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Posts Tagged ‘História Militar’

Nosso Blog entrevistou o historiador César Campiani Maximiano, por ocasião do lançamento do seu novo livro Estratégia Militar e História.

Nascido em São Paulo, em 1971, Campiani é Doutor em História pela USP, e desde a década de 1990 vem produzindo trabalhos sobre a História Militar, com destaque para a conceituada série de livros sobre a Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial: Onde Estão Nossos Heróis (1995); Irmãos de Armas (2005); Barbudos Sujos e Fatigados (2010); e Brazilian Expeditionary Force (2011), este último em coautoria com Ricardo Bonalume Neto.

Desta vez o autor traz uma nova colaboração para a História Militar do Brasil, propondo uma delimitação do seu campo de estudo. Trata-se de uma proposta relevante para o estudo de um tema tão importante quanto pouco explorado em nosso país — até mesmo no seio das Forças Armadas. Campiani lecionou na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e pertence a um seleto grupo de historiadores que une o domínio dos instrumentos da historiografia ao conhecimento dos princípios da estratégia militar.

Durante a entrevista, o autor ressalta a importância do estudo da História Militar na formação do profissional das armas, preparando-o para os desafios do futuro. Também menciona a lamentável aversão que pesa sobre a História Militar e a desconfiança quanto à sua validade no presente — algo característico de países como o Brasil, que raramente se envolve em conflitos bélicos. “A crença de que ‘a guerra mudou’ continua, e o aprendizado que é passível de ser extraído do passado é relegado”, diz o autor. Vamos à entrevista!

1. Qual foi sua motivação para escrever o livro? Pretendi colaborar com a delimitação do campo da História Militar no Brasil. Acredito que a História Militar possua um núcleo duro, com pesquisas focadas em torno do tema da guerra e da preparação para a guerra posicionadas em primeiro plano. Para se entender a prática da guerra, é necessário entender o pensamento que orienta para a preparação das Forças. Com isso, o estudo da História se combina com o estudo da Estratégia militar clássica.

2. A História Militar pode ajudar a elucidar episódios obscuros do passado? Os episódios históricos precisam ser analisados em suas diversas dimensões. Geografia, cultura, tecnologia, economia – todos estes aspectos ajudam a explicar o comportamento das sociedades e dos indivíduos em suas escolhas práticas. Para dar um exemplo claro: por muito tempo, se acreditou que o morticínio das trincheiras ocorreu em função da indiferença dos comandos. Mas foi só com o estudo das teorias sobre comportamento das massas que estavam em voga no início do século XX que se alcançou uma compreensão mais precisa das decisões dos comandos. Os generais não eram exatamente indiferentes: eles realmente acreditavam que manter os homens amalgamados em grupos grandes nas posições seria fator de reforço moral. Com a capacidade de destruição da Artilharia moderna disparada sobre as trincheiras, as consequências foram extremamente sangrentas. Uma noção mais clara daquilo que motiva o combatente na guerra moderna custou a surgir, assim como foi demorado o entendimento das razões por detrás das escolhas dos comandantes em 1914-1916. Porém, até os anos 1980 a ideia dos generais butchers e bunglers (açougueiros e trapalhões) ainda resistiu na Inglaterra. Às vezes, décadas se passam até que a História seja capaz de explicar porque nossos antepassados se comportaram de tais maneiras. Nada é óbvio.

3. Os preceitos da estratégia militar evoluíram significativamente desde Carl Von Clausewitz? Seus pressupostos continuam válidos para a guerra moderna? Clausewitz permanece o mais importante teórico da Estratégia de todos os tempos. Ele permanece importante porque continua sendo relevante para a prática estratégica contemporânea. Suas ideias sobre centros de gravidade, sobre a natureza da guerra e a relação entre sociedade e guerra até hoje não foram superadas. A guerra muda e evolui constantemente. Não há nem nunca haverá duas guerras idênticas. Clausewitz foi capaz de perceber essa condição do fenômeno guerra há quase duzentos anos, e esse é um dos seus principais ensinamentos. A consequência é que as mentes daqueles que estão imbuídos de conduzir os processos estratégicos e de combater devem estar permanentemente alertas para a condição de constante mutabilidade das guerras assim como para as particularidades dos conflitos enfrentados. Isso continua válido desde então e assim será no futuro. Para entender as características de uma dada guerra, é preciso em primeiro lugar entender seu contexto político. Esse é um dos grandes legados clausewitzianos e não sei como pode não ser válido para os dias de hoje.

