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Posts Tagged ‘Força Expedicionária Brasileira’

A forte religiosidade é uma característica presente no soldado brasileiro desde os mais antigos registros de batalhas, quando imagens de santos eram levadas à frente das tropas contra o inimigo. Esta também foi uma particularidade dos homens do III Batalhão do 11º Regimento de Infantaria — O “Lapa Azul”.

Antecedentes

Traço característico do nosso povo, a fé em Deus permeia as tradições do Exército Brasileiro. O Hino à Nossa Senhora da Conceição, padroeira do Exército Imperial, acompanhou nossos soldados desde o período colonial até o fim do Império, sendo também conhecida como a Canção do Soldado.

O General Raul Silveira de Mello em “O Terço dos Soldados ou dos Militares” afirmou que “antes mesmo do advento do Hino Nacional, o Hino à Nossa Senhora da Conceição era a balada dos nossos avoengos, a nossa canção de guerra”. Esta canção era entoada por todos os soldados do Exército, nos quartéis, após a revista do recolher.

Conta o General Dionísio Evangelista de Castro Cerqueira, em seu livro Reminiscências da Guerra do Paraguai, que na vigília do dia 23 de maio de 1866, antes da histórica batalha de Tuiuti, ao toque de recolher, às oito horas da noite, todos os corpos formaram. Depois da chamada; os sargentos puxaram as companhias para a frente da bandeira, e rezou-se o terço. Alguns praças, os melhores cantores, entoaram com voz vibrante, sonora e cheia de sentimento, a velha canção do soldado brasileiro: Oh! Virgem da Conceição.
As músicas de quarenta batalhões acompanhavam, expressivas, aquela grande prece ao luar, rezada tão longe dos lares.[i]

“Oh Virgem da Conceição, Maria Imaculada, vós sois a advogada dos pecadores, e a todos encheis de graça com vossa feliz grandeza. Vós sois dos céus, princesa, e do Espírito Santo, Esposa. Santa Maria, mãe de Deus, rogai a Jesus, rogai por nós. Tende misericórdia, Senhora. Tende misericórdia de nós. Maria mãe de graça, mãe de misericórdia, livrai-nos do inimigo. Recebei-nos na hora de nossa morte. Amém”

Tocava-se depois: ajoelhar corpos. Todos aqueles homens simples, rudes e cheios de fé, que iam bater-se como leões, no dia seguinte, puseram-se de joelhos, e com as mãos musculosas, apertando os largos peitos valorosos, entoaram, cheios de contrição e de fé, o “Senhor Deus, misericórdia, Senhor Deus pequei, Senhor misericórdia. Senhor Deus, por nossa Mãe Maria Santíssima, misericórdia”. Logo depois começavam a rezar o terço.[ii]

“Bandeiras se batiam até o chão”- Era notório o espírito religioso de que estavam imbuídos os brasileiros que participaram na Guerra do Paraguai, além da bravura militar que caracterizou os combatentes. Neste sentido, relata-nos o já citado general Dionísio Cerqueira as Missas e cerimônias religiosas realizadas nos acampamentos nacionais dos Voluntários da Pátria:

No alto da coxilha do Potreiro Pires, construiu-se, por ordem superior, uma capelinha coberta de colmo e paredes de taipa de sebe. Todos os domingos ia à Missa a divisão inteira. Era digno de ver o grandioso espetáculo daquela infantaria, formada em colunas contíguas, ajoelhar no campo, de cabeça descoberta, as armas em adoração e batendo no peito, quando o sacerdote levantava a Hóstia e todas as cornetas tocavam marcha batida e todas as músicas do Hino Nacional e todas as bandeiras se batiam até o chão. A ordem da divisão era para a Missa às nove horas. As brigadas formavam às oito, os batalhões às sete e as companhias às seis ou antes. Para aquela soldadesca não deixava de ser fatigante essa formatura, a pé firme, tanto tempo. Entretanto, iam a ela satisfeitos.[iii]

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Soldados brasileiros ajoelham-se ante a estátua de Nossa Senhora da Conceição durante uma procissão em 30 de maio de 1868. (Wikipedia)

A Religiosidade na FEB

A queda da Monarquia e a ascensão dos ideais positivistas na República suprimiu os capelães dos quadros do Exército. Contudo, a participação brasileira na II Guerra Mundial obrigou o governo a voltar atrás, convocando 25 capelães militares e três pastores evangélicos para acompanharem a Força Expedicionária Brasileira. Como na Campanha do Paraguai, pequenas capelas foram erigidas por nossos soldados em diversos locais. Um deles, em Staffoli, foi redescoberto e recuperado há pouco tempo.

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Religiosidade na FEB na Itália: altar em Staffoli, redescoberto e recuperado. (Foto de Vinícius Carvalho)

Há um belo trabalho acadêmico que aborda este tema — embora não seja o seu foco principal — da doutoranda Adriane Piovezan. Morte no Mediterrâneo: O Pelotão de Sepultamento da Força Expedicionária Brasileira. Fruto de uma pesquisa detalhada no Arquivo Histórico do Exército, a autora elaborou uma tabela com os objetos encontrados nos cadáveres dos brasileiros. Nos relatórios do Pelotão de Sepultamento há crucifixos, estampas e medalhas de santos, orações, quadros e imagens religiosos, rosários e até um Novo Testamento inteiro.

Objeto Ocorrências mais frequentes
Chapa de identificação 333
Objetos diversos 187
Nada 175
Dinheiro 144
Fotografias 116
Medalhas religiosas 84
Correspondência 59
Carteira 51
Estampas de Santos 47
Cartão de Identificação 43
Crucifixos 34
Orações 32
Quadros Religiosos 31
Anel 30
Manual de Orações 27
Relógio 27
Recibo Banco do Brasil 24
Rosários 23
Corrente 21
Registro de Vacina 20
Caneta 19
Canivete 15
Imagens Religiosas 11
Telegrama 10
Relíquias Religiosas 9

“Chegamos a 32,17% de soldados mortos que levavam consigo algum objeto de cunho religioso no momento de sua morte. Em praticamente um terço dos cadáveres foram encontrados artefatos ou impressos relacionados a diferentes devoções, praticamente todos de origem cristã”, afirmou a doutoranda.

