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Archive for the ‘História do “Lapa Azul”’ Category

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Hoje, 21 de fevereiro, as redes sociais estão repletas de artigos acerca da tomada do Monte Castello pela Força Expedicionária Brasileira (FEB), há 71 anos.

A conquista do bastião nazista, após duas tentativas infrutíferas, promoveu o surgimento de polêmicas e mitos que atravessam as décadas. Ainda há muito a ser pesquisado e trazido ao público, tanto nos registros oficiais brasileiros quanto nos alemães e norte-americanos. Nesse contexto, as mídias sociais são um meio excepcional para a difusão do conhecimento sobre o tema, mas elas esbarram em certos limites intransponíveis.

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O Monte Castello – Modelo digital do terreno (MDT) de autoria de Durval Lourenço Pereira.

Como discutir, em alto nível, a validade da estratégia utilizada pelo comando brasileiro com quem jamais colocou os pés naquela região? Como elogiar ou censurar determinada diretriz de comando da FEB junto ao sujeito cuja maior “experiência militar” foi pertencer a um grupo escoteiro? De que forma argumentar sobre a qualidade do fuzil A, B, ou C, com o jovem cuja expertise com armas resume-se à arena de paintball? A discussão é possível, mas limitada.

Já a experiência de combate é individual, única, e perpassa a vivência de qualquer um de nós, sejamos militares ou civis. Você quer saber mais sobre a tomada do Monte Castello ou a jornada da FEB? Então procure um veterano. Ainda que a memória do velho soldado possa estar esmaecida pelo tempo, ou mesmo ser imprecisa, ela será mais valiosa do que qualquer post encontrado na internet — incluindo este. Jamais rebaixe as impressões pessoais de um pracinha diante do mais belo artigo já escrito sobre o tema por um “general de poltrona”.

Hoje vivemos em paz, livres, num regime democrático — ainda que com sérias deformidades no Brasil —, porém, nossa liberdade não nos foi dada graciosamente. Nos idos de 1944-1945, muitos dos pinheiros que hoje adornam o Monte Castello foram alimentados pelo sangue dos nossos soldados. Como diz o ditado popular norte-americano: “Freedom is not free”: a liberdade não é de graça.

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Fazemos parte de uma geração contemporânea dos veteranos da Campanha da Itália, e temos o privilégio de poder conversar com os seus últimos representantes. Contudo, muitos de nós ainda não se deram conta desse fato. Por isso, ao invés de gastar seu tempo com debates virtuais — não raro acalorados e inócuos — com desconhecidos, dedique hoje pelo menos cinco minutos do seu dia para dialogar com um veterano de guerra. Expresse a ele a sua gratidão. Isso é o mínimo que um verdadeiro entusiasta da memória da FEB pode fazer.

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Diz a sabedoria popular que o caráter de um homem se mostra quando lhe é dado poder. Isso é verdadeiro, particularmente quanto ao trato dispensado às pessoas mais humildes.

Na Itália, durante a II Guerra Mundial, o General de Divisão Mascarenhas de Moraes ocupava o mais alto posto do Exército Brasileiro, comandando uma Divisão com mais de 25.000 homens. Em meio aos afazeres da guerra, o oficial lembrou-se da Dona Amélia, sua primeira professora, na modesta cidade de São Gabriel. Mascarenhas escreveu-lhe a seguinte carta:

Itália, 27 de março de 1945

Prezada Professora Dona Amélia

Nas horas de emoções e responsabilidades por que passo, na nobre missão de Comandante da Força Expedicionária Brasileira, recordo-me sempre, com simpatia  e respeito, da boa amiga e querida professora que as primeiras letras me ensinou.

É meu sincero desejo homenagear-vos nesta recordação, em proclamando vossa benéfica influência na formação da minha infância, que de vós recebeu os encantos de tão doces conselhos e exemplos de tão dignas maneiras. Não me esqueço de vossa amizade por minha mãe, que tanto vos queria e admirava.

É nessas recordações amigas que conforto meu espírito, diante dos horrores da guerra.

Podeis estar certa, minha grande amiga, que a vitória das nossa armas na Europa terá sempre um bocado do vosso doce coração de professora e educadora.