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Imortal — Passados quase dois séculos, continuam válidos os ensinamentos de Clausewitz, considerado o maior estrategista militar de todos os tempos.

4. Nem sempre os preparativos de uma nação para guerra se revelaram adequados quando o conflito teve início. Qual a principal lição disso para os estrategistas? O estudo da História é indispensável para inculcar a ideia de que os planos nunca são executados de acordo com o esperado e para entender as condições que delimitam as características do confronto enfrentado. Infelizmente, a autoconfiança, a soberba e a certeza da vitória continuam presentes, em detrimento da consciência de que as condições políticas de um processo estratégico mudam a cada instante. Essa é uma lição da História, contudo, ela continua sendo frequentemente esquecida. Por exemplo: o que caracterizava a “vitória” na guerra de 2003 contra o Iraque? Em primeiro momento, foi a conquista de Bagdá, depois a captura de Saddam Hussein, e depois a campanha de debelar a insurgência, que tinha vários matizes. O objetivo da guerra mudou ao longo de todos esses anos. Isso mostra que nem sempre é fácil entender o que conduzirá à vitória. estrategia 5. Qual é a função da História Militar na preparação do profissional das armas, encarregado da formulação das doutrinas militares no século XXI? Doutrinas militares são criadas para serem executadas na prática. Há certa aversão nos meios militares à ideia de “teoria”. Contudo, a doutrina militar é em si mesma uma teoria: ela concerne uma visão teórica sobre aquilo que supostamente irá dar certo em combate. A História Militar auxilia a entender como uma visão de mundo embasa a criação da doutrina militar. Por exemplo, nos Estados Unidos, que é uma sociedade extremamente voltada para a tecnologia, perdurou a crença de que uma abordagem tecnocrática seria suficiente para vencer a guerra do Vietnã. Contudo, aquele conflito tinha seus precedentes históricos capazes de explicar a motivação do Vietnã do Norte, que não estava unicamente calcada no comunismo. Os norte-vietnamitas lutavam pela emancipação nacional com acentuado denodo, algo que nem a capacidade tecnológica americana foi capaz de superar. Apenas muito tardiamente os americanos foram capazes de entender o contexto da guerra em que haviam embarcado e modificar sua doutrina com as tentativas de aproximação da população. Mas, neste momento, o consenso interno já estava corrompido nos EUA – algo que pode ser perfeitamente entendido a partir da noção de centros de gravidade clausewitzianos.

6. Ao longo da História, qual foi o papel do Positivismo na elaboração dos princípios da doutrina militar e da própria História Militar? O Positivismo foi particularmente importante a partir de meados do século XIX. As doutrinas postas em campo na Primeira Guerra Mundial estavam baseadas na crença das virtudes nacionais, mas acabaram por se chocar em fenômenos como a exaustão de combate e a “neurose de guerra”. Voltamos aí ao tema sobre como até mesmo as doutrinas que aparentam ser mais práticas e objetivas também residem sobre fundamentos teóricos. A teoria da tropa inquebrantável, originada das crenças no caráter das raças, não foi páreo para os rigores do combate moderno. Os soldados não aguentavam combater por meses a fio, independente da “forja” cultural e racial de origem.

As nações que empregam a História Militar como ferramenta usual de formação profissional já abandonaram o Positivismo há tempos. A História precisa exercer o papel de questionar permanentemente os consensos estabelecidos na mera base da platitude: tomemos os alemães como exemplo. A suposta invencibilidade alemã no campo tático foi insuficiente para enfrentar os conceitos operacionais e a estratégia mais coerente que os Aliados puseram em campo. Só a crítica exaustiva das operações, das doutrinas, o estudo do armamento e das campanhas é capaz de explicar as limitações dos alemães nas duas guerras mundiais.