Embora este seja um dado altamente relevante para a avaliação do grau de religiosidade — um sentimento abstrato — na tropa, por si só a relação de objetos não nos permite sabê-lo com exatidão, visto que o porte de símbolos religiosos não representa, necessariamente, a presença ou não da fé no falecido. Além disso, era comum o saque dos cadáveres por civis ou militares amigos ou inimigos, que lhes furtavam os pertences — até mesmo os calçados. Em um dos seus livros de memórias, o Coronel Brayner, Chefe do Estado-Maior da FEB, relata um episódio em que a plaqueta de identificação de um pracinha foi furtada, deixando-se em seu lugar o nome do militar escrito num pedaço de papel no interior de uma garrafa. Isso para não mencionar o esfacelamento das vítimas ao pisarem numa mina ou quando atingidos pelo impacto direto do fogo de artilharia, que costumava pulverizar tudo o que não fosse constituído de metal.

Bem melhores que os frios dados estatísticos, referências confiáveis sobre o grau de religiosidade da tropa podem ser buscadas não só nos relatos dos capelães militares, mas nos depoimentos dos veteranos da FEB. O Major Ivan Esteves Alves foi o Auxiliar de Informações do “Lapa Azul” na Força Expedicionária Brasileira, como 2º Sargento. Ivan lembra que “naquela época era todo o mundo que rezava”.

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Missa campal em Alessandria, conduzida pelo Frei Alfredo. (Arquivo pessoal do Major Ivan Esteves Alves)

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Idem. O Frei Alfredo era o 1º Tenente Waldemar Setaro, capelão do “Lapa Azul”. (Arquivo pessoal do Major Ivan Esteves Alves)

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Oração junto ao túmulo do Frei Orlando em Pistoia (Arquivo pessoal do Major Ivan Esteves Alves)

Em suas memórias, o Tenente Cássio Abranches Viotti conta a seguinte passagem:

Mal desembarcado o 2º Escalão, eram cerca de 10.000 homens, foi realizada em Pisa uma procissão belíssima. Os soldados transportavam uma imagem de Nossa de Senhora da Aparecida, cheios de unção, cantando cânticos aprendidos na infância em suas paróquias do interior. Os italianos assistiram, extasiados, àquele desfile triunfal de soldados desarmados, cujo troféu era a imagem daquela Virgem Negra do Brasil. Nunca, jamais, a península italiana, há milênios invadida por tropa africanas, bárbaras, napoleônicas, germânicas, assistira a um desfile como aquele, em que oficiais e soldados, irmanados pela mesma fé católica, davam um exemplo magnífico de religiosidade.[iv]

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Procissão de Nossa Senhora da Aparecida em Pisa: A FEB manteve viva na II GM a fé do soldado brasileiro professada na Guerra do Paraguai.

Certas conclusões errôneas podem advir do estudo deste tema. Por vezes, alguns estudiosos estabelecem uma relação direta entre a religiosidade e o grau hierárquico / nível intelectual do militar. Assim, quanto menor a patente e o grau de instrução, maior seria o grau de religiosidade. Trata-se de um erro crasso. Na Itália, ninguém menos do que o Comandante da FEB, o General Mascarenhas de Morais, recorreu ao tenente Capelão Militar:

— Capelão, antes de ver no senhor o tenente, vejo o padre. Sou um homem de fé. Sou católico, e busco na minha religião a força que preciso para bem cumprir os meus deveres de cristão e de soldado. Como soldado, aprouve a providência de colocar-me à frente da FEB, como seu comandante. Deus não me tem faltado com sua ajuda. Diariamente, peço-lhe a serenidade necessária para suportar as críticas e as incompreensões a que não está imune um comandante. Sempre pautei meus atos pelos princípios da minha religião. Na Eucaristia, busco as energias para transpor os obstáculos e vencer as dificuldades inerentes à minha missão. Contudo, em meio a todas essas dificuldades, próprias de um comando, eu confio em mim, porque confio em Deus, Capelão. E assim, será até sempre.[1]

Conclusão

A religiosidade dos homens do “Lapa Azul” é uma característica do soldado brasileiro presente nos mais remotos registros da nossa História Militar. Dos Voluntários da Pátria no Chaco paraguaio até o pracinha enregelado nos Apeninos italianos, a fé dos nossos soldados ficou registrada nas páginas dos memorialistas e nos altares construídos pela tropa.

A razão para isso é muito simples. É no calor do combate onde o verniz racionalista escorre do ser humano, deixando nus a soberba e os demais artifícios criados pela filosofia materialista. Quanto mais as ameaças se agigantam, mais a fé torna-se necessária, pois só ela conforta o homem nos momentos de desafio. Isso vale para simples jogadores de futebol em times de várzea, que se reúnem para orar antes e após as partidas — seja qual for o resultado delas — ou para os integrantes de patrulhas de combate da FEB — do tenente ao soldado mais moderno — que muitas vezes se uniam em oração antes das suas incursões na “terra de ninguém”.

Historicamente, inúmeras doutrinas tentaram afastar o ser humano de Deus. Contudo, desde o Positivismo, passando pelo Marxismo, até a promoção do ateísmo — disfarçado de laicismo — nos dias atuais, nada foi capaz de afastar a fé do homem da guerra no seu Criador. Não é à toa que o serviço de capelania militar encontra-se presente nos mais diversos cenários de conflitos, seja nas tropas da OTAN no Afeganistão (link) ou no contingente das Forças Armadas Brasileiras no Haiti. (link).