Abraços do vosso discípulo,

Mascarenhas de Moraes.[1]

O General Mascarenhas de Moraes incluiu o teor desta carta em seu livro de memórias, publicado postumamente, fazendo questão de ressaltar que somente na sua maturidade foi possível avaliar, em toda extensão, o quanto devia à mestra que lhe moldou o caráter na infância:

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Caráter forjado nos bancos escolares: em pleno combate, o General Mascarenhas de Moraes reconheceu o valor da sua primeira professora.

 “Seus ensinamentos, em especial de formação moral e cívica, sempre os tive presentes em meu espírito. Nas horas supremas do dever a cumprir, eles, do subconsciente onde permaneciam, assistiram-me tanto quanto os recebidos de meus primeiros e constantes educadores — meus pais.”

Mais do que uma prova da grandeza do caráter do General Mascarenhas — e do papel do educador nesse processo — esta carta serve como reflexão sobre o modelo de Educação em voga no país: avesso aos valores morais, cívicos e à família. Que tipo de futuro estamos preparando para o Brasil?

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[1] MASCARENHAS DE MORAES, J.B. Memórias 2.ed., Rio de Janeiro Bibliex, 1984, v.2, p.448.

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Com imagens históricas e depoimentos de ex-combatentes, jornalistas e historiadores, o documentário 1942 – O Brasil e sua Guerra Quase Desconhecida aborda um fato pouco explorado na História: a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial.

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Com direção de João Barone e Adolfo Paiva, os pracinhas que lutaram e sobreviveram aos horrores do conflito fazem relatos emocionados. Já personalidades como Pedro Bial, Luis Fernando Verissimo, Marcelo Madureira, William Waack e Arthur Dapieve analisam o contexto histórico da época, que levou o Brasil a tomar parte na Guerra.

Assista o documentário em http://philos.tv/video/1942-o-brasil-e-sua-guerra-quase-desconhecida-37944/37944/

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Por Durval Lourenço Pereira


Os intelectuais não podem ser bons revolucionários;

eles são bons o suficiente para serem apenas assassinos.

 Jean-Paul Sartre, Dirty Hands

Walter Mattner era um secretário de polícia alemão em Viena, Áustria, em outubro de 1941, quando 2.273 judeus foram assassinados no gueto de Mogilyov. Foi quando ele escreveu à esposa, narrando sua experiência pessoal no episódio:

“Minhas mãos tremiam um pouco nos primeiros carros. Já no décimo carro eu mirava calmamente e atirava com justeza em várias mulheres, crianças e bebês. (…) A morte que lhe dávamos era boa e rápida. Os bebês voavam em grandes arcos e nós os reduzíamos a pedaços no ar, antes que eles caíssem nas valas e na água. Eu nunca havia visto tanto sangue, imundície e carne.”

O relato impressionante das atrocidades cometidas por Mattner e outros nazistas está incluso no livro Crer e Destruir – Os intelectuais na máquina de guerra da SS nazista (Believe & Destroy), do belga Christian Ingrao.

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Crer e Destruir reconstitui a trajetória de oitenta intelectuais alemães, nascidos na primeira década do século XX, cujos estudos universitários eram o passaporte garantido para carreiras brilhantes como advogados, economistas, historiadores e filósofos. Entretanto, eles preferiram o engajamento nos órgãos de repressão de Hitler, em particular a temível SS. Ingrao pesquisou os mecanismos de cooptação política, científica e ideológica da ideologia nazista, tentando compreender como cidadãos de alto nível intelectual decidiram integrar uma das instituições mais assassinas da história da humanidade.

Vários desses homens integraram esquadrões da morte paramilitares, conhecidos como os Einsatzgruppen, responsáveis por assassinatos em massa. Como eles puderam arquitetar o extermínio de 20 milhões de seres humanos? Utilizando uma vasta fonte de arquivos (o livro foi baseado num trabalho de doutorado do autor), Ingrao seguiu a carreira escolar dos jovens até a universidade, passando pela participação no Sicherheitsdienst-SD (o Serviço de Segurança e Inteligência do Reich) e os autos da defesa durante os julgamentos em Nuremberg. Apoiado em uma minuciosa investigação nos arquivos do SD e das SS, o autor — também diretor do Institut de l’Histoire du Temps Présent e especialista em guerra e nazismo — retraça o destino desses intelectuais que formavam uma das principais elites de Hitler.

