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Posts Tagged ‘Exército Brasileiro’

A forte religiosidade é uma característica presente no soldado brasileiro desde os mais antigos registros de batalhas, quando imagens de santos eram levadas à frente das tropas contra o inimigo. Esta também foi uma particularidade dos homens do III Batalhão do 11º Regimento de Infantaria — O “Lapa Azul”.

Antecedentes

Traço característico do nosso povo, a fé em Deus permeia as tradições do Exército Brasileiro. O Hino à Nossa Senhora da Conceição, padroeira do Exército Imperial, acompanhou nossos soldados desde o período colonial até o fim do Império, sendo também conhecida como a Canção do Soldado.

O General Raul Silveira de Mello em “O Terço dos Soldados ou dos Militares” afirmou que “antes mesmo do advento do Hino Nacional, o Hino à Nossa Senhora da Conceição era a balada dos nossos avoengos, a nossa canção de guerra”. Esta canção era entoada por todos os soldados do Exército, nos quartéis, após a revista do recolher.

Conta o General Dionísio Evangelista de Castro Cerqueira, em seu livro Reminiscências da Guerra do Paraguai, que na vigília do dia 23 de maio de 1866, antes da histórica batalha de Tuiuti, ao toque de recolher, às oito horas da noite, todos os corpos formaram. Depois da chamada; os sargentos puxaram as companhias para a frente da bandeira, e rezou-se o terço. Alguns praças, os melhores cantores, entoaram com voz vibrante, sonora e cheia de sentimento, a velha canção do soldado brasileiro: Oh! Virgem da Conceição.
As músicas de quarenta batalhões acompanhavam, expressivas, aquela grande prece ao luar, rezada tão longe dos lares.[i]

“Oh Virgem da Conceição, Maria Imaculada, vós sois a advogada dos pecadores, e a todos encheis de graça com vossa feliz grandeza. Vós sois dos céus, princesa, e do Espírito Santo, Esposa. Santa Maria, mãe de Deus, rogai a Jesus, rogai por nós. Tende misericórdia, Senhora. Tende misericórdia de nós. Maria mãe de graça, mãe de misericórdia, livrai-nos do inimigo. Recebei-nos na hora de nossa morte. Amém”

Tocava-se depois: ajoelhar corpos. Todos aqueles homens simples, rudes e cheios de fé, que iam bater-se como leões, no dia seguinte, puseram-se de joelhos, e com as mãos musculosas, apertando os largos peitos valorosos, entoaram, cheios de contrição e de fé, o “Senhor Deus, misericórdia, Senhor Deus pequei, Senhor misericórdia. Senhor Deus, por nossa Mãe Maria Santíssima, misericórdia”. Logo depois começavam a rezar o terço.[ii]

“Bandeiras se batiam até o chão”- Era notório o espírito religioso de que estavam imbuídos os brasileiros que participaram na Guerra do Paraguai, além da bravura militar que caracterizou os combatentes. Neste sentido, relata-nos o já citado general Dionísio Cerqueira as Missas e cerimônias religiosas realizadas nos acampamentos nacionais dos Voluntários da Pátria:

No alto da coxilha do Potreiro Pires, construiu-se, por ordem superior, uma capelinha coberta de colmo e paredes de taipa de sebe. Todos os domingos ia à Missa a divisão inteira. Era digno de ver o grandioso espetáculo daquela infantaria, formada em colunas contíguas, ajoelhar no campo, de cabeça descoberta, as armas em adoração e batendo no peito, quando o sacerdote levantava a Hóstia e todas as cornetas tocavam marcha batida e todas as músicas do Hino Nacional e todas as bandeiras se batiam até o chão. A ordem da divisão era para a Missa às nove horas. As brigadas formavam às oito, os batalhões às sete e as companhias às seis ou antes. Para aquela soldadesca não deixava de ser fatigante essa formatura, a pé firme, tanto tempo. Entretanto, iam a ela satisfeitos.[iii]

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Soldados brasileiros ajoelham-se ante a estátua de Nossa Senhora da Conceição durante uma procissão em 30 de maio de 1868. (Wikipedia)

A Religiosidade na FEB

A queda da Monarquia e a ascensão dos ideais positivistas na República suprimiu os capelães dos quadros do Exército. Contudo, a participação brasileira na II Guerra Mundial obrigou o governo a voltar atrás, convocando 25 capelães militares e três pastores evangélicos para acompanharem a Força Expedicionária Brasileira. Como na Campanha do Paraguai, pequenas capelas foram erigidas por nossos soldados em diversos locais. Um deles, em Staffoli, foi redescoberto e recuperado há pouco tempo.

altar staffoli

Religiosidade na FEB na Itália: altar em Staffoli, redescoberto e recuperado. (Foto de Vinícius Carvalho)

Há um belo trabalho acadêmico que aborda este tema — embora não seja o seu foco principal — da doutoranda Adriane Piovezan. Morte no Mediterrâneo: O Pelotão de Sepultamento da Força Expedicionária Brasileira. Fruto de uma pesquisa detalhada no Arquivo Histórico do Exército, a autora elaborou uma tabela com os objetos encontrados nos cadáveres dos brasileiros. Nos relatórios do Pelotão de Sepultamento há crucifixos, estampas e medalhas de santos, orações, quadros e imagens religiosos, rosários e até um Novo Testamento inteiro.

Objeto Ocorrências mais frequentes
Chapa de identificação 333
Objetos diversos 187
Nada 175
Dinheiro 144
Fotografias 116
Medalhas religiosas 84
Correspondência 59
Carteira 51
Estampas de Santos 47
Cartão de Identificação 43
Crucifixos 34
Orações 32
Quadros Religiosos 31
Anel 30
Manual de Orações 27
Relógio 27
Recibo Banco do Brasil 24
Rosários 23
Corrente 21
Registro de Vacina 20
Caneta 19
Canivete 15
Imagens Religiosas 11
Telegrama 10
Relíquias Religiosas 9

“Chegamos a 32,17% de soldados mortos que levavam consigo algum objeto de cunho religioso no momento de sua morte. Em praticamente um terço dos cadáveres foram encontrados artefatos ou impressos relacionados a diferentes devoções, praticamente todos de origem cristã”, afirmou a doutoranda.

Embora este seja um dado altamente relevante para a avaliação do grau de religiosidade — um sentimento abstrato — na tropa, por si só a relação de objetos não nos permite sabê-lo com exatidão, visto que o porte de símbolos religiosos não representa, necessariamente, a presença ou não da fé no falecido. Além disso, era comum o saque dos cadáveres por civis ou militares amigos ou inimigos, que lhes furtavam os pertences — até mesmo os calçados. Em um dos seus livros de memórias, o Coronel Brayner, Chefe do Estado-Maior da FEB, relata um episódio em que a plaqueta de identificação de um pracinha foi furtada, deixando-se em seu lugar o nome do militar escrito num pedaço de papel no interior de uma garrafa. Isso para não mencionar o esfacelamento das vítimas ao pisarem numa mina ou quando atingidos pelo impacto direto do fogo de artilharia, que costumava pulverizar tudo o que não fosse constituído de metal.