Para o leigo racionalista, a morte de um soldado encolhido numa trincheira, causada por um projetil disparado a mais de uma dezena de quilômetros, não passa de mero azar ou de uma obra do acaso.

Já o artilheiro reconhece na fatalidade a resultante de uma multiplicidade de fatores: o ajuste do observador, os cálculos da central de tiro, o registro dos elementos de pontaria nos aparelhos da peça, a posição das bolhas de nivelamento, a maior ou menor resistência do solo ante o recuo da sapata da peça, a presença de alguns minúsculos de pólvora — a mais ou a menos — no saquitel das cargas de projeção, o lote de munição propulsora mais potente ou mais fraco, a temperatura do tubo ou da munição estocada, a ocorrência uma lufada de vento imprevisível, a variação de temperatura das diferentes camadas atmosféricas, a aleatoriedade dos rumos dos estilhaços e centenas de outros componentes. Por isso, o artilheiro faz uso de balões de sondagem lançados ao ar periodicamente, consulta os termômetros da pólvora, e até insere as correções de trajetória devido à rotação da terra quando emprega calibres maiores. Porém, o artilheiro reconhece que é quase impossível atingir um ponto fixo com o tiro indireto, ainda que dispondo dos mais avançados instrumentos de pontaria, sem antes empregar uma grande quantidade de munição.

Intuitivamente, até mesmo o soldado semialfabetizado acredita que o seu destino não está nas mãos do artilheiro inimigo, nem pertence ao reino das probabilidades. Sem ao menos desconfiar da complexidade que envolve a técnica de tiro, por um instante o crente entrincheirado durante um forte bombardeio iguala-se ao maior físico da história da humanidade. “Não tenho fé suficiente para ser ateu, pois Deus não joga dados”, escreveu Albert Einstein ao físico Max Born, em 1926, ao referir-se à teoria das probabilidades da mecânica quântica.

Aos olhos do ímpio, a presença de símbolos religiosos no espólio dos mortos em combate seria a prova inconteste da inutilidade da fé em Deus. Nada mais equivocado. Conforme Mascarenhas de Morais expressou ao seu capelão, o homem de fé busca na religião a força para cumprir os seus deveres de cristão e de soldado. A guarda de artefatos religiosos é bem mais um símbolo, um ponto de referência da fé, do que o apego a algo que o torne indestrutível.

Quando ferido com gravidade, em meio aos seus últimos suspiros de vida, a proximidade da morte é aterradora para o ímpio. Já para o crente, é o começo de uma nova vida. Conforme diz um dos versos da antiga canção do soldado brasileiro, dedicada à Virgem da Conceição: “Recebei-nos na hora de nossa morte, Amém”.


Fontes:

http://www.catolicismo.com.br/

[1] Revista do Exército Brasileiro v. 120 N4 outubro\dezembro de 1983, depoimento do Monsenhor Alberto da Costa Reis Pg. 219

[i] Dionísio Cerqueira, Reminiscências da Campanha do Paraguai, Biblioteca do Exército Editora, Rio de Janeiro, 1980. p. 155.

[ii] Projeto Brasilidade, Instituto Cultural GBOEX, Porto Alegre, 1990, vol. I, p. 40

[iii] Dionísio Cerqueira, Op. Cit., p. 181.

[iv] Crônicas da Guerra –  A Religiosidade dos Soldados, Cássio Abranches Viotti, edição do autor.p.145.

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O fato que irei narrar aconteceu há pouco tempo atrás. Peguei a estrada ao lado de um amigo, professor de História, a fim de gravarmos entrevistas com veteranos da Força Expedicionária Brasileira. Juntos colhemos inúmeros depoimentos de pracinhas em várias cidades do interior de São Paulo. O resultado foi altamente proveitoso. Foram gravadas histórias notáveis, contadas por senhores que vivenciaram situações de risco de morte em combate, capazes de inspirar inúmeros documentários ou filmes de guerra. Todavia, um ocorrido chamou a minha atenção. No intervalo das entrevistas, fui convidado para participar de um churrasco junto aos colegas de trabalho do amigo professor. Lá chegando, quando falamos brevemente acerca do nosso trabalho, um docente manifestou surpresa e exclamou:

— Mas esses velhos ainda não morreram?

A pergunta foi surpreendente. Se ela tivesse partido de um jovem estudante seria compreensível, mas ela viera de um professor pertencente a uma das mais renomadas instituições de ensino particulares do Brasil.

Porém, o ocorrido é apenas a introdução deste post. O tema central é a divulgação da história dos homens do III Batalhão do 11º Regimento de Infantaria em um local inusitado: a Dinamarca.

Graças à iniciativa do professor brasileiro Vinícius Mariano de Carvalho, os estudantes de Estudos Brasileiros e Estudos Latino-Americanos da Universidade de Aarhus tiveram uma magnífica aula sobre a participação do Brasil na II Guerra Mundial.

Aqui está um resumo das atividades do curso no texto: “Nas Pegadas da FEB“, escrito pelas alunas Diana Hansen e Kirstine Larsen (em azul):

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Nas pegadas da FEB

Os estudantes de Estudos Brasileiros e Estudos Latino-Americanos da Universidade de Aarhus, Dinamarca, após um semestre de aulas sobre a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial, fizeram uma excursão à Itália para visitar os campos de batalha onde lutaram os soldados da Força Expedicionária Brasileira, ao lado dos Aliados, nas últimas etapas do conflito.

Mario Pereira, guardião do Monumento Votivo Militar Brasileiro em Pistóia, e filho de mãe italiana e do soldado brasileiro Miguel Pereira, levou os estudantes para uma verdadeira epopeia sobre a presença brasileira na Itália. Foram visitas a monumentos e museus importantes para a memória e homenagem aos soldados da FEB que lutaram e tombaram em combate, entre outros, o monumento ao Sargento Max Wolf Filho e aos “três Bravos Brasileiros”.

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Os estudantes foram ainda em áreas estratégicas das batalhas da FEB contra os nazistas na linha gótica, conhecendo como era a linha de defesa alemã e e visitando bunkers e postos de observação alemães. Subindo a pé o Monte Castelo, os jovens viveram na carne a dificuldade do terreno e do tempo (uma chuva fina e insistente acompanhou o grupo durante toda a subida), o que lhes facilitou a compreensão do que deve ter sido para um soldado brasileiro ter que percorrer a mesma distância, em temperaturas abaixo de zero e recebendo tiros e granadas alemãs desde o topo do monte. A conquista de Monte Castelo pelos estudantes não se compara à conquista do mesmo monte pelos pracinhas da FEB, mas no silêncio e calma daquele topo, prestamos nossa homenagem e respeito aos que ali tombaram pelo fim de um regime totalitário.

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Em Montese, compreenderam como os brasileiros tiveram que passar de uma batalha campal para uma batalha urbana e conquistar uma cidade.

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Durante a viagem o grupo visitou o pesquisador e colecionador italiano Giovanni Sulla, que impressionou o grupo por sua paixão pelo tema, sua impressionante coleção de artefatos da guerra, desde minas e uniformes, até cartas de amor. Sulla deu uma descrição viva da relações entre os soldados brasileiros com a população local italiana. Até hoje os soldados brasileiros ocupam um lugar especial no coração dos italianos, em virtude da relação cordial que tiveram com aquele povo já tão sofrido pela guerra. Aspectos culturais e religiosos aproximaram brasileiros e italianos e com isso os brasileiros conseguiram deixar marcas de amizade.

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O grupo visitou também o altar de Staffoli, construído pelos soldados brasileiros na área de acampamento . Este altar de pedra esteve por muitos anos oculto pela natureza e apenas recentemente foi redescoberto e recuperado. Mais uma memória da passagem da FEB pela Itália.

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Antes da viagem, os estudantes assistiram, durante um semestre, um curso sobre a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, ministrado pelo Prof. Dr. Vinicius Mariano de Carvalho. O curso teve como objetivo compreender o contexto em que o Brasil vivia antes do conflito, como se viu inserido na guerra e como a participação ativa do país teve influências significativas tanto politica, como culturalmente. Uma boa parte do curso foi dedicado ao estudo da Força Expedicionária Brasileira e um dos pontos altos foi a entrevista online feita com dois veteranos da FEB  Antonio de Pádua Inham e José Maria da Silva, ambos de Juiz de Fora, e com o diretor do documentário Lapa Azul.

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A conversa com os veteranos deu uma perspectiva humana para o que se estudava no curso e, mesmo à distância, os dois conquistaram a simpatia dos alunos. A conversa com Durval Junior também foi extremamente rica e esclarecedora, uma vez que seu documentário foi assistido durante o curso.

O curso e a excursão pela Itália deram uma ideia mais profunda dos acontecimentos e da importância da memória da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Com certeza aqueles 25.334 soldados influenciaram muito mais a formação do Brasil contemporâneo.

A excursão foi realizada graças ao apoio do Sr. Mario Pereira, que recebeu o grupo com muito carinho e atenção, cuidando de todos os detalhes de um programa rico e significativo.

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Refletindo um pouco acerca dos dois eventos (o ocorrido no interior paulista e o na Dinamarca), é difícil não questionar os motivos pelos quais nós, brasileiros, desconhecemos a nossa própria história. Quantos docentes de História do Brasil ensinam aos seus alunos a trajetória do Brasil na II GM? Quantos convidam os veteranos da FEB para uma visita à sala de aula? Embora as desculpas sejam muitas, as verdadeiras razões são pouco conhecidas. Uma delas é evidente: os currículos escolares não contemplam a história da FEB.

A escola brasileira possui seus Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) baseados em conceitos equivocados e ultrapassados. Repassada aos jovens com um acentuado viés ideológico, a memória dos nossos heróis e vultos históricos muitas vezes é ignorada ou mesmo deturpada. Pior. O resultado prático dos PCN colocou a educação brasileira nas últimas colocações do ranking educacional internacional. Somado a esse quadro desastroso, boa parte do meio cultural-educacional brasileiro estabeleceu um verdadeiro culto à mediocridade, no qual o ensino de qualidade, a pesquisa e o estudo aprofundado são notas dissonantes. Cada vez há menos lugar nele para profissionais do quilate deste professor brasileiro na Dinamarca — e mais para o do interior paulista.

À propósito, Vinícius Carvalho agora é professor do King’s College, em Londres. Merecidamente.

 

 

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Foi realizado no auditório da Universidade Federal de São João del-Rei, durante os dias 19 e 20 de março, o III Seminário nacional sobre a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial (III SENAB).

Promovido pela Diretoria de Patrimônio Histórico e Cultural do Exército (DPHCEX), o evento relembrou os 70 anos do embarque da Força Expedicionária Brasileira (FEB) para a Itália. Por meio de conferências ministradas durante o encontro, foi possível conhecer diferentes aspectos da participação brasileira na guerra.

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Participantes do III SENAB.

O III SENAB contou com a participação de representantes de diversas instituições militares e civis (IPHAN; Centro de Capitães da Marinha Mercante; 6º Batalhão de Infantaria Leve; 11º Batalhão de Infantaria de Montanha; ANVFEB; 21º Grupo de Artilharia de Campanha; INCAER – Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica e a Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha), com destaque para a palestra “A Guerra que Eu Vivi“, proferida pelo veterano da FEB Major Ivan Esteves Alves.

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Major Ivan Esteves Alves junto ao autor do Blog.

O evento foi organizado contou com o apoio da Universidade Federal de São João del-Rei e da 4ª Brigada de Infantaria Leve de Montanha, que, por meio do 11º Batalhão de Infantaria (11º BIMtnh), montou uma bela exposição de material histórico da FEB na entrada no auditório. Entre as peças do seu rico acervo, destaca-se um capacete utilizado pela tropa brasileira na Itália. Trespassado por um projetil, o capacete apresenta indícios de que tenha sido perfurado em combate. Conforme apontou o professor Cléber Almeida de Oliveira (foto), a marca de oxidação na sua parte interna sugere a ação do sangue no metal.

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Capacete utilizado por um militar da FEB durante a Campanha da Itália.

Tresassado por um projetil, na face intterna do capacete é visível uma mancha causada oxidação no metal.

A mancha causada pela oxidação no metal é visível na face interna do capacete.

A Biblioteca do Exército marcou presença no III SENAB, montando um stand de vendas que ofereceu ao público vários exemplares da sua coleção.

Stand de vendas da Bibliex.

Stand de vendas da Bibliex.

O encontro foi encerrado com um coquetel nas bem conservadas dependências do SESC (antiga sede do III Batalhão do 11º Regimento de Infantaria: o “Lapa Azul”).

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Da esquerda para a direita: Professor Cléber, General Márcio Bergo e o autor do Blog. Ao fundo, o CESC de São João del-Rei, antiga sede do “Lapa Azul”.

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Coquetel de encerramento.

Na manhã de 21 de março, o 11º BIMtnh realizou uma formatura com a participação de veteranos da FEB e de integrantes da Coluna da Vitória, organizada e promovida pela  Associação Brasileira de Preservadores de Viaturas Militares – ABPVM e pelo Grupo Histórico FEB – GHFEB.

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Formatura comemorativa no 11º Batalhão de Infantaria de Montanha.

Coluna da Vitória

Coluna da Vitória

No sábado e no domingo, o braço mineiro da Coluna da Vitória prossegue sua jornada com escalas em Juiz de Fora e em Petrópolis. A caravana termina sua jornada no domingo, no Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, às 11:00 hrs, onde será realizada uma grande solenidade. A todos os integrantes do III SENAB e da Coluna da Vitória, os parabéns pela bela iniciativa em preservar e relembrar a valorosa participação brasileira no maior conflito da história da humanidade.

O amigo Marcos Renault, acompanhado de um veterano da FEB e integrantes da Coluna da Vitória durante a escala em S.J. del Rei

O amigo Marcos Renault, acompanhado de um veterano da FEB e de integrantes da Coluna da Vitória, durante a escala em S.J. del-Rei.

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Pesquisador lançou a 2ª Edição de livro sobre socorrenses na FEB

Lançamento do livro de Derek reúne amigos e familiares dos soldados socorrenses da FEB
 
Na noite de 17 de janeiro, sexta-feira, na sede da Sociedade Ítalo-Brasileira Socorrense, o historiador e escritor Derek Destito Vertino lançou a segunda edição do livro “Da Glória ao Esquecimento: Os socorrenses na Segunda Guerra”, numa abordagem histórica da participação dos socorrenses na Força Expedicionária Brasileira (FEB).

Mesmo não sendo socorrense, mas conhecendo o tema que foi esquecido por mais de 65 anos, Derek fez uma grande pesquisa para localizar os soldados  de Socorro que participaram na guerra que mobilizou aproximadamente 25.000 jovens brasileiros na FEB.

O Brasil só declarou guerra ao eixo e mobilizou uma Divisão de Infantaria para a Campanha da Itália (1944-1945), após o torpedeamento de navios brasileiros por submarinos alemães e italianos. Segundo o historiador, dizia-se, na época, que era mais fácil a cobra fumar, do que o Brasil entrar na guerra. Quando isso ocorreu, os soldados brasileiros usaram o lema “A Cobra Fumou” e, apesar do pouco conhecimento de guerra e sem estarem preparados para tanto, os brasileiros enfrentaram o experiente exército alemão, durante vários meses na Itália, libertaram dezenas de vilas, fizeram aproximadamente 20.000 prisioneiros de guerra – o que impressionou o Comando Americano – e colaboraram com a queda do nazi-fascismo na Europa.

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Ao falar da época, Derek destaca: “Havia uma contradição nessa entrada de nossos soldados na guerra: vivíamos em uma ditadura e lutávamos ao lado das forças democráticas. A primeira vitória da FEB, no retorno para a casa, foi a queda de Getúlio Vargas e a volta da democracia no Brasil”. Os socorrenses homenageados no livro atuaram na defesa do litoral e Campanha da Itália: Benedito Vaz de Lima, Thomás Marcelino Borim, Manfredo Lugli, Luiz Granconato, José Maria Teixeira e Ramiro Zucato. Com a publicação do livro que resgata a memória desses socorrenses, Derek também luta por um monumento a eles dedicado, a exemplo que acontece em outras cidades, como reconhecimento oficial de seus conterrâneos.

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Para o advogado e artista plástico, Dr José Benedito Ferreira, presente ao evento “esse escritor que produziu uma obra com tanto cuidado e empenho que aqui não nasceu, merece o reconhecimento de toda a nossa sociedade, com o título de Cidadão Socorrense, pois agora já participa como poucos de nossa história, resgatando o que era de desconhecimento de grande maioria da população.  E Derek merece todo esse reconhecimento local, pois seu trabalho já é reconhecido em todo o Brasil, tendo como destaques a Medalha Expedicionário (Associação dos Ex-Combatentes de São Paulo) e Diploma Benjamin Constantant (Instituto dos Docentes do Magistério Militar e Colégio Militar de Santa Maria/RS), entre outras homenagens.

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Meus parabéns ao jovem escritor e pesquisador Derek.  Que seu exemplo seja reproduzido em muitas outras cidades do Brasil!

Reserve o seu exemplar por apenas R$25 (frete incluso) no e-mail: derekdestito@hotmail.com

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A perda de um ente querido normalmente se revela capaz de provocar mais reflexões sobre a vida do que a leitura de muitos livros. Ainda que inevitável, quase sempre ela vem acompanhada da surpresa. Por isso, quando recebi a notícia do falecimento do Major Ruy de Oliveira Fonseca, o mundo quase veio abaixo.

Na minha imaginação, o Major Ruy não era o veterano com idade provecta (97 anos), de corpo franzino, e que caminhava sempre amparado. Apesar de conhecê-lo de longa data, a imagem que cultivava do seu porte físico era oposta. Em nossas conversas por telefone, sua lucidez, inteligência e memória notável forjaram a imagem do tenente de infantaria jovem e cheio de vida, que retornou da Itália vitorioso após II Guerra Mundial. Assim, a sua morte causou um verdadeiro “choque de realidade”.

O então Tenente Ruy em 1945, com a expressão de felicidade ao ter voltado para casa vivo e bem de saúde após tantos perigos, como ele próprio definiu esta foto em seu livro: “Uma Face da Glória”.

Procurando notícias sobre o falecimento na internet, consultei o principal jornal da cidade no dia seguinte ao seu enterro, onde encontrei a edição de domingo recheada das suas pautas corriqueiras: intrigas eleitorais, assaltos e furtos; na coluna social, matérias pagas com fotos de socialites auto-massageando o ego; na seção de esportes, notícias do time da cidade rebaixado para a 4ª Divisão do Campeonato Brasileiro; nos classificados, propagandas da venda de imóveis e veículos, além de anúncios de homens e mulheres vendendo o próprio corpo. Houve destaque até para o estudo de um juiz-forano sobre um tal pássaro formigueiro-assobiador do Poço de Antas. Contudo, nenhuma notícia sobre o falecimento do Major Ruy foi veiculada, nem ao menos num rodapé de canto de página ou no obituário.

Capa de domingo do principal jornal da cidade: os olhos da mídia são os olhos do mundo.

Ao me ver triste e inconformado, minha esposa — sempre ela — decidiu consolar-me, revelando algo que estava diante dos meus olhos, mas que eu não enxergava — uma visão que parece loucura aos olhos dos homens: não havia o que lamentar. Deus me brindara com a amizade do Major Ruy durante anos. Como se não bastasse isso, sem que eu soubesse, o Criador me concedera a oportunidade do último adeus, trazendo o veterano à minha residência – ainda que debilitado fisicamente – poucos meses antes: Ruy viera despedir-se.

Major Ruy em visita à Campinas em 2012: a visita mais ilustre que um pesquisador da FEB poderia receber em sua casa.

Sua revelação me fez sentir tal qual o personagem Neo acordando da ilusão forjada pela Matrix. Foi como se estivesse imerso numa realidade ilusória, chafurdado no universo da futilidade humana, onde as energias são drenadas continuamente para o vazio.

Estava procurando no lugar errado. Não seria nos jornais onde encontraria algo sobre o amigo que partira. Os olhos da mídia são os olhos do mundo, e o mundo só tem olhos para as suas coisas. Ruy de Oliveira Fonseca não fora político, jogador de futebol, milionário ou artista famoso: o tipo de gente que a mídia tanto idolatra. Paradoxalmente, foi ele um dos cidadão mais ilustres de Juiz de Fora: um dos 25.334  brasileiros que lutaram na Itália, durante a II Guerra Mundial — e o fez galhardamente —  comandando o Pelotão de Petrechos Pesados da 4ª Cia do II Batalhão do 11º Regimento de Infantaria.

O Major Ruy representa a figura do cidadão patriota, voluntarioso e corajoso, que arriscou a vida pelo seu país e por seus ideais. Porém, o mundo normalmente despreza isso — a não ser que fareje lucro. O mundo enxerga apenas a casca externa do ser humano. Para o mundo, Ruy não passava de um velho cheio de velhas histórias de heroísmo e bravura, e a grande mídia não se interessa muito por elas, pois cultiva seus próprios valores: a juventude, o hedonismo, o prazer da carne e do consumo, o “eu” sempre em primeiro lugar; afinal, isso tudo faz sucesso e vende bem mais — patriotismo e civismo são conceitos ultrapassados.

Major Ruy em entrevista para o Projeto Memória Viva

Quando jovem, Ruy frequentou o Seminário São José por seis anos — era um homem de fé. Quem teve o privilégio de partilhar da sua amizade, percebia nele o olhar de quem enxerga muito além do que a maioria dos homens é capaz —  além dos olhos do mundo. A frase final do seu Diário de Guerra, escrita quando estava no convés do navio que o trouxe de volta ao Brasil, prestes a desembarcar, é reveladora:

“Revisto-me de muita esperança e de muita energia para enfrentar o futuro que me aguarda. Será uma nova guerra e já estou preparado para ela. Como no Capistrano (local de treinamento da FEB), aguardo a ordem do Comandante Supremo da Vida: Em frente, marche!”.

O Tenente Ruy seguiu em frente e travou sua nova guerra, como marido e pai dedicado. Lutou, venceu, e então descansou.

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Roteiro da FEB na Itália

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Parte I – O Destacamento FEB

Quem tem a oportunidade de conhecer a Toscana italiana, certamente fica admirado com a impressionante beleza natural da região. Além disso, a recepção aos brasileiros é afetuosa, em particular a oriunda dos habitantes mais idosos. Tirando a hospitabilidade italiana, há uma razão histórica para tal recepção. Na década de 40, lá esteve a Força Expedicionária Brasileira (FEB), durante a II Guerra Mundial, libertando dezenas de cidades e vilarejos do domínio nazifascista. Foi pensando nos brasileiros que para lá viajam, interessados em conhecer um pouco da atuação da FEB na Toscana, que este post foi escrito.