Crer e Destruir esmiúça o universo particular das redes militantes e universitárias onde os personagens do livro estavam entranhados, dissecando suas formas de pensar, de se relacionar com a guerra e o “mundo de inimigos” que, segundo eles, os ameaçava. O notável trabalho de pesquisa deve agradar os interessados no tema, embora não seja inédito.

Ainda em 1971, Peter Loewenberg abordou a relação entre os nazistas e suas experiências na I Guerra Mundial em The Psychohistorical Roots of the Nazi Youth Cohort. Mais recentemente, Michael Wildt escreveu Generation des Unbedingten (2003), analisando a mesma categoria de homens e situações de Crer e Destruir. O livro de Wildt é semelhante ao de Ingrao tanto na abordagem quanto nas conclusões. Isso para não falar no clássico de Hannah Arendt: Eichmann em Jerusalém (1963), no qual a autora descobriu em Eichmann, um dos engenheiros do Holocausto, não um monstro psicótico e pervertido, como muitos imaginavam, mas um homem ‘”terrível, terrivelmente normal”.

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Crer e destruir

Analisar a mentalidade desses homens e a motivação para a destruição é o ponto-chave do novo livro. Segundo concluiu o autor, a internalização do sistema de crença nazista foi uma questão de fervor, mais do que um cálculo político e ativista. Ingrao delimitou um conjunto de fatores que levaram ao Holocausto. Ainda que não seja original, sua conclusão é correta — porém genérica e adaptada aos moldes acadêmicos. Por isso, ao término do livro, o leitor tem a impressão de que faltou algo.

O desejo de revanche, oriundo de uma guerra perdida e suas humilhações decorrentes, é tão antigo quanto o homem. Isoladamente, ele não justifica o Holocausto. Por sua vez, as teorias conspiratórias criadas pelo regime em torno do “sionismo internacional” são por demais frágeis para serem assimiladas por homens supostamente esclarecidos. Governos despóticos, líderes autoritários e ditaduras geralmente são responsáveis por atrocidades, mas o nazismo transformou a prática do genocídio numa política de Estado conduzida por homens comuns — algo sem paralelo no mundo moderno ocidental.

O Shoá e os massacres perpetrados durante o conflito ficaram sem uma explicação convincente na obra, pois a mera caracterização dos judeus como “inimigos do regime” não implica, necessariamente, na eliminação física de homens, mulheres e crianças. Em seu mergulho no universo nazista, autor parece não ter tido fôlego suficiente para alcançar o leito rochoso do fato histórico, subestimando o instrumento que permitiu romper as amarras dos demônios interiores do ser humano. Ingrao talvez pudesse chegar a conclusões mais certeiras se houvesse ampliado o escopo da pesquisa.

O ódio ao povo judeu foi apenas uma das faces da violência sem limites dos teóricos nazistas e seus comparsas. Nos países ocupados pelo Eixo durante o conflito, por exemplo, para cada soldado alemão morto pela guerrilha, vinte ou mais civis costumavam ser arrancados de suas casas por tropas da SS e executados sumariamente em praça pública, diante da população aterrorizada — fossem eles judeus, cristãos ou muçulmanos. Embora os judeus tenham sido alvo de uma eliminação programada, de um modo geral o extermínio nazista não fazia acepção de raça, etnia ou credo.

Alguns sociólogos lançam parte da culpa na supressão da democracia, mas tal afirmativa carece de fundamento. Tida como um valor supremo no Ocidente, a força das urnas foi justamente o trampolim utilizado por Hitler para ascender ao poder em 1933, trazendo a reboque sua doutrina homicida. O “respeito à vontade da maioria da população” certamente daria ao líder alemão uma vitória folgada em qualquer sufrágio feito no Reich ao final da década de 1930.

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Mulher alemã (de costas, com a cabeça raspada) humilhada publicamente por relacionar-se com um judeu (de frente).

A semente da barbárie nazista é comum a outras ideologias tão ou mais genocidas. A fórmula totalitária utilizada pelo Partido Nacional Socialista alemão, suprimindo a liberdade de pensamento, é semelhante a que foi adotada pela União das Republicas Socialistas Soviéticas e por outros regimes assemelhados, como o chinês, o cubano e o norte-coreano. Não resta dúvida de que a supressão das liberdades individuais seja uma característica comum nos Estados totalitários, mas há outra questão intrínseca a esses regimes que historiadores como Ingrao evitaram destacar como ponto fundamental: o combate à herança judaico-cristã.

