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Posts Tagged ‘Nélson Rodrigues’

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Narcisimo invertido – Segundo Nélson Rodrigues, o brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem.

Há alguns anos, comecei a escrever uma série de resenhas sobre o livro do jornalista William Waack: As Duas Faces da Glória – Parte I: os alemães, mas parei logo no começo. O trabalho se avolumou, ganhando ares de um livro que, decididamente, não valia a pena ser escrito.

Tempos depois, próximo ao aniversário de 70 anos do final da II Guerra Mundial, eis que entre as centenas de obras relevantes sobre o tema, escritas por seus protagonistas — do general ao soldado, passando pelos correspondentes de guerra —, ou por historiadores renomados, o mercado editorial brasileiro resolve reeditar a polêmica obra do jornalista.
As Duas Faces da Glória já foi devidamente refutada, ainda nos anos 1990, pela quase totalidade dos historiadores civis e militares, nacionais e estrangeiros, que conhecem o tema em profundidade.
Muitos ainda criticam a obra porque ela “fala mal da FEB”, mas não é esse o seu pecado. O ato de “falar bem” ou “falar mal” sobre determinado assunto não torna um livro melhor ou pior. Sob o ponto de vista da História, importa que o autor embase as suas afirmativas em provas críveis, segundo um raciocínio lógico e fundamentado, pois a mera transcrição de documentos e depoimentos não os torna, de imediato, fiadores da verdade. É preciso fazê-los passar antes pelos filtros consagrados pela historiografia: como a crítica interna, externa, e as intersubjetividades, entre outros. Caso contrário, a obra não ultrapassa os limites do texto jornalístico. Este é o caso de As Duas Faces da Glória.
A imparcialidade é outra virtude essencial em um livro que pretenda ser respeitado. Menos mal que Waack, na introdução da edição de 1985, alertou o leitor que não faria uso desta virtude. Por isso, não se pode afirmar que o autor tenha sido desonesto — pelo menos na introdução do livro.
A ocupação profissional também não é um limitador para se escrever uma boa obra sobre a História do Brasil ou qualquer outro tema. Muito pelo contrário. Um arquiteto, por exemplo, é capaz de escrever um bom texto sobre Astronomia, desde que estude o assunto — e muito. Prova disso é o excelente Camaradas, escrito pelo jornalista Waack anos depois.
O motivo da abissal diferença qualitativa entre as duas obras está nos diferentes universos abordados. Se o mergulho na complexidade de uma campanha militar é uma tarefa desafiadora até para o oficial de carreira, para o leigo então nem se fala.
Alguém poderia perguntar: se tudo o que foi dito há pouco é verdadeiro, porque este livro sobre a FEB foi justamente o escolhido para ser reeditado entre tantos outros? A resposta está na face mercantilista predominante em nosso mercado editorial.
Não importa que determinado livro sobre o nosso passado seja reconhecido ou não pela sua confiabilidade. Antes disso, é preciso que ele seja um sucesso de vendas, algo garantido se o assunto é polêmico e o autor famoso — ainda que um ex-BBB.
Mais do que a prevalência da cultura de massa, a lógica rasteira do mercado nos leva a uma triste constatação: a reedição de As Duas Faces da Glória é a prova material de que vivemos em uma sociedade indigna do sacrifício dos nossos pracinhas. Ou em uma sociedade masoquista, como bem disse o dramaturgo Nélson Rodrigues:
“O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima”.

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