Porém a História Militar exerce tanto um papel formativo quanto interpretativo. Neste aspecto as mitologias militares continuam sendo importantes. Minha observação é: essas mitologias precisam estar calcadas na verdade. É errado, por exemplo, acreditar que “o soldado brasileiro tem um pendor natural para se relacionar com as populações civis”. Isso pode ser válido para o Haiti e para a Itália na Segunda Guerra, mas não é necessariamente válido para populações abertamente hostis, de origem cultural remota. Uma doutrina militar que leve esse axioma como pilar de sua elaboração pode resultar em consequências drásticas. A História Militar tende a questionar as verdades superficiais em busca de explicações mais profundas, e a disciplina com frequência se mostra desagradável para quem não gosta de ter suas crenças abaladas. Veja como o Exército Britânico, com forte tradição de guerra irregular nas colônias, teve dificuldades na contra-insurgência praticada no Afeganistão. Cada guerra tem um contexto político diferente, e o que deu certo em uma campanha não será necessariamente a solução para a próxima.

7. A Escola dos Annales e a “Nova História” alteraram significativamente este quadro? Os Annales e a “Nova História” são a anti-História Militar encarnada. Não é porque elas não sejam úteis, mas porque seus aderentes renegam a importância da História Militar tradicional. Elas têm seu papel na compreensão das sociedades de maneira mais ampla, porém, muitas vezes os adeptos dessas vertentes entendem a História Militar como algo intrinsecamente pernicioso, voltado para o fazer da guerra. Assim a História Militar perdeu importância acadêmica devido à pecha que lhe foi imputada, algo que é rapidamente reparado uma vez que um país se envolva em um conflito: aí a História Militar surge com vigor, pois não é possível desprezar a validade de tal área de estudos. A História Militar viceja em países onde as Forças são empregadas recorrentemente.

É também justo considerar o influxo de renovação que o desenvolvimento da História de forma mais ampla trouxe para o campo da História Militar: John Keegan, por exemplo, apresentou contribuições muito significativas ao estudar os combatentes comuns em seu livro A Face da Batalha. Os níveis hierárquicos mais elementares não eram até então objeto de estudo mais frequente, ao menos na Europa. Nos EUA, a situação era outra, com historiadores como Bell Irvin Wiley, que estudou o soldado comum da Guerra Civil Americana muito antes que o ranço deixado pelos Annales fosse superado em países como o Brasil.

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A FEB em destaque – César Campiani Maximiano é o autor de uma respeitada série de livros sobre a Força Expedicionária Brasileira

8. A participação da Força Expedicionária Brasileira na II Guerra Mundial tem recebido sua atenção ao longo dos anos, com uma série de obras que são uma referência confiável para o estudioso do tema. As lições aprendidas pela FEB em sua formação, treinamento, ação em combate e desmobilização são válidas no presente?

Essa resposta pode se desdobrar nos aspectos estratégicos e operacionais.

As lições são válidas porque ajudam a explicar como os brasileiros se comportam nos eventos estratégicos, algo que nem sempre é óbvio para nós mesmos. O Brasil decidiu enviar tropas para combater na Europa visando a alcançar seus objetivos nacionais, e o emprego da força continua sendo um instrumento de consecução da política para nossos líderes. Vide, por exemplo, o aumento da participação brasileira em missões de Paz com o intuito de assegurar posição mais importante para o Brasil dentro da ONU. Nem a condição de proeminência brasileira no Cone Sul foi garantida desta forma após a Segunda Guerra, nem nossa cadeira permanente no Conselho de Segurança. Cabe pensar sobre os propósitos de emprego de nossas Forças frente a tais realidades históricas.