Apontado como causador da derrota alemã na I Guerra Mundial, o judaísmo foi o primeiro alvo dos nazistas, logo seguido da perseguição às denominações cristãs — algo mais do que esperado. Em Mein Kampf, Hitler expôs sua visão do Cristianismo como uma doutrina aliada do inimigo judeu. Segundo ele, “a religião mosaica é realmente nada mais do que uma doutrina para a preservação da raça judia”. No lugar da Cristandade, foi adotado o paganismo, trocando-se as comemorações tradicionais pelas ligadas às mudanças das estações. Casamentos e batismos foram substituídos por rituais pagãos e o Natal pelo solstício de inverno. A partir de 1939, até a palavra “Natal” foi proibida de figurar em qualquer documento oficial das SS. A adoção da suástica e os símbolos rúnicos das SS são exemplos visuais de um regime decidido a romper qualquer relação com o legado judaico-cristão. Em 9 de junho de 1942, Heinrich Himmler discursou à cúpula das SS em Berlim:

Teremos que lidar com o Cristianismo de maneira mais dura do que outrora. Devemos acertar as contas com este Cristianismo, a maior das pragas que poderia ter acontecido a nós em nossa história, a qual nos enfraqueceu em todo o conflito. Se nossa geração não o fizer, então eu acredito que irá arrastar-se por um longo tempo. Devemos superá-lo dentro de nós mesmos.

O integrante do Partido Nazista era orientado a declarar-se “crente em Deus” quando perguntado acerca da sua religião. Alguns estudos avaliam que a adoção do paganismo foi apenas a fórmula encontrada para diferenciar o regime do inimigo soviético ateu, pois a religião não era o centro das preocupações dos líderes do Reich. Segundo a crença nazista, Deus não era onipresente e pouco se importava com o cotidiano dos homens. Não haveria julgamento pelos atos de amor ou desamor ao semelhante em vida, mas pela força e coragem que os alemães demonstrassem ao “purificar” a raça ariana.

O Estado totalitário detesta concorrência. Para ele, é inadmissível a existência de uma instância superior, seja ela material ou espiritual. “Gott ist tot” (Deus está morto) repetia o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, cuja obra inspirou Hitler e os teóricos do Nazismo. Por isso, na raiz do totalitarismo, seja ele nazista ou comunista, está a supressão da religião tradicional, dos  preceitos e freios morais que apartam o ser humano da bestialidade. Como disse Ivan Karamazov, personagem de Dostoiévski: “Se Deus está morto, então tudo é permitido”.


***

Christian Ingrao fez de Crer e Destruir uma obra perturbadora à consciência do homem contemporâneo, mostrando que a erudição e a intelectualidade não oferecem uma barreira capaz de deter o avanço da escuridão sobre alma humana. O alerta é válido hoje tanto para os europeus, às voltas com o crescimento da extrema-direita, quanto para os latino-americanos, embevecidos com o “socialismo do século XXI” — sedutor do eleitorado com as falsas benesses que o Estado todo-poderoso seria capaz de oferecer. Isso não acontece por menos.

O ressurgimento das ideologias totalitárias vem atender as carências de uma sociedade cada vez mais hedonista. Em tempos recentes, a busca da felicidade ultrapassou os limites da aspiração. Agora ela é um direito que o Estado — de novo ele — é obrigado a prover ao cidadão. Alcançar o mais elevado nível de realização pessoal — incluindo a satisfação financeira, profissional, material, sentimental e sexual — é o objetivo maior da sociedade moderna. Pouco importa que o Nirvana materialista seja inalcançável, mas ai de quem estiver no caminho dos postulantes. Nesse mundo surreal, hábil na relativização de valores, a defesa de qualquer princípio, mesmo os mais elementares — como o direito à propriedade, à vida, à liberdade de religião, ou à educação moral dos filhos — é vista como uma atitude fundamentalista.

A nós, brasileiros, cabe a reflexão quanto ao modelo educacional em vigor, particularmente nas universidades, que hoje enfatizam a formação de ativistas ao invés de bacharéis. Sob o disfarce de bandeiras “politicamente corretas”, o Estado avança pouco a pouco sobre as liberdades individuais. É justamente por isso que a obra de Christian Ingrao vem em boa hora.