Bem melhores que os frios dados estatísticos, referências confiáveis sobre o grau de religiosidade da tropa podem ser buscadas não só nos relatos dos capelães militares, mas nos depoimentos dos veteranos da FEB. O Major Ivan Esteves Alves foi o Auxiliar de Informações do “Lapa Azul” na Força Expedicionária Brasileira, como 2º Sargento. Ivan lembra que “naquela época era todo o mundo que rezava”.

MISSA

Missa campal em Alessandria, conduzida pelo Frei Alfredo. (Arquivo pessoal do Major Ivan Esteves Alves)

MISSA 2

Idem. O Frei Alfredo era o 1º Tenente Waldemar Setaro, capelão do “Lapa Azul”. (Arquivo pessoal do Major Ivan Esteves Alves)

FREI

Oração junto ao túmulo do Frei Orlando em Pistoia (Arquivo pessoal do Major Ivan Esteves Alves)

Em suas memórias, o Tenente Cássio Abranches Viotti conta a seguinte passagem:

Mal desembarcado o 2º Escalão, eram cerca de 10.000 homens, foi realizada em Pisa uma procissão belíssima. Os soldados transportavam uma imagem de Nossa de Senhora da Aparecida, cheios de unção, cantando cânticos aprendidos na infância em suas paróquias do interior. Os italianos assistiram, extasiados, àquele desfile triunfal de soldados desarmados, cujo troféu era a imagem daquela Virgem Negra do Brasil. Nunca, jamais, a península italiana, há milênios invadida por tropa africanas, bárbaras, napoleônicas, germânicas, assistira a um desfile como aquele, em que oficiais e soldados, irmanados pela mesma fé católica, davam um exemplo magnífico de religiosidade.[iv]

Pisa

Procissão de Nossa Senhora da Aparecida em Pisa: A FEB manteve viva na II GM a fé do soldado brasileiro professada na Guerra do Paraguai.

Certas conclusões errôneas podem advir do estudo deste tema. Por vezes, alguns estudiosos estabelecem uma relação direta entre a religiosidade e o grau hierárquico / nível intelectual do militar. Assim, quanto menor a patente e o grau de instrução, maior seria o grau de religiosidade. Trata-se de um erro crasso. Na Itália, ninguém menos do que o Comandante da FEB, o General Mascarenhas de Morais, recorreu ao tenente Capelão Militar:

— Capelão, antes de ver no senhor o tenente, vejo o padre. Sou um homem de fé. Sou católico, e busco na minha religião a força que preciso para bem cumprir os meus deveres de cristão e de soldado. Como soldado, aprouve a providência de colocar-me à frente da FEB, como seu comandante. Deus não me tem faltado com sua ajuda. Diariamente, peço-lhe a serenidade necessária para suportar as críticas e as incompreensões a que não está imune um comandante. Sempre pautei meus atos pelos princípios da minha religião. Na Eucaristia, busco as energias para transpor os obstáculos e vencer as dificuldades inerentes à minha missão. Contudo, em meio a todas essas dificuldades, próprias de um comando, eu confio em mim, porque confio em Deus, Capelão. E assim, será até sempre.[1]

Conclusão

A religiosidade dos homens do “Lapa Azul” é uma característica do soldado brasileiro presente nos mais remotos registros da nossa História Militar. Dos Voluntários da Pátria no Chaco paraguaio até o pracinha enregelado nos Apeninos italianos, a fé dos nossos soldados ficou registrada nas páginas dos memorialistas e nos altares construídos pela tropa.

A razão para isso é muito simples. É no calor do combate onde o verniz racionalista escorre do ser humano, deixando nus a soberba e os demais artifícios criados pela filosofia materialista. Quanto mais as ameaças se agigantam, mais a fé torna-se necessária, pois só ela conforta o homem nos momentos de desafio. Isso vale para simples jogadores de futebol em times de várzea, que se reúnem para orar antes e após as partidas — seja qual for o resultado delas — ou para os integrantes de patrulhas de combate da FEB — do tenente ao soldado mais moderno — que muitas vezes se uniam em oração antes das suas incursões na “terra de ninguém”.

Historicamente, inúmeras doutrinas tentaram afastar o ser humano de Deus. Contudo, desde o Positivismo, passando pelo Marxismo, até a promoção do ateísmo — disfarçado de laicismo — nos dias atuais, nada foi capaz de afastar a fé do homem da guerra no seu Criador. Não é à toa que o serviço de capelania militar encontra-se presente nos mais diversos cenários de conflitos, seja nas tropas da OTAN no Afeganistão (link) ou no contingente das Forças Armadas Brasileiras no Haiti. (link).

Para o leigo racionalista, a morte de um soldado encolhido numa trincheira, causada por um projetil disparado a mais de uma dezena de quilômetros, não passa de mero azar ou de uma obra do acaso.

Já o artilheiro reconhece na fatalidade a resultante de uma multiplicidade de fatores: o ajuste do observador, os cálculos da central de tiro, o registro dos elementos de pontaria nos aparelhos da peça, a posição das bolhas de nivelamento, a maior ou menor resistência do solo ante o recuo da sapata da peça, a presença de alguns minúsculos de pólvora — a mais ou a menos — no saquitel das cargas de projeção, o lote de munição propulsora mais potente ou mais fraco, a temperatura do tubo ou da munição estocada, a ocorrência uma lufada de vento imprevisível, a variação de temperatura das diferentes camadas atmosféricas, a aleatoriedade dos rumos dos estilhaços e centenas de outros componentes. Por isso, o artilheiro faz uso de balões de sondagem lançados ao ar periodicamente, consulta os termômetros da pólvora, e até insere as correções de trajetória devido à rotação da terra quando emprega calibres maiores. Porém, o artilheiro reconhece que é quase impossível atingir um ponto fixo com o tiro indireto, ainda que dispondo dos mais avançados instrumentos de pontaria, sem antes empregar uma grande quantidade de munição.

Intuitivamente, até mesmo o soldado semialfabetizado acredita que o seu destino não está nas mãos do artilheiro inimigo, nem pertence ao reino das probabilidades. Sem ao menos desconfiar da complexidade que envolve a técnica de tiro, por um instante o crente entrincheirado durante um forte bombardeio iguala-se ao maior físico da história da humanidade. “Não tenho fé suficiente para ser ateu, pois Deus não joga dados”, escreveu Albert Einstein ao físico Max Born, em 1926, ao referir-se à teoria das probabilidades da mecânica quântica.

Aos olhos do ímpio, a presença de símbolos religiosos no espólio dos mortos em combate seria a prova inconteste da inutilidade da fé em Deus. Nada mais equivocado. Conforme Mascarenhas de Morais expressou ao seu capelão, o homem de fé busca na religião a força para cumprir os seus deveres de cristão e de soldado. A guarda de artefatos religiosos é bem mais um símbolo, um ponto de referência da fé, do que o apego a algo que o torne indestrutível.

Quando ferido com gravidade, em meio aos seus últimos suspiros de vida, a proximidade da morte é aterradora para o ímpio. Já para o crente, é o começo de uma nova vida. Conforme diz um dos versos da antiga canção do soldado brasileiro, dedicada à Virgem da Conceição: “Recebei-nos na hora de nossa morte, Amém”.


Fontes:

http://www.catolicismo.com.br/

[1] Revista do Exército Brasileiro v. 120 N4 outubro\dezembro de 1983, depoimento do Monsenhor Alberto da Costa Reis Pg. 219

[i] Dionísio Cerqueira, Reminiscências da Campanha do Paraguai, Biblioteca do Exército Editora, Rio de Janeiro, 1980. p. 155.

[ii] Projeto Brasilidade, Instituto Cultural GBOEX, Porto Alegre, 1990, vol. I, p. 40

[iii] Dionísio Cerqueira, Op. Cit., p. 181.

[iv] Crônicas da Guerra –  A Religiosidade dos Soldados, Cássio Abranches Viotti, edição do autor.p.145.

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Os Bravos de Campinas

Campinas colaborou intensamente na composição das fileiras da FEB.  De acordo com um levantamento disponível no site da Associação dos Expedicionários Campineiros – AExCamp link, 328 campineiros estiveram na Itália em cerca de 50 diferentes unidades. O maior efetivo esteve presente no 6º Regimento de Infantaria de Caçapava (210 militares).

Muito da história do batalhão paulista na IIGM foi pesquisada pelo Prof. Dr. César Campiani Maximiano, autor dos livros: Onde Estão Nossos Heróis, Irmãos de Armas e Barbudos, Sujos e Fatigados ; em 2010, também foi publicado o livro Pracinhas Campineiros  – Reminiscências de Vidas que Fizeram História: uma antologia da vida de sete ex-pracinhas campineiros e duas de suas esposas, organizado pelo Tenente Jefferson Biajone, então professor da Escola Preparatória de Cadetes do Exército.

Este novo post presenteia os seguidores do Blog com uma rara história dos pracinhas campineiros na Itália, publicada na revista Coleção de Aventuras, em 1958. Tal publicação foi gentilmente cedida pelo pracinha Justino Alfredo e sua filha Guaraci, que ora lutam para que a Associação de Veteranos campineiros volte a funcionar efetivamente.

Nesta história em quadrinhos, inspirada nas lembranças de Amâncio Tofanello, é contada parte da sua vivência no conflito, em especial com relação ao seu amigo Oscar Rossin.

Da Esq. para a Dir.: Sd Fernando de Andrade, Sd Amâncio Tofanello e Sd Oscar Rossin

Oscar Rossin também era um poeta; no Brasil, parecia estar adivinhando seu próprio destino quando escreveu o poema Versos a um Rio. Mais informações sobre o cabo Oscar Rossin podem ser vistas no site não oficial da ANVFEB, origem das fotos deste post.

Versos a um Rio- Poema premonitório do autor

O soldado Tofanello foi gravemente ferido na Itália; como ele, outras centenas voltaram mutilados  física e psicologicamente. São marcas indeléveis que o horror da guerra imprime no corpo e na alma daqueles que a vivenciaram. Sessenta e sete anos após o término do conflito, entrevistei pracinhas que declararam não conseguir dormir em paz, até hoje, por conta das lembranças no front. A simples exibição de filmes históricos da FEB provocou em um deles fortes emoções que forçaram a interrupção da entrevista. Talvez a mais terrível herança da guerra não esteja na lista de baixas, mas no dano permanente que causa aos sobreviventes.

A saga dos campineiros em HQ

O download completo da história em quadrinhos “Os Bravos de Campinas” pode ser feito no link a seguir: Os Bravos de Campinas

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Para o cidadão pouco familiarizado com o cotidiano brasileiro dos anos 40, é um tanto difícil imaginar o que representou a campanha submarina do Eixo contra a navegação nacional durante a II Guerra Mundial. Abordando este tema, está sendo lançado o livro Torpedo – o terror no Atlântico, do escritor Marcus Vinícius de Lima Arantes.

O episódio dos afundamentos já havia sido analisado com propriedade, dentro de um contexto mais amplo, pelo jornalista Ricardo Bonalume Neto em seu livro A nossa Segunda Guerra: os brasileiros em combate, 1942-1945 e pelo professor Francisco César Alves Ferraz em Os brasileiros e a Segunda Guerra Mundial, entre outros. Desta feita, Marcus Vinícius “mergulha” de cabeça nesse evento marcante da história brasileira.

Na década de 40, a ligação entre o Sudeste e as demais regiões (exceto a região Centro-Oeste) era feita através do mar, em sua quase totalidade. Ainda não existiam estradas modernas, ligando a capital federal ao nordeste ou ao sul do Brasil. Para se viajar do Rio de Janeiro a São Paulo, por exemplo, a alternativa à ferrovia era uma estrada de terra poeirenta. O meio aéreo, ainda incipiente, era privilégio das autoridades e de uma ínfima parcela de abonados. Assim, quando os U-Boat alemães e submarinos italianos iniciaram o torpedeamento da nossa frota mercante e de passageiros, interrompendo o tráfego marítimo, o país foi quase tomado pelo caos.

Para se chegar ao nordeste, começou a ser utilizada uma rota alternativa, viajando-se de trem até as cabeceiras do Rio São Francisco, no interior de Minas Gerais, onde era feito o embarque nas “gaiolas” do rio. Uma viagem de Pirapora até Petrolina chegava a durar 14 dias, se não houvesse contratempo. O corte das ligações ao saliente nordestino, conjugado ao sucesso do Afrika Korps de Rommel no norte da África, ensejou o medo de uma invasão nazista ao nosso território. Nas ruas, o povo exigia vingança contra a morte de civis e militares: homens, mulheres e crianças, cujo número subia exponencialmente a cada afundamento.

A obra descreve os submarinos agressores, identificando cada um deles e detalhando os ataques. À época, a propaganda nazi-fascista espalhou o boato de que a ação fora perpretada pelos EUA, destinada a forçar a entrada do Brasil na IIGM a seu favor. Por incrível que pareça, essa versão permanece até os dias de hoje inclusa no discurso de alguns educadores, hábeis na formulação das chamadas “Teorias da Conspiração”, com fundo ideológico e antiamericano. No cerne dessas teorias, o ataque à navegação brasileira na IIGM, o 11/09/2001, e outros episódios da história recente, são apresentados aos estudantes como “planos de manipulação midiática dos ianques”. Também por conta disso, o livro de Marcus Vinícius chega em boa hora.

Em 1942, o Brasil foi bem além dos “protestos enérgicos” e inócuos emitidos por sua diplomacia, quando do afundamento de nossos navios mercantes durante a I Guerra Mundial. Desta vez nosso país estava disposto a revidar à altura. Ao declarar guerra ao Eixo, éramos um país agrário que tomava uma decisão corajosa, jogando a sorte na aliança com os EUA, num momento onde o Eixo parecia invencível. Sobretudo, tomamos uma decisão que modificaria a história brasileira para sempre. E para melhor.

Sinopse do livro disponível neste link

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Em 1985, foi lançado o polêmico livro “As duas Faces da Glória”, de William Waack, sobre a Força Expedicionária Brasileira. À época, o jornalista trabalhava como correspondente do Jornal do Brasil na Alemanha, desde 1979.

Um dos méritos do livro foi divulgar uma série de informações e relatos até então desconhecidos do público. Waack foi talvez o primeiro pesquisador brasileiro a realizar a busca de informações sobre a FEB em arquivos alemães, norte-americanos, ingleses e italianos.

Outro mérito do autor, que merece ser destacado, foi a complexa localização de veteranos das unidades alemães que tiveram os brasileiros como oponentes, durante a II Guerra Mundial. Waack conseguiu entrevistar uma série deles, espalhados pela então Alemanha Ocidental.

Fig.1 – As Duas Faces da Glória: pioneirismo na pesquisa em arquivos alemães e entrevistas com veteranos da Wehrmacht

O autor relatou que os arquivos da 232ª Divisão de Infantaria alemã, referentes às tentativas de tomada do Monte Castello, foram destruídos num bombardeio a Berlim, em 1945. Mesmo assim, conseguiu disponibilizar registros pertencentes ao Estado-Maior alemão e à 114ª Divisão Ligeira: cartas topográficas, mapas de situação, arquivos do julgamento de Nuremberg e relatórios diversos. Um trabalho de pesquisa formidável.

A leitura da obra pode feita sem dificuldade, graças à linguagem clara e a boa sintaxe. A escrita em estilo jornalístico é fluida, apresentando ao leitor idéias perspicazes, baseadas na interpretação pessoal do material de pesquisa escolhido. Waack revela um talento precoce que futuramente lhe daria — com justiça, diga-se de passagem — o posto de âncora do Jornal da Globo.

Entretanto, se quanto à forma e pesquisa a obra pode ser considerada admirável, infelizmente seu embasamento histórico é inversamente proporcional. Aliás, seria uma proeza se o autor conseguisse apresentar uma obra de conteúdo sólido, sobre um tema tão complexo, durante o intervalo de tempo utilizado. Enquanto historiadores renomados levam, por vezes, quase uma década de pesquisas para escrever um único livro sobre a IIGM, Waack revela ter dado início ao projeto da obra meses antes, em 1984, lançando-a já no ano seguinte.

Dada a característica meramente informativa deste Blog, a análise do livro de Waack não descerá a pormenores, inclusive os que a metodologia de pesquisa histórica preconiza. Até porque, dissecar todos os aspectos contraditórios de “As Duas Faces da Glória” seria inadequado para um simples post.

1. Os alemães – A Wehrmacht de Waack

Logo de início, o autor procura desqualificar as divisões alemãs que a FEB enfrentou na Guerra e, por conseguinte, o mérito das vitórias brasileiras. Segundo ele:

“A FEB enfrentou nove divisões alemãs ou esteve em contato com elas, durante os meses que permaneceu na Itália: a 42ª Ligeira, a 232ª de Infantaria, a 84ª de Infantaria, a 114ª Ligeira, a 29ª Motorizada, a 334ª de Infantaria, a 305ª de Infantaria, a 90ª Motorizada e a 148ª de Infantaria. O leitor deve ter observado os ‘números altos’ da maior parte dessas divisões — para o especialista, isso indica que a unidade se formou já no final da guerra, às pressas, com recursos reduzidos e deficiência de tropas aptas” (Pg. 39).

Fig. 2- A Wehrmacht: segundo Waack, as divisões que a FEB enfrentou na Itália eram “deficientes”

Mais adiante, curiosamente, o próprio autor afirma que o General Eccart Von Gablenz (Fig. 3), comandante da 232ª Divisão alemã, já havia comandado uma outra divisão de infantaria: a 384ª Divisão alemã, na batalha de Stalingrado, ainda em 1942 (Pg 133): uma unidade de numeração superior a quaisquer das unidades com que a FEB se deparou. A “numeração alta” das unidades não é, portanto, determinante para classificar uma divisão segundo o seu poderio.

Fig. 3 – General Von Gablenz: apontado pelo próprio autor como o comandante da 384º Divisão alemã em Stalingrado, em 1942. Fonte: Axishistory.com

Em outra vertente, o livro procura descaracterizar a capacidade combativa da 232ª, com base numa suposta composição de faixa etária elevada. Entretanto, os informes do autor uma vez mais são contraditórios, quando afirma: ” A esmagadora maioria dos 9 mil homens da 232ª compunha-se de veteranos de diversas campanhas”  (Pg. 46). Ou seja, mesmo tendo a 232ª Divisão alemã sido formada em junho de 1944, sua espinha dorsal era composta por oficiais e graduados veteranos de diversas campanhas, inclusive do Afrika Korps e da frente russa, para onde Hitler enviou suas melhores tropas.

O autor prossegue nesse raciocínio, desta feita com relação aos mais jovens: “Apenas 10% do efetivo eram soldados bens jovens, de 17 anos, recrutados na região de Frankfurt.” (Pg. 46) Esse é um caso típico de menosprezo que embosca os aventureiros do tema II GM. Quando os Aliados desembarcaram na Normandia, por exemplo, encontraram boa parte das divisões alemãs compostas com efetivos de faixas etárias heterogêneas, que incluíam veteranos e jovens: uma formação comum para unidades com missão defensiva. Nem por isso o desembarque Aliado — especialmente em Omaha Beach — deixou de ser um dos episódios mais dolorosos da história militar dos EUA.

Fig. 4 – Prisioneiros da 232ª Divisão alemã: segundo o autor, “veteranos cansados”

Com base na experiência de guerra alemã, em especial a da I GM,  sua logística sabia recompor batalhões dizimados em novas unidades, mesclando a experiência de veteranos com o vigor da juventude. Já o fator idade, por si só, não significa muita coisa, pois um jovem com o dedo no gatilho de uma metralhadora pode ser tão ou mais mortal que um adulto.

Calcula-se que em Omaha Beach, no dia D, o soldado Heinz Severloh, de apenas 20 anos, foi o responsável por boa parte das 4.200 baixas norte-americanas no setor, disparando durante 9 horas seguidas cerca de 12.000 cartuchos da sua MG-42. Severloh ficou conhecido como a “Besta de Omaha” (Fonte: A Vida no Front).

Fig.5 – Heinz Severloh, um jovem de apenas 20 anos: a “Besta de Omaha”

A obra revela algumas informações particularmente interessantes sobre os oficiais da 232ª, em especial sobre o seu comandante, o General Gablenz: “O Barão foi um dos mais bem-sucedidos comandantes de tropa na frente de batalha da França… e, aos 49 anos, tornou-se em 1940, o mais jovem tenente-general do Exército alemão, um dos primeiros oficiais a ostentarem a Cruz de Cavaleiro sobre a Cruz de Ferro” (Pg. 54)

Todavia, o capítulo destinado aos alemães desvia-se do eixo temático da obra. Aborda detalhes menores da vida pessoal dos entrevistados no pré e pós-guerra, insistindo em afirmar que a maior parte dos alemães da 232ª desconhecia haver lutado contra os brasileiros. A intenção do texto é óbvia: tornar irrelevante a participação da FEB.

De fato, o repasse de informações do Comando alemão à linha de frente era problemático. Um do relatórios da 3ª Seção da FEB, feito com base no interrogatório de prisioneiros alemães logo após a batalha de Montese, revelou que 80% deles pensava estar lutando contra ingleses. Se tal desinformação foi deliberadamente premeditada pelo Comando alemão ou não, isso é assunto para um novo post. Contudo, não há dúvida de que a inteligência nazista acompanhava os movimentos da FEB em detalhes.

A propaganda psicológica que os alemães lançavam sobre nossas posições, ainda em dezembro de 1944, por exemplo (Fig. 6 e 7,  fonte: Cobra Fumando), prova de que o Comando alemão conhecia não só a nossa presença, como até mesmo a divisão regimental da FEB.

Fig. 6 – Panfleto de guerra psicológica alemã lançado sobre as posições brasileiras em 1944: detalhe para a identificação da composição regimental da FEB. De resto, propaganda nazista, esquizofrênica e antiamericana, repetida até o presente.

Fig.7 – Verso do panfleto: segundo um pracinha entrevistado, os panfletos eram utilizados pela tropa para atividades, digamos, menos nobres

Conclusão

Com relação às forças inimigas que a FEB enfrentou diante do Monte Castello, a obra minimiza a capacidade combativa da 232ª Divisão alemã, composta, na maior parte, de veteranos com quase 5 anos de experiência de combate, do seu comandante até os graduados — algo que nenhum brasileiro possuía.

Waack acerta quando menciona o poder combativo debilitado da 232ª — o que não era novidade alguma para o Exército Alemão nos idos de 1944-45. Porém, a missão dessa Divisão era essencialmente defensiva, limitada à ocupação de posições estáticas nos Apeninos, tarefa que exige muito menos tempo de preparação, esforço físico e a presença de recursos de toda ordem.

Mesmo que, supostamente, os alemães não tenham recebido o melhor treinamento (os que ainda não dispunham) e equipamento, estavam eles meses à frente do grosso da FEB. Os brasileiros do 2º e 3º escalões só chegaram à Itália no final de setembro de 1944, trazendo apenas a roupa do corpo, a bagagem pessoal  e  sem o treinamento específico para o combate.

Somente a 10ª Divisão de Montanha norte-americana — tropa de elite treinada e equipada para o combate em ambiente de montanha — sofreu 999 baixas durante a tomada da região fortemente defendida pela “deficiente” 232ª (entre 18 Fev e 05 Mar de 1945). As baixas sofridas pela Divisão norte-americana falam por si só.

Por fim, o leitor interessado em conhecer como os alemães da 232ª realmente enxergavam os brasileiros, deve procurar o relato dos seus veteranos, sem intermediários, como no livro Bombardeiros, Caças e Guerrilheiros (BIBILEX) Bomber, Jabos, Partisanen. Die 232. Infanterie-Division 1944/45″, de Heinrich Boucseinveterano da 232ª Divisão alemã, que lutou do primeiro ao último dia da II GM; em especial no capítulo “Die Brasilianer und der Monte Castello”: Os Brasileiros diante do Monte Castello.

Fig.8 – Bombardeiros, Caças e Guerrilheiros: a FEB vista pelos alemães da 232ª. Sem intermediários

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Vivendo um Pesadelo

Na noite gelada do dia 12 de dezembro de 1944, o General João Batista Mascarenhas de Moraes, Comandante da Força Expedicionária Brasileira (FEB), é chamado ao QG do IV Corpo de Exército Aliado em Taviano, ao sul de Porreta Terme. Segue acompanhado pelos generais Euclydes Zenóbio da Costa e Oswaldo Cordeiro de Faria. Horas antes, os brasileiros haviam sido repelidas pelos alemães, pela terceira vez, em Monte Castello, quando cerca de 140 pracinhas foram mortos ou feridos pelo inimigo.

Fig 1. Gen Mascarenhas de Moraes e o comando aliado: situação difícil após os reveses no Monte Castello. O capitão Vernon Walters serve como intérprete, à esquerda da foto

Os brasileiros são recebidos com frieza no interior da barraca de comando. De estatura baixa, o general brasileiro parece estar ainda menor ante seus inquisidores. Indo direto ao assunto, o General Willis D. Crittenberger pergunta ao Gen Mascarenhas, por meio de um intérprete:

—  Quais os motivos do novo fracasso? 

Mascarenhas responde:

—  Tempo ruim, insuficiência de  tempo para a colocação da tropa na base de partida, reação imprevista dos alemães, cujos meios eram superiores aos previstos e missão talvez inadequada.

Não satisfeito, o comandante americano procura rebater cada uma das explicações. Vira-se e faz uma pergunta capciosa:

—  Desejo uma resposta peremptória e positiva do comando brasileiro. A FEB tem ou não capacidade de combate?

A pergunta do seu superior corta o general brasileiro como se fosse uma lâmina afiada. “A pergunta foi cruel e decisiva para a sorte da Divisão”, afirmou Mascarenhas de Moraes, em um dos relatórios secretos sobre a guerra. Segundo o brasilianista John Foster Dulles: “as críticas chegaram a tal ponto de alguns oficiais americanos pedirem a retirada das tropas brasileiras da frente”.

O Ten Cel Manoel Thomaz Castello Branco narrou o drama pessoal vivido pelo seu Cmt:“Sabemos o quanto foi doloroso para ele (Mascarenhas de Morais) ordenar que o ataque (ao Monte Castello) se repetisse pela terceira vez, porém, mais torturante foi o drama vivido pelo Cmt da FEB que asssitiu, sucessivas vezes, a sua tropa debater-se, sem êxito, contra um inimigo bem instalado, embora tivesse para atenuar os sofrimentos o testemunho do magnífico comportamento dos homens”.

Fig. 2 Mascarenhas, Crittenberguer e Zenóbio: crise após 12 de dezembro de 1944

Os brasileiros estavam em situação delicada. A FEB  estava a um passo de uma retirada desonrosa da frente de combate, num evento que ficaria gravado eternamente em nossa história militar: uma mácula indelével na memória do Exército Brasileiro.

Mascarenhas faz menção de responder, mas Zenóbio da Costa — astuto e ciente da importância daquele momento crítico — o convence a responder por escrito, dada a complexidade que a resposta exigia (tal resposta precisava ficar registrada, por escrito, para a posteridade). O Gen Crittenberger aquiece, mas com uma ressalva pouco amigável:

— Muito bem, mas até amanhã às seis horas.

Em suas memórias, Mascarenhas de Moraes conta que, após deixar a reunião — humilhado e envergonhado — questionou a sua própria capacidade pessoal, cogitando seriamente renunciar ao comando. No posto General-de-Divisão — o maior à época no Brasil — Mascarenhas fizera 61 anos de idade no mês anterior: seis anos a mais do que o Gen Crittenberger. Rumores sobre a sua destituição chegavam do Brasil. Seus oficiais do Estado-Maior divergiam e discutiam com aspereza entre si. A pressão sobre o Comandante da FEB era quase insuportável. Mascarenhas sabia que a missão dada pelo comando aliado excedia a capacidade de sua tropa; porém, sobre os seus ombros recaía toda a responsabilidade pelos fracassos.

As análises sobre os combates em Monte Castello

Desde então, os combates de Monte Castello vêm sendo analisados por diferentes pessoas, testemunhas oculares ou não. A Revista de História da Biblioteca Nacional, na edição de julho de 2011, publicou um belo artigo (link para o artigo) do professor Luís Felipe da Silva Neves sobre os combates do Monte Castello, mas que infelizmente esbarra no lugar-comum do tema, elegendo como causa dos fracassos da FEB  a  “insistência no ataque frontal por parte do comando brasileiro”: verbo e objeto corretos. Sujeito equivocado.

Fig. 3 Barreira natural que se estende do Mt. Belvedere ao Mt. Castello

Fig. 4 Generais Mark Clark, Mascarenhas de Morais e Zenóbio da Costa, entre outros, em visita ao Ninho da Águia, residência de Adolf Hitler na Baviera, capturada em 1945

Outros pesquisadores questionam o porquê do Comando brasileiro não ter se oposto à estratégia Aliada para a conquista do Monte Castello, num evidente desconhecimento do modus operandi no meio militar. Durante as ações de combate, há pouco espaço para objeções às ordens superiores, sejam elas razoáveis ou não. Do soldado ao general, cabe ao subordinado obedecer.  No máximo, um comandante pode sugerir alterações em um plano, desde que mantenha os seus objetivos iniciais. Assim, no front italiano, o Cmt do V Exército definia a missão e distribuía as zonas de ação dos Corpos de Exército. O IV Corpo de Exército, por sua vez, fazia o mesmo, dividindo a sua zona de ação pelas suas unidades, inclusive a FEB. E assim por diante, até o nível Batalhão.

Fig.5 O Gen Crittenberger e o Gen Mascarenhas cumprimentam pracinhas brasileiros por atos de bravura

A missão recebida pelo comando brasileiro, para o ataque de 29 de novembro de 1944,  foi a seguinte:

Dentro da sua zona de ação, conquistar a crista que corre de M. Belvedere para NE, inclusive M. Castello, a fim de impedir que o inimigo tenha vistas sobre a estrada 64.”

Instruções de Operações nº 71, de 26 de Nov de 1944, do Cmt do 4º Corpo de Exército. O Brasil na II Grande Guerra – Ten Cel  Manoel Thomaz Castello Branco

Fig. 6 Esboço do segundo ataque brasileiro: a cidade de Gaggio Montano está no limite esquerdo da zona de ação atribuída aos brasileiros

Observando o esboço acima, não é difícil constatar que o Monte Castello era o objetivo principal a ser conquistado. O único tipo de ataque possível aos brasileiros, em sua área de operações, era justamente o frontal.  Da cidade de Gaggio Montano para oeste, a área de operações pertencia à TF 45 (Task Force 45).

Contudo, se perguntarmos aos historiadores acostumados a crucificar o Comando brasileiro com relação à estratégia que deveria ter sido adotada, muitos certamente encherão o peito e dirão:

— Ora bolas, a mesma operação realizada no ataque vitorioso, em 21 de fevereiro de 1945 !

Esse tipo de operação era quase  impossível de ser conduzida pela FEB. A 10ª Divisão de Montanha norte-americana — a tropa que rompeu a linha defensiva alemã com seus alpinistas — só chegou à região de operações no final de janeiro de 1945. Até então, no flanco esquerdo da FEB estava a Task Force 45, anteriormente chamada 45 AAA (Antiaircraft Artillery) Brigade : uma verdadeira colcha de retalhos composta, em boa parte, por tropas de segunda linha, que incluía soldados da artilharia antiaérea (improvisados como infantes). Vide http://www.milhist.net/mto/taskforce45.html

O início da ruptura da linha de defesa alemã, em 19 de fevereiro de 1945, deveu-se inicialmente à ação da 1ª/86th, que escalou com cordas, à noite, as escarpas do Riva Ridge, apanhando de surpresa os seus defensores. Graças a ela, o ataque vitorioso ao Monte Castello pôde então ser empreendido pelo flanco, pois os demais elementos da 10ª Div Mtn haviam conquistado as alturas do Monte Belvedere, Gorgolesco e vizinhanças.

Antes da chegada da 10ª Divisão de Montanha americana, não existia a possibilidade de outro tipo de ataque, se não o frontal, naquela região de operações — fosse ele  no setor da FEB ou no da Task Force 45.

http://www.summitdaily.com/article/20110128/NEWS/110129834

http://www.wildnesswithin.com/insights.html

Fig. 7 Militares da 10ª Div Mtn: preparados e equipados para o combate em ambiente de montanha

Fig. 8 Soldados da 10ª Div Mth durante o treinamento em Camp Haley, Colorado

Fig. 9 Operação Encore: graças a ação da 1ª/86th a FEB pôde atacar o Monte Castello pelo flanco

Risco Calculado

Como bem disse o Ten Cel Manoel Thomaz Castello Branco em sua obra “O Brasil na II Grande Guerra” (Pg. 270):

“Falhas e vacilações há e haverá sempre em todos os combates, embora já houvesse quem, alhures, falasse em combate perfeito. O que na realidade ocorre com estas operações, das quais só se ouvem loas, é que estão catalogadas como vitórias e os erros, que contém, escondem-se por trás dos pedestais da glória.”

A Segunda Guerra Mundial foi pródiga em operações desastrosas, de ambos os lados, como o desembarque frustrado em Dieppe e a operação Market Garden. Mesmo o bem-sucedido desembarque Aliado em Anzio, por muito pouco não termina em tragédia.

Toda operação militar implica em riscos, maiores ou menores. Uma operação classificada como “desastrosa” não implica, necessariamente, em mau planejamento ou má execução. Afinal de contas, o inimigo não é obrigado a seguir o contido nos planos de ataque, tal qual um ator coadjuvante numa peça teatral.

O  próprio General Mark Clark, Cmt do V Exército (ao qual o IV Corpo de Exército era subordinado), declarou em sua obra “Risco Calculado” que o V Exército muitas vezes entrou em combate com menos de 50% de chance de êxito (Pg. 4).

Fig. 10 Risco Calculado: segundo o Gen Mark Clark, o V Exército entrou em combate, muitas vezes, com menos de 50% de chances de êxito

As “Falhas” 

No caso específico do Monte Castello, muitas “falhas” são apontadas: uma parcela considerável delas de forma erronêa, por pura falta de conhecimento de estratégia militar ou mesmo pelo comodismo na repetição de depoimentos antigos. As mais comuns são as seguintes:

1. O  ataque brasileiro, em 29 de novembro de 1944, foi feito de forma precipitada

Meia-verdade. Em combate, precipitação e ousadia possuem limites difusos. Além do que, raramente se concebe um plano onde tudo possa ser minuciosamente planejado com tempo suficiente. Os chamados “ataques de oportunidade” revelam-se mais eficazes do que aqueles que dão tempo ao inimigo para reforçar suas defesas. O brilhante General George S. Patton dizia: “Um bom plano hoje é melhor que um plano perfeito amanhã“.

Olhando sob o ponto de vista do Comando aliado, se em 24-25 de novembro de 1944 as tropas de segunda linha da Task Force 45 conseguiram dominar as alturas do Monte Belvedere, sem grande dificuldade, por que não haveria dos brasileiros conquistarem o modesto Monte Castello? A urgência do ataque brasileiro era justificada, pois a Task Force 45 estava isolada no alto do Monte Belvedere.

Considerando que os brasileiros foram obrigados a empreender uma marcha penosa, sob chuva, durante a madrugada, chegando às bases de partida apenas duas horas antes do ataque, sem um tempo mínimo para reconhecerem o terreno que atacariam, alguém poderia retrucar, com certa razão:“Não seria mais prudente que o comando aliado esperasse os brasileiros se prepararem adequadamente, para só então atacar o Monte Belvedere?”

Infelizmente não havia tempo para isso. O Comando aliado estava determinado a alcançar o Vale do Pó antes da chegada do inverno (“Natal em Bolonha” era o lema), evitando que suas tropas  ficassem entrincheiradas na lama e na neve, sendo alvejadas por tiros de artilharia por meses seguidos (o que acabou acontecendo). Além do que, era mister aproveitar a surpresa e o êxito alcançado pela ação da Task Force 45.

Houve um incidente chave que determinou o fracasso da operação do dia 29:  o contra-ataque alemão que expulsou os norte-americanos do Monte Belvedere, horas antes do ataque brasileiro. Assim,  os homens do Regimento Sampaio receberam um fogo mortífero de armas automáticas e fuzis pelo  flanco esquerdo exposto, causando pesadas baixas e obrigando-os a retroceder.  Já o III Batalhão do 11º RI: O “Lapa Azul”, que atacava pelo lado leste do Monte Castello, chegou muito próximo aos seus objetivos, mas teve de retrair, face o recuo do regimento carioca.

Tais informações estão contidas nos documentos oficiais da FEB e na biografia dos seus comandantes. A elas se juntam queixas na dotação de munição de artilharia e de armas pesadas. Alguns críticos poderiam alegar vício de origem e auto-defesa nessas alegações. Vejamos, então, o que escreveu o norte-americano John Holt Willians, em seu artig “The Blooding of FEB” , publicado na revista Army, em julho de 1986.

“O Gen Mascarenhas tentou de novo no dia 29 e, apesar de seus homens terem se desincubido com coragem quase suicida, as posições alemãs resistiram. Em parte, os insucessos da FEB foram devidos à relativa falta de armas pesadas. A FEB não tinha dotação completa de metralhadoras e havia uma falta aguda de munição de artilharia 105 e 155 e absolutamente nenhum apoio blindado.”

2. Foi um erro realizar o ataque de 12 de dezembro de 1944 de surpresa, sem apoio de artilharia e aviação

Os ataques de surpresa, sem apoio de artilharia e aviação, são quase tão comuns quanto os “normais”. Foi justamente o ataque de surpresa, efetuado pela 1ª/86th, que deu início à queda da linha de defesa germânica. Além disso, as condições meteorológicas daquela região, no dia do ataque (definido pelo comando aliado), impediam a condução dos fogos de artilharia e apoio da aviação, face a espessa névoa que cobre o Monte Castello nesta época do ano, especialmente no começo do dia.

Os vídeos a seguir, gravados por volta das 10:00 horas, com o auxílio do Sr. Mario Pereira, Guardião do Monumento Votivo em Pistóia, ilustram bem o que foi dito, pois mal se consegue observar  o sopé de uma das franjas do Monte Castello. (Foi preciso utilizar na lente da camera um filtro polarizador circular, pois a brancura da neve também limita a visão à distância).

O local destas gravações pode ser acessado, no Google Maps, neste link.

Infelizmente, em 12 de dezembro o sigilo da operação foi quebrado com a realização de fogos sobre o Monte Belverede, por parte da Artilharia da Task Force45. Além do que, houve problemas de comunicação e coordenação durante a execução do ataque.Veja o depoimento do veterano Natalino Cândido, do Regimento Sampaio, sobre o ataque de 12 de dezembro ao Monte Castello:

Os Motivos Reais do Fracassos

Nossa cultura latina, de forte componente emocional, possui a tendência de polarizar os eventos históricos, classificando-os como tragédias ou glórias. Trata-se de algo que não ajuda em nada para o exame ponderado dos fatos e do seu real significado. Frequentemente desconsidera-se o contexto histórico desses eventos para fazer valer uma visão ideologizada, melancólica ou anti-militarista.

No dia em que a resposta do Cmt da FEB foi entregue, por exemplo, o avanço aliado foi inteiramente bloqueado na direção de Bolonha e uma divisão americana teve baixas terriveis. Em 26 de dezembro, os alemães contra-atacaram na região de Viarregio e Camaiore, fazendo os americanos da 92ª Div “Buffalo” recuarem 5 Km, ameaçando os portos aliados no mediterrâneo e quase cortando os suprimentos de todo o IV Corpo de Exército. Perto desses episódios, o fracasso brasileiro foi secundário. Quando muito.

Hoje os fatos apresentam-se com muita clareza. Entretanto, é justo reconhecer que, na época, eles não tinham colorido definido, tornando as decisões difíceis e discutíveis. É preciso ter isso em mente.

Os fracassos — tanto dos norte americanos quanto dos brasileiros — nos ataques iniciais ao maciço Belvedere-Castello tiveram causas variadas, independentes e específicas para cada uma das tentativas, tanto no planejamento quanto na execução.

É razoável culpar a escolha pelo ataque frontal apenas na operação desencadeada em 12 de dezembro de 1944, quando os nazistas já haviam reforçado as suas defesa na área e, sobretudo, sabidamente dominavam as elevações vizinhas.

No capítulo “Um desejo que se não realizou”, do  livro “Crônicas de Guerra”, o Tenente-Coronel Uzeda, Comandante do 1º Batalhão do 1º RI, conta que mandou realizar um reconhecimento na região de Gaggio Montano, verificando a grande vantagem de um ataque de flanco a Monte Castello, mandando reconhecimentos nesse sentido e propondo essa manobra ao Alto-Comando (pág. 41):

“E por que dias depois executamos o 3º ataque frontal do 4º Corpo de Exército ao Monte Castello? Por ordem! Entretanto, ponderamos antes a nossa preferência pelo ataque de flanco, e confessamos nosso ponto de vista quanto aos inconvenientes gravíssimos que apresentava o ataque de frente ao Monte Castello”. 