Os processos de aprendizado em combate e de desmobilização são incrementais. Eles pressupõem a comparação com episódios prévios de caráter similar. Ninguém aprende como desmobilizar uma tropa a partir da estaca zero, é necessário saber o que deu certo e o que deu errado em momentos anteriores. Da mesma maneira, as limitações e as virtudes de uma determinada Força não surgem nem desaparecem da noite para o dia. Esses desenvolvimentos levam décadas para se consolidar, e o estudo das características da Força ao longo prazo ainda hão de dizer muito no momento de enfrentar os desafios do futuro. Para ser mais claro, a doutrina militar brasileira foi tradicionalmente calcada na ideia de defesa territorial. Cabe perguntar a respeito dessas implicações frente a um desafio emergente, como uma missão expedicionária de grandes proporções. Esse foi exatamente o contexto estratégico de nosso envolvimento na Segunda Guerra, que pode se repetir de forma similar no futuro, guardadas as diferenças contextuais. A utilidade da História Militar também reside na capacidade de formular as perguntas certas, e levar a História em consideração neste caso implica perguntar: no caso da necessidade de uma transição doutrinária para o Exército, quais serão as dificuldades?

9. Até bem pouco tempo atrás, você lecionava na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, por onde passam os futuros generais do Exército Brasileiro. Este tema tem sido valorizado e recebido o devido espaço nos currículos militares? Não tem sido valorizado, mesmo apesar do forte entusiasmo dos alunos. A crença de que “a guerra mudou” continua, e o aprendizado que é passível de ser extraído do passado é relegado. Contudo, as novas doutrinas e conceitos operacionais precisam passar pelo exame do rigor histórico. A guerra mudou de fato? A pergunta é muito pertinente: o que é de fato “novo” no domínio da estratégia? A História traz algumas respostas. Esta disciplina certamente não é a única capaz de esclarecer esse assunto nebuloso, mas ela é sem dúvida indispensável.


Agradecemos ao autor pela entrevista e desejamos sucesso com seu novo livro, que pode ser adqurido na Amazon acessando este link (versão digital).

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Acaba de ser lançado no mercado o livro Estratégia Militar e História, do amigo César Campiani Maximiano. Já exibindo o selo do Centro Histórico Overlord, a obra está sendo oferecida no formato digital e-book pela Amazon neste link. Conhecendo de antemão o alto padrão de qualidade das obras lançadas anteriormente pelo autor, o novo livro promete ser um exemplar obrigatório na estante do leitor aficcionado pela História Militar.

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Estratégia Militar e História

SINOPSE

Os textos contidos neste volume versam sobre aquilo que, em diferentes momentos da história, se acreditou como o procedimento certo para que se vencessem as guerras. Em alguns casos eles expõem a enorme distância entre o que se imaginava que seria a guerra e como ela efetivamente foi travada durante as campanhas. Todos capítulos partem do pressuposto que a guerra consiste em atividade investida de uma essência permanente, porém moldada por características cambiantes. Não há dilemas estratégicos inéditos: as comunidades humanas são movidas por desejos de proteger o que é seu, ou avançar seu controle sobre posses alheias, seja para aumentar seu poder ou simplesmente continuar existindo. Neste aspecto o Sistema de Monitoramento de Fronteiras da Amazônia dotado de tecnologia de última geração, a Muralha de Adriano construída de pedra e atalaias e a Linha Maginot baseada na tecnologia da Era Industrial foram concebidos para efetuar exatamente o mesmo efeito estratégico: inibir inimigos e defender fronteiras. Esses desejos precisam ser traduzidos no campo prático por meio do emprego da força. As ferramentas para estas finalidades estão sujeitas à evolução, mas os objetivos delineados não se distinguem em termos de motivação daqueles que moviam as cidades estado gregas no tempo da Guerra do Peloponeso: medo, honra e interesse. Tal natureza imutável da guerra se manifesta na disciplina errática da estratégia, na qual a simplicidade enganadora das finalidades almejadas esbarra na dificuldade e complexidade materializadas no momento de cumprir as tarefas que conduzem aos objetivos nacionais. Por várias ocasiões, essa complexidade corresponde na dificultosa adaptação a um contexto de guerra em que se faz urgente a atualização da doutrina militar e da familiaridade com o equipamento e armamento, por outras, a solidez da disposição para o combate é mal interpretada pela nebulosidade do emaranhado das versões produzidas anos após o decorrer dos eventos, em algumas vezes a falta de lucidez não permite conjecturar a incompatibilidade de meios com objetivos irreais.

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