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Posts Tagged ‘História’

Acaba de ser lançado no mercado o livro Estratégia Militar e História, do amigo César Campiani Maximiano. Já exibindo o selo do Centro Histórico Overlord, a obra está sendo oferecida no formato digital e-book pela Amazon neste link. Conhecendo de antemão o alto padrão de qualidade das obras lançadas anteriormente pelo autor, o novo livro promete ser um exemplar obrigatório na estante do leitor aficcionado pela História Militar.

estrategia

Estratégia Militar e História

SINOPSE

Os textos contidos neste volume versam sobre aquilo que, em diferentes momentos da história, se acreditou como o procedimento certo para que se vencessem as guerras. Em alguns casos eles expõem a enorme distância entre o que se imaginava que seria a guerra e como ela efetivamente foi travada durante as campanhas. Todos capítulos partem do pressuposto que a guerra consiste em atividade investida de uma essência permanente, porém moldada por características cambiantes. Não há dilemas estratégicos inéditos: as comunidades humanas são movidas por desejos de proteger o que é seu, ou avançar seu controle sobre posses alheias, seja para aumentar seu poder ou simplesmente continuar existindo. Neste aspecto o Sistema de Monitoramento de Fronteiras da Amazônia dotado de tecnologia de última geração, a Muralha de Adriano construída de pedra e atalaias e a Linha Maginot baseada na tecnologia da Era Industrial foram concebidos para efetuar exatamente o mesmo efeito estratégico: inibir inimigos e defender fronteiras. Esses desejos precisam ser traduzidos no campo prático por meio do emprego da força. As ferramentas para estas finalidades estão sujeitas à evolução, mas os objetivos delineados não se distinguem em termos de motivação daqueles que moviam as cidades estado gregas no tempo da Guerra do Peloponeso: medo, honra e interesse. Tal natureza imutável da guerra se manifesta na disciplina errática da estratégia, na qual a simplicidade enganadora das finalidades almejadas esbarra na dificuldade e complexidade materializadas no momento de cumprir as tarefas que conduzem aos objetivos nacionais. Por várias ocasiões, essa complexidade corresponde na dificultosa adaptação a um contexto de guerra em que se faz urgente a atualização da doutrina militar e da familiaridade com o equipamento e armamento, por outras, a solidez da disposição para o combate é mal interpretada pela nebulosidade do emaranhado das versões produzidas anos após o decorrer dos eventos, em algumas vezes a falta de lucidez não permite conjecturar a incompatibilidade de meios com objetivos irreais.

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Confrontando os relatos dos oficiais do Comando da Força Expedicionária Brasileira, é perceptível a divergência de opiniões acerca da estratégia adotada nas diversas batalhas travadas pelos brasileiros durante a II Guerra Mundial.

Um exemplo clássico pode ser visto nos diversos livros de Memórias do Marechal Floriano de Lima Brayner, cuja narrativa sobre a Campanha colide frontalmente com a do Marechal Mascarenhas de Moraes em vários trechos; em especial, nos referentes aos combates.[i]

Desde a Campanha no Vale do Sercchio, passando pelos ataques ao Monte Castello, até o sangrento combate de Montese, as opiniões de Brayner diferem acentuadamente das de Mascarenhas. Embora as narrativas de dois dos mais graduados chefes da FEB sejam conflitantes, a historiografia nacional não deu muita atenção a essa discrepância.

Foram raros os trabalhos publicados com o foco na estratégia e na eficácia em combate dos pracinhas, com destaque para a análise da manobra no Vale do Sercchio, do Prof. Dr. Dennison de Oliveira (link) e o capítulo escrito pelo Prof. Dr. César Campiani Maximiano no livro Allied Fighting Effectiveness in North Africa and Italy, 1942-1945. Todavia, o conflito entre as versões dos oficiais do Estado-Maior brasileiro permaneceu praticamente intocado nos últimos 30 anos.

Não é preciso muito esforço para avaliar o grau de importância desse estudo para uma avaliação global da FEB. Da mesma forma, fica evidente a necessidade de uma gigantesca empresa para a reconstituição desse episódio em suas nuances.