A presença brasileira da FEB na Toscana italiana, locada no Google Earth

A seguir, encontra-se a cronologia e locais por onde passaram os pracinhas brasileiros do Destacamento FEB, comandado pelo General Zenóbio da Costa, que realizou as primeiras operações militares em solo europeu. 16.07.1944 – Desembarque em Nápoles (Itália), dirigindo-se para a região de Agnaro. 04.08.1944 – Deslocamento para a região da Tarquinia. 14.08.1944 – Incorporação ao V Exército Americano. 21.08.1944 – Deslocamento de  Tarquinia para a região de Vada. 13.09.1944 – Deslocamento de Vada para Ospedaleto. 14.09.1944 – Deslocamento de Ospedaleto para Vecchiano, para substituir o 434º Batalhão de Artilharia antiaérea norte-americano, recebendo a missão de progredir para o norte, tendo conquistado a Cidade de Massarosa, Monte Comunale e S. Stefano e Il Monte; 17.09.1944 – Captura dos maciços de Ghilardona, Il Vecoli, e C. S. Lucia; 18.09.1944 – Conquista  das cidades de Camaiore, Castegnori, S. Martino in Fredane, C.Pellagio, Cucca, Terracia, Casciana, Monsagrati, Cota 404, Vl. De Canestrano e C. de Collecchio; 20.09.1944 – Conquista  das cidades de Stignano, Auticiano, Fibiane, Bozzano e Cota 562; 25.09.1944 – Conquista  dos morros M. Acuto – M.Valimoni e Garupa de Batoni, obrigando o inimigo a retirar-se para o norte; 26.09.1944 – Conquista  de Monte Prana 27.09.1944 – Conquista  das cidades de Lopleglia e Fianno; 28.09.1944 – Conquista  das cidades de Covale, Pigaio, Villabuona, Piazzanelo; 30.09.1944 – Conquista de cidades de Pescaglia e Borgo a Mozzano; 06.10.1944 – Conquista de Coreglia Alteminelli e Fornaci; 07.10.1944 –  Patrulhas da FEB entram, sem encontrar resistência, em Gallicano, Fabriche e Cardoso; 11.10.1944 – Conquista  de Barga e Gallicano; 24.10.1944 – Ocupação de Sommocolonia; 25.10.1944 – Ocupação de Trassilico e Verni; 28.10.1944 – Captura de Monte Facto; 29.10.1944 – Ocupação de Colomini; 30.10.1944 – Conquista de San Quirico, Lama di Sotto, Lama di Sopra, Pradoscello e Pian de Los Rios.

Muitas das localidades descritas na literatura da FEB são, na verdade, distritos pertencentes a um município próximo (comune) ou, ainda, agrupamentos de casas (paese), que não aparecem hoje nos mapas face ao seu tamanho reduzido, por terem mudado de nome e/ou por terem absorvidos por outras cidades, posteriormente. Há algumas diferenças na nomenclatura utilizada na época com relação a atual. O Monte Prano é designado como Monte Prana no Google, por exemplo. Aliás, impressiona a sua altitude (1.221m) e o esforço que os pracinhas tiveram de empreender para sua conquista, partindo de posições quase ao nível do mar, como em Pisa (fotos). Em 1/05/2007 , foi colocada no topo do monte uma placa para relembrar a passagem dos brasileiros pelo local (fotos). Nesta outra foto aparece o cruzeiro, no topo do Monte Prana, com vista para o limite esquerdo do front brasileiro em  30/10/1944 (Pania Secca) no canto inferior direito do retângulo, por sua vez, próximo ao QG de uma Divisão SS alemã.

Um excelente estudo sobre a manobra do Destacamento FEB no Vale do Serchio foi elaborado pelo Prof. Dr. Dennison de Oliveira, da UFPR (link) A chegada dos brasileiros, em 1944, foi motivo de festa para a população. Esteve aquela região sob o controle da 16ª Divisão Panzer SS (mapa a seguir) até o avanço dos Aliados na direção da Linha Gótica (assinalada em vermelho), que lá perpetraram atos de crueldade inimaginável.  Um apanhado dos crimes de guerra na Toscana encontra-se no livro Le Stragi Nazifasciste in Toscana 1943-45 e também neste link. Há cerca de 200 casos documentados, com vítimas que chegam a casa dos milhares. Ainda que, provavelmente, este número tenha sido superestimado pelo antagonismo ideológico, ainda intenso no país, os números são estarrecedores.

Mapa das operações militares em agosto de 1944 – No mês seguinte os brasileiros entraram em linha, próximo a Pisa

Apenas na cidade de  Sant’Anna di Stazzema foram mortos 560 civis, entre homens, mulheres e crianças, inclusive bebês; um exemplo inequívoco da ação do mal sobre a natureza humana, agindo sob a capa de um regime totalitário e da guerra (link). Apenas em 2004, 60 anos após o massacre, os responsáveis começaram a ser julgados e condenados (link).

O cineasta Spike Lee dirigiu o filme Milagre em Sant’ Anna, que retrata esse triste episódio, ocorrido menos de um mês antes da FEB entrar em ação. A obra enfoca a 92ª Divisão “Buffallo” norte americana: a Divisão que substituiu aos brasileiros em outubro/novembro de 1944. O filme foi rodado na região da Toscana, onde os brasileiros estiveram.

As regiões nominadas no começo deste post podem ser visualizados neste link público para o Google Maps, passível de adição de novos locais pelos interessados. Foram elas localizadas com base em mapas históricos da FEB, com o auxílio do Google Earth.

