 9ª Cia, do III Batalhão, do 11º Regimento de Infantaria: O “Lapa Azul”.

Na região de Montese, Raimundo Nonato vivenciou momentos cruciantes da campanha brasileira:

 “— Foi horrível, nem gosto de lembrar”, dizia. Nesse combate, foi ele ferido por uma granada de mão, sendo evacuado para tratamento no  Fitzsimons Army Medical Center, em Denver, nos EUA (vídeo a seguir). Lá recebeu um enxerto de pele e um implante de metal na mão direita.

60 anos depois, tive o privilégio e a honra em entrevistá-lo, sendo recebido com muito bom humor, ouvindo suas memórias sobre a guerra e o implante metálico que volta e meia lhe causava embaraços, travando a porta giratória dos bancos. Raimundo se orgulhava dos feitos da sua 9ª Cia, segundo ele: “A primeira unidade do V Exército a atingir os seus objetivos na Ofensiva da Primavera”.

Perdeu assim Maranguape dois dos seus mais valorosos “Raimundos Nonatos”: o fictício, interpretado por Chico Anísio, na Escolinha do Professor Raimundo;  e o real, na figura do sargento da FEB. Respectivamente, ambos tiveram “alunos” e soldados, “raros” e/ou destemidos. Respectivamente, também, nos deram muitas alegrias e nos legaram um mundo melhor, livre das ideologias totalitárias que combateram.

Descansem em paz!

_______________________________________________________________________________________________________

Read Full Post »

%d blogueiros gostam disto: