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Archive for the ‘Músicas da FEB’ Category

Talvez a música mais conhecida sobre a participação do Brasil na II Guerra Mundial seja “Mia Gioconda“, eternizada na voz de Vicente Celestino, em 1945, e regravada por diferentes intérpretes como Agnaldo Rayol e Chrystian & Ralf ao longo dos anos.

A canção fala da paixão entre um soldado brasileiro e uma italiana loura durante a campanha da FEB na Itália. O final da música é triste, pois o casal foi separado ao final da guerra, visto que as namoradas não foram autorizadas — por motivos óbvios —a  acompanharem seus parceiros nos navios de transportes militares no retorno ao Brasil.

Contudo, o fato que inspirou a música de Vicente Celestino pode ter origem no caso de amor entre o soldado João Pedro Paz e a italiana Gioconda Iole, narrado numa bela reportagem do jornalista Marcelo Monteiro (link)  e reproduzido a seguir.

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João Pedro Paz e Gioconda Iole – Museu da ANVFEB-JF

João Pedro Paz conta ter conhecido Gioconda Iole durante um baile vespertino, em um local chamado Cinema Garibaldi, na localidade de Pescia, em março de 1945. “João estava de folga e decidira ir à cidade em busca de diversão, na companhia de dois companheiros de farda. Assim que a orquestra iniciou a execução de Moonlight Serenade, de Glenn Miller, os olhares dos dois se cruzaram, e João tirou-a para dançar. Foi o início de um namoro avassalador, que só seria interrompido no retorno da FEB ao Brasil. Antes do embarque, mesmo acreditando ser impossível trazer Iole ao Brasil, João prometeu buscá-la para que ambos pudessem casar-se.

Três meses após a volta ao Brasil, o pracinha recebeu uma carta de Iole, que contava estar grávida. A história causaria comoção na cidade, a ponto de um jornalista da extinta Folha da Tarde iniciar uma campanha para arrecadar fundos e bancar a vinda de Iole.

Os dois casaram-se por procuração – ele, em Porto Alegre, ela, em Pescia. Meses depois, Iole chegou ao Brasil para viver o seu grande amor, que já dura sete décadas. O filho Pedrinho, que tinha apenas três meses quando atravessou o Atlântico com a mãe, morreu aos 12 anos. Além dele, o casal ainda teve outra filha, Ana Maria.”

O museu da ANVFEB-JF possui inúmeros pôsteres enviados por iniciativa de João Pedro, inclusive uma foto sua com Gioconda, que ilustra este post.

Ao contrário do enredo da música de Vicente Celestino, a história de amor entre João e Gioconda — que não era “bionda” (loura), mas uma belíssima morena — teve um final feliz.

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João Pedro e Iole casaram-se por procuração – ele, em Porto Alegre, ela, em Pescia, na Itália Foto: Tadeu Vilani / Agencia RBS

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Quando se fala hoje em música proibida, a imagem que muitos têm é a de algum tipo de funk envolvendo a apologia ao tráfico de drogas e/ou recheado de palavrões. Mas este novo post trata de algo bem diferente: um samba proibido pela censura do DIP, o Departamento de Imprensa e Propaganda da ditadura Vargas. Uma obra-prima composta por ninguém menos do que o imortal Ary Barroso.

Ary Barroso: autor do samba sobre a FEB

A censura executada pelo DIP era de extrema eficiência. Agia em todos os segmentos da sociedade e, muitas vezes, os censores eram pessoas envolvidas pelo clima da época, que “entregavam”, até inconscientemente, as manifestações culturais que por acaso demonstrassem ideias contrárias ao governo, logo a seguir censuradas.

Foi este o caso do samba Onde o Sol Doira as Espigas (1944). Embora não mencione diretamente a FEB, a censura da DIP entendeu que a letra, com sua exposição realista dos males do conflito, faria baixar o moral de quem a ouvisse, assim prejudicando a mobilização. A bem dizer, numa época onde o esforço de guerra era continuamente sabotado — ainda que disfarçadamente — por integralistas, simpatizantes do nazi-fascimo e adversários do governo Vargas, a belíssima composição vinha em momento inoportuno.

Ary Barroso então reescreveu novos versos para  a primeira parte, mais ácida,  e mudou o título para “Uma Parte da História“: “O caboré piou/ nêgo tremeu/ pra senzala correu/ e lá ficou” (Caboré é o apelido de uma ave de rapina). Ao que parece, Ary Barroso já recebera notícias do horror e da fome característicos do front italiano, inserindo a batida do surdo, tal qual numa procissão fúnebre; e o toque de clarim, em acordes semelhantes ao toque de silêncio. Já os versos da segunda parte, de exaltação, permaneceram.

Moraes Neto (1918-2009) interpretou o samba no rádio por duas vezes, no máximo. Mais tarde, chegando ao estúdio de gravação, a composição não coube no disco (78 RPM) por ser muito longa. Depois de um incêndio na rádio Tupi, a partitura manuscrita queimou-se. Felizmente Morais Neto sempre reservava para si um cópia das gravações, a fim de usá-la em suas excursões.

Decorridos 47 anos, o samba foi regravado pelo próprio intérprete em sua versão original. Clique neste link para ouvir.

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