Google Maps – acesso disponibilizado aos visitantes do Blog (posições da FEB em azul e amarelo)

O usuário do Google Earth pode fazer o download das suas coordenadas neste link, que também podem ser inseridas no GPS e servir como orientação para o visitante da Toscana.

Além dos locais onde esteve o Destacamento FEB, estão assinalados outros três de interesse turístico/histórico/cultural na região. São eles:

1. Passo Croce – Onde foram gravadas cenas do filme Milagre em Sant’ Anna (Posto de comando da 16ª Divisão Panzer SS)

Passo Croce – À direita o Mte. Corchia. Do outro lado dessa cordilheira estavam as posições avançadas da FEB

Visão panorâmica do Passo Croce – Ao fundo, à esquerda, o Monte Prana. Esta posição dista 7 Km (em linha reta) de Pania Secca, posição brasileira em 30 Set 1944

2. Sant’Anna di Stazzema – Mais fotos neste link

Memorial em Sant’Anna di Stazzema

3. Monumento Votivo Militar Brasileiro em Pistoia

Os brasileiros mortos durante a campanha da FEB na Itália, exceto os “Soldados Desaparecidos”, foram enterrados no Cemitério Militar Brasileiro, mantido por décadas pelo Tenente Miguel Pereira: um ex-combatente que desde o final da Guerra permaneceu em solo italiano, com a missão de cuidar daquele pedaço de terra brasileira, cravado na região da Toscana .

O Monumento é composto de uma plataforma que contém uma pirâmide triangular com as placas inaugurais, um grupo escultórico em homenagem às Forças Armadas, um painel metálico estilizando um engenho aéreo de guerra e duas colunas monumentais, entre as quais encontra-se o túmulo do “Soldado Desconhecido”, ponto central de todas as homenagens e solenidades ali realizadas.

Em dezembro de 1960, os restos mortais dos brasileiros foram transladados para o Brasil, no Monumento Nacional aos Mortos da IIGM, no Aterro do Flamengo (vide O Retorno dos Heróis)

Anos mais tarde, foram encontrados os restos mortais de um dos soldados brasileiros extraviados. Por decisão unânime dos ex-combatentes, o corpo permaneceu no local onde encontra-se o túmulo do “Soldado Desconhecido”, no Monumento Votivo Militar Brasileiro. hoje administrado pelo filho de Miguel Pereira, Mario Pereira: um verdadeiro embaixador da FEB em território italiano. (mais informações neste link)

Monumento Votivo Militar Brasileiro em Pistoia

O antigo Cemitério Militar brasileiro, nos anos 50

Existem inúmeros outros lugares na Toscana de interesse histórico/cultural relacionados à FEB. O link público disponibilizado do Google Maps permite novas adições e sugestões de locais de visita por eventuais colaboradores. Da mesma forma, aqueles que desejarem contribuir com fotos para enriquecer este artigo, fiquem à vontade para enviar o material por e-mail (favor utilizar a aba comentários no final do post). Futuros artigos irão contemplar a região onde atuou a FEB, a partir de novembro de 1944.

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Os Bravos de Campinas

Campinas colaborou intensamente na composição das fileiras da FEB.  De acordo com um levantamento disponível no site da Associação dos Expedicionários Campineiros – AExCamp link, 328 campineiros estiveram na Itália em cerca de 50 diferentes unidades. O maior efetivo esteve presente no 6º Regimento de Infantaria de Caçapava (210 militares).

Muito da história do batalhão paulista na IIGM foi pesquisada pelo Prof. Dr. César Campiani Maximiano, autor dos livros: Onde Estão Nossos Heróis, Irmãos de Armas e Barbudos, Sujos e Fatigados ; em 2010, também foi publicado o livro Pracinhas Campineiros  – Reminiscências de Vidas que Fizeram História: uma antologia da vida de sete ex-pracinhas campineiros e duas de suas esposas, organizado pelo Tenente Jefferson Biajone, então professor da Escola Preparatória de Cadetes do Exército.

Este novo post presenteia os seguidores do Blog com uma rara história dos pracinhas campineiros na Itália, publicada na revista Coleção de Aventuras, em 1958. Tal publicação foi gentilmente cedida pelo pracinha Justino Alfredo e sua filha Guaraci, que ora lutam para que a Associação de Veteranos campineiros volte a funcionar efetivamente.

Nesta história em quadrinhos, inspirada nas lembranças de Amâncio Tofanello, é contada parte da sua vivência no conflito, em especial com relação ao seu amigo Oscar Rossin.

Da Esq. para a Dir.: Sd Fernando de Andrade, Sd Amâncio Tofanello e Sd Oscar Rossin

Oscar Rossin também era um poeta; no Brasil, parecia estar adivinhando seu próprio destino quando escreveu o poema Versos a um Rio. Mais informações sobre o cabo Oscar Rossin podem ser vistas no site não oficial da ANVFEB, origem das fotos deste post.

Versos a um Rio- Poema premonitório do autor

O soldado Tofanello foi gravemente ferido na Itália; como ele, outras centenas voltaram mutilados  física e psicologicamente. São marcas indeléveis que o horror da guerra imprime no corpo e na alma daqueles que a vivenciaram. Sessenta e sete anos após o término do conflito, entrevistei pracinhas que declararam não conseguir dormir em paz, até hoje, por conta das lembranças no front. A simples exibição de filmes históricos da FEB provocou em um deles fortes emoções que forçaram a interrupção da entrevista. Talvez a mais terrível herança da guerra não esteja na lista de baixas, mas no dano permanente que causa aos sobreviventes.

A saga dos campineiros em HQ

O download completo da história em quadrinhos “Os Bravos de Campinas” pode ser feito no link a seguir: Os Bravos de Campinas

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