O ser humano mediano possui a tendência de encontrar respostas simplificadas para questões complexas. Embora tais simplificações facilitem o entendimento popular, no caso do Monte Castello respostas simples conduzem a interpretações e generalizações errôneas. O General Mascarenhas fez o melhor que podia com os meios que dispunha, dentro da exagerada porção da frente de combate que foi atribuída à FEB. Os brasileiros foram encarregados de atacar e defender numa extensão de 15 Km, impedindo com isso a concentração de meios para um ataque decisivo. Para se ter uma idéia, a poderosa 10ª Div Mth americana efetuou o ataque vitorioso com a totalidade dos seus três regimentos, em fevereiro de 1945, numa frente com cerca de 5 Km, menos de 1/3 da brasileira, que na defensiva de inverno estendeu-se para 18 Km.

Fig. 11 Operação Encore: a 10ª Div Mth atua concentrada numa frente com menos de 1/3 da frente brasileira.

Eliminando as razões expostas pelo General Mascarenhas de Morais em suas memórias, outros  motivos dos insucessos brasileiros são raramente abordados. Entre eles está a pouca qualificação dos brasileiros em atividades de elevado nível técnico, como a interpretação de fotos aéreas, fundamentais para a localização das defesas inimigas, confecção de cartas topográficas, de situação e caixões de areia.

A primeira escola de formação de especialistas militares: o Centro de Instrução Especializada (CIE), foi criado às pressas, por decreto presidencial, em 30 de junho de 1943, totalmente dependente do auxílio de instrutores norte-americanos. O Curso de foto-informação do Exército Brasileiro só viria a funcionar, efetivamente, após a II GM, na Escola de Instrução Especializada (EsIE), no Rio de Janeiro.

Curiosamente, uma das melhores fontes de estudo sobre as razões dos insucessos nos ataques ao maciço Belvedere-Monte Castello, está justamente nas razões apontadas para o sucesso do ataque final, iniciado na operação Riva Ridge e descritas pelo Tenente Coronel Henry J. Hampton, Comandante do I Batalhão do 86th (Download do documento original aqui).

 THE RIVA RIDGE OPERATION

REPORT OF LT. COL. HENRY J. HAMPTON

Razões para o Sucesso

1. 70% do pessoal foi treinado nas Montanhas Rochosas. Eles não tinha medo de despenhadeiros, precipícios e terreno difícil.

2. Reconhecimento prévio e completo das rotas de abordagem pelos oficiais e homens que conheciam a montanha, com a preparação de ordens detalhadas, caixões de areia e fotos aéreas para a completa orientação de cada homem.

4. Reconhecimento aéreo, feito pelos comandantes, no terreno que não podia ser observado na superfície.

5. Possibilidade de prática num terreno próximo, compatível com o terreno onde a operação foi executada.

6.  Ação noturna tanto na abordagem quanto no ataque.

7. Condição física e disposição, que eram os principais obstáculos a serem ultrapassados.

8. Moral alto  e Espírito de Corpo dos homens, que sabiam que o combate em montanha era a sua especialidade e quando lhes é dado um objetivo, darão o máximo de si para superá-lo, para justificar o seu treinamento especializado.

Diga-se de passagem: boa parte das razões para o sucesso da tropa norte-americana não estavam presentes no treinamento da tropa brasileira. Mesmo assim, o Ten Cel Castello Branco minimizou as deficiências da tropa ante a impossibilidade da missão imposta: “Quanto às falhas dominantes observadas na montagem e na execução dos ataques, queremos apenas sintetizar dizendo, que resultaram mais das condições dominantes do que das imperfeições da própria tropa.”

O Comandante da FEB decide continuar

Retornando da reunião, no QG do IV Corpo de Exército, o Gen Mascarenhas de Moraes foi demovido da idéia de renúncia ao cargo pelo Gen Cordeiro de Farias, respondendo então aos questionamentos do Gen Crittenberger:

” A FEB guarnece uma frente de 20 Km e teve ordem de atacar num setor de 2 Km dessa frente; não tinha meios para vencer o inimigo nesse setor e continuar a guarnecer 18 Km; o comando brasileiro achava que a FEB poderia manifestar capaciddae de combate quando recebesse uma missão adequada aos meios, não só quanto a profundidade do ataque, mas quanto à sua largura; mas enquanto recebesse missões como aquela do dia 12, só poderia mostrar não uma incapacidade, mas uma impossibilidade de combater. Acrescentou o comando brasileiro que nem a melhor Divisão americana, no T.O. do Mediterrâneo, do Pacífico ou da Europa, entrou em linha sem ter preenchido por completo o ciclo de sua instrução, isto é, um ano de instrução nos Estados Unidos, três meses no T.O. e um mês de ambientação na linha de frente. A instrução da FEB tinha sido incompleta no Brasil por culpa do Governo, na Itália por culpa do comando aliado. Por fim, como último argumento, dizia que não cabia ao comando brasileiro julgar a si próprio. O comando americano, que o tinha diretamente sob suas ordens, é que poderia atestar se tinha ou não capacidade de combate”

(trecho do livro: A FEB por um Soldado)

Seus argumentos foram aceitos e, porque não dizer,  empregados pela 10ª Div Mth americana na ação vitoriosa de fevereiro de 1945. Após o episódio de Monte Castello, a FEB passou a ser empregada de forma adequada, portando-se de forma admirável pelo restante da campanha.

Muita embora esse episódio pessoal dramático possa sucitar uma animosidade ocorrida entre brasileiros e norte-americanos, tal impressão é falsa. O tratamento entre militares, principalmente em tempo de guerra, costuma  ser duro, ríspido, direto. Quando vidas humanas estão em jogo, não há espaço para meias palavras. Por outro lado, esse tratamento  também é igualmente leal e honesto.

Prova disso são as memórias escritas pelos envolvidos. Nelas evidencia-se o respeito e a admiração mútua entre Mascarenhas de Moraes, Crittenberger e Mark Clark.

Os combates de Monte Castello foram muito pouco abordados pela historiografia nacional, em especial nos últimos 30 anos. Há muito ainda a ser descoberto, pesquisado e debatido. Novas idéias e interpretações podem (e devem) germinar, livres de idéias pré-concebidas e amparadas num estudo sério e meticuloso.

Fig.12 Mascarenhas de Moraes: o Cmt da FEB viveu momentos dífíceis de decisão, mas nunca lhe faltou inspiração nem coragem de assumir a responsabilidade plena pelos seus atos

A atitude do Gen Mascarenhas de Moraes deve ser objeto de meditação. Como bem escreveu Joaquim Xavier da Silveira em ” A FEB por um Soldado”: “O Comandante da FEB permaneceu à testa da Divisão, e os fatos subsequentes demonstraram o acerto da decisão. O episódio não precisava vir à público, no entanto, em suas memórias, o já Marechal Mascarenhas de Moraes resolveu relatá-lo. Por certo o Comandante da FEB desejou que ele servisse de ensinamento, para demonstrar que um chefe militar tem de examinar a questão da liderança. “

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