Mesmo sem ousar penetrar “na barriga da fera”, Crer e Destruir é um livro que merece ser lido pelo aficionado pelo tema, mostrando de forma admirável como vários membros da elite intelectual alemã abdicaram da liberdade e vontade, colocando suas almas à disposição de uma utopia. Para o desapontamento dos ”progressistas”, o autor desnuda a pretensa sabedoria humana, incapaz de conter o seu lado obscuro, bem como a fragilidade das suas criações — como a democracia e outros modelos de governos. Mas essa não é a lição principal.

Embora terrível, o pesadelo nazista foi uma experiência repetidora de erros pregressos, pois sempre que a sociedade ocidental resolveu erigir uma nova ideologia ou governo, suprimindo a base moral judaico-cristã dos seus fundamentos, ela colheu o desastre. Fica no ar a questão: algum dia a origem do totalitarismo e da maldade humana será compreendida em sua plenitude?


Fontes: – Anna Maria Droumpouki on Believe and Destroy: Intellectuals in the SS War Machine. Disponível em: http://www.historeinonline.org/index.php/historein/article/view/245

– Jan Mieszkowski on Believe and Destroy : Intellectuals in the SS War Machine. Disponível em: https://lareviewofbooks.org/review/the-banality-of-intellect-christian-ingraos-believe-and-destroy

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No início dos anos 1990, um grupo de eminentes cineastas capitaneados por Martin Scorcese, que reunia astros como Woody Allen, Robert Altman, Francis Ford Coppola, Clint Eastwood, Stanley Kubrick, George Lucas, Sydney Pollack, Robert Redford e Steven Spielberg, fundou a Film Foundation – Filmmakers For Film Preservation: uma entidade inteiramente dedicada à preservação do acervo audiovisual dos Estados Unidos.

A instituição estimou que a metade dos filmes norte-americanos feitos antes de 1950 haviam se desintegrado — perdidos para sempre —, e que existiam apenas dez por cento dos produzidos antes de 1929. Para os filmes sobreviventes, a situação era pouco animadora, tal o estado deplorável em que se encontravam.[1]

Trazendo esta questão para o Brasil, no que diz respeito à memória iconográfica (filmes e fotografias) da FEB, cabe uma pergunta: — o que tem sido feito para preservá-la?

Aos olhos do leigo, a película de cinema bem conservada dura para a eternidade. Nada mais enganoso. A emulsão cinematográfica degrada-se com o passar dos anos, não importa o método de acondicionamento. O cuidado na armazenagem é capaz apenas de retardar o seu fim. A deterioração atinge com mais intensidade os filmes produzidos antes dos anos 1950, compostos por uma base de nitrato de celulose: um material altamente inflamável. Neste tipo de película, acontece o que os cineastas chamam de “efeito vinagre”. A proliferação de fungos desencadeia uma série de reações químicas que rompem as cadeias de acetatos, liberando ácido acético. O filme vai para o vinagre, literalmente. A única solução para evitar a perda do material histórico é submetê-lo a uma digitalização profissional.

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“Efeito Vinagre” em uma película cinematográfica. Fonte: http://www.abcine.org.br

Ao que tudo indica, a película original que mostra a ação de combate da FEB na Itália, filmada e editada pelo DIP em 1945, encontra-se sob a guarda do Centro de Comunicação Social do Exército, em Brasília. A pergunta que os historiadores e pesquisadores normalmente fazem é: o que tem sido feito para preservar e tornar acessível este material único? Por mais incrível que seja, hoje é muito mais fácil obter cópias de filmes históricos sobre a FEB no Exterior do que em nosso país.

Outro ponto delicado do acervo iconográfico da FEB são as fotografias. Com o passar dos anos, o acervo fotográfico dos brasileiros na guerra vem passando por uma transformação curiosa. Ao invés de se tornar mais rico e acessível, ele está cada vez mais pobre e distante dos pesquisadores, mesmo com a chegada das ferramentas da tecnologia moderna e da internet.

Quem teve a honra de visitar a Major Elza em seu escritório, no início deste século, pôde vê-la exibindo orgulhosa sua extensa coleção de imagens. Um imenso álbum estava sendo escaneado, em alta resolução, por um cuidadoso auxiliar cedido pelo Exército Brasileiro. Todavia, hoje não são poucos os pesquisadores que visitam os arquivos militares e não mais encontram este material. Qual terá sido o destino dessa coleção de fotos e arquivos digitais? Outras coletâneas raras, como a do General Uzêda, recebem a mesma pergunta.

Há o temor, mais do que justificado, de que o precioso material tenha caído nas mãos de colecionadores inescrupulosos ou no limbo das coleções particulares — conforme vem acontecendo com o acervo material de inúmeras associações de veteranos da FEB, que vêm fechando suas portas em todo o país.

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Major Elza Cansação Medeiros, enfermeira da FEB durante a II GM, dedicou-se à preservação da memória iconográfica dos pracinhas. O destino do seu rico acervo é ignorado.

Felizmente, há pessoas que guardam com carinho o acervo fotográfico dos pracinhas e estão dispostas a compartilhá-lo, como a senhora Carmem Couto, filha do veterano Elias José do Couto, que integrou o 11º Regimento de Infantaria, em São João del Rei. Na esperança de que as imagens possam enriquecer a memória da FEB, chegando aos filhos e netos de outros veteranos retratados nas imagens, ela disponibilizou o seu álbum de família, exposto a seguir.

Diferente da bibliografia, reproduzida em milhares de exemplares, o acervo iconográfico da FEB é único — e sua perda irreparável. Nas sete décadas passadas desde o término da II GM, o Estado brasileiro não foi capaz de criar uma entidade — civil ou militar — capaz de receber o acervo material doado pelos nossos pracinhas e seus descendentes. Uma grande quantidade de imagens e materiais diversos certamente teve como destino a lata do lixo: da História e da calçada.


[1] http://www.abcine.org.br/artigos/?id=76&/cinema-para-sempre

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Expedicionários de Lafaiete

Exemplo de integração racial na tropa – militares da cidade de Conselheiro Lafaiete (MG) no 11º RI, em São João del-Rey (Foto cedida gentilmente por Maurício Marzano)

O Presidente está obcecado com a ideia de eliminar as diferenças étnicas existentes na população brasileira, e criar uma raça brasileira homogênea, com língua e cultura uniformes. Aí, então, os Volksdeutsche (alemães étnicos nascidos fora do Reich) , aproximadamente um milhão entre os estados do Sul, perturbam-no fortemente porque mantêm sua língua, sua cultura e sua consciência racial alemã mais do que os italianos, os holandeses, os polacos, e outros.

Este é um trecho do relatório enviado a Berlim pelo embaixador alemão Karl Ritter, em março de 1938. Pouco tempo antes, o presidente Getúlio Vargas dera início a uma campanha nacionalista, visando eliminar os inúmeros quistos étnicos existentes no sul do Brasil. A série de medidas revoltou o embaixador alemão, filiado ao Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores alemães (Partido Nazista), cuja doutrina pregava a “superioridade racial ariana”.

Ao enviar este comunicado aos superiores na Alemanha nazista, Ritter esperava provocar a revolta dos líderes do Reich, obtendo a esperada permissão para pressionar as autoridades brasileiras com a ameaça do rompimento das relações diplomáticas. O embaixador não obteve sucesso no pleito, e mais tarde seria considerado persona non grata quando viajou ao Exterior, não mais retornando ao Brasil.

Por ocasião da Segunda Guerra Mundial, as políticas de segregação racial adotadas em vários países estrangeiros — tanto Aliados quanto do Eixo — direcionaram a formação dos seus exércitos. Mesmo a democracia norte-americana não foi capaz de evitar a segregação de negros e amarelos, que lutavam em unidades distintas.

Com o Brasil foi diferente. Os pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB) representaram um espetáculo jamais visto nos campos de batalha da Europa. ” (…) a segregação praticada pelos americanos causou a mais profunda repugnância na tropa da FEB”, afirmou o historiador César Campiani Maximano, em seu livro Barbudos, Sujos e Fatigados.

O diplomata nazista ficaria surpreso se lhe dissessem que, no início do século seguinte, o governo brasileiro traria de volta o fantasma do racialismo, separando os cidadãos pela cor da pele em diversas políticas públicas.


PEREIRA, DURVAL LOURENÇO, Operação Brasil, São Paulo, Contexto, 2015, p. 39 – Relatório político nº B7/7, de 30 Mar 1938.

MAXIMIANO, CÉSAR CAMPIANIBarbudos, Sujos e Fatigados, São Paulo, Grua, 2010, p.338.

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