Quando indagados sobre a rarefeita bibliografia recente que aborda o estudo do tema, alguns historiadores justificam-se com base na sua complexidade, além da dificuldade de acesso às fontes de consulta. Embora até certo ponto as desculpas sejam válidas, elas não respondem satisfatoriamente o questionamento. Por sinal, as narrativas de algumas batalhas históricas vêm sendo reconstituídas regularmente — e com excelência — por historiadores e pesquisadores estrangeiros (A Batalha de Moscou, de Andrew Nagorski, é um dos exemplos mais recentes).

conflitos

Marechais Mascarenhas de Morais e Brayner: o Comandante da FEB e o seu Chefe de Estado-Maior tiveram opiniões conflitantes sobre os principais combates dos pracinhas na Itália.

A resposta a essa questão precisa ser buscada nos alicerces do nosso sistema educacional. No Brasil, a desafiadora tarefa de reconstituir o passado esbarra não apenas nos óbices naturais que envolvem a pesquisa histórica, mas, principalmente, em uma mentalidade.

Ao participar de alguns seminários de estudos sobre a FEB, tive a oportunidade de dialogar com vários historiadores acerca do tema. Certa vez, quando mencionei acerca da necessidade da reconstituição das batalhas na Itália, um deles interveio taxativamente:

 – É impossível reconstruir o passado como ele realmente foi, pois hoje há apenas fragmentos do que aconteceu. O passado está perdido para todo o sempre.

Embora tenha sido desapontadora, a conversa foi útil para confirmar uma suspeita antiga. No meio acadêmico existe a concepção arraigada de que o passado deva ser trazido para o presente e analisado sob o prisma dos valores e conceitos atuais. Segundo tal raciocínio, é impossível “voltar no tempo”. Este sofisma erigiu uma das barreiras que impede o correto entendimento da história brasileira, promovendo a avaliação do passado segundo valores que não pertencem ao seu tempo: o anacronismo.

Nada acontece por mero acaso. O anacronismo é o resultado da ideologização dos Parâmetros Curriculares Nacionais, que decretaram a caducidade do ensino tradicional da História em prol das “capacidades intelectuais autônomas do estudante” e da constituição da sua “identidade social”. De acordo com o modelo adotado pelo Ministério da Educação, até mesmo as crianças das quatro primeiras séries do Ensino Fundamental são chamadas a interpretar a História segundo o seu ponto de vista.[ii] Pergunta-se: o grau de conhecimento da história e de vivência das crianças entre seis e catorze anos lhes permite a  interpretação do processo civilizatório? A educação brasileira prescreve uma inversão de valores surreal: é o fato histórico que precisa moldar-se ao entendimento do aluno/historiador.

crianças

Segundos os Parâmetros Curriculares Nacionais, as crianças das quatro primeiras séries do Ensino Fundamental devem interpretar a História conforme as suas “capacidades intelectuais autônomas”.

Como não poderia deixar de ser, o confortável modelo interpretativo caiu nas graças de alunos e professores. Em especial, naqueles que buscam explicações simplistas em problemas complicados, e nos que têm alergia à demorada e cansativa pesquisa histórica. Tempos atrás, o universitário pego na armadilha anacronista, ao elaborar um trabalho acadêmico, era prontamente chamado à razão pelo mestre. Hoje ele é aplaudido. O anacronismo acabou sendo incorporado à doutrina educacional — ainda que sob camadas de verniz semântico.

Ingenuamente, muitos julgam que o novo modelo que reconstitui o passado segundo os valores da atualidade seja um avanço da historiografia. Muito pelo contrário. O anacronismo é um dos tentáculos do velho marxismo cultural no meio escolar (link). Trata-se de uma forma eficiente de contestar os valores tradicionais da sociedade, trocando-os pelos que a ideologia dominante julga apropriados.

O resultado prático desse processo pode ser visto não apenas na memória da FEB, mas também em inúmeros episódios da história nacional. Parece inacreditável, mas ainda não houve tempo suficiente para que a historiografia brasileira pudesse elaborar uma versão consensual sobre a Guerra do Paraguai, ocorrida no século retrasado (link).

A julgar pelo anacronismo prevalente na educação brasileira, salvo algum feliz acidente de percurso, as versões contraditórias de Mascarenhas, Brayner e de outros oficiais sobre o desempenho da FEB em combate permanecerão sem uma avaliação qualificada indefinidamente.


[i] Em particular, no livro A Verdade Sobre a FEB. Depoimentos de Oficiais da Reserva também oferece uma narrativa diferenciada sobre o tema.

[ii] BRASIL Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: introdução aos Parâmetros Curriculares Nacionais / Secretaria de Educação Fundamental – Brasília: MEC/SEF, 1997, p.31. Cf. < http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro051.pdf >.

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