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Archive for the ‘A FEB nas Escolas’ Category

Segundo um provérbio atribuído a Confúcio, uma imagem vale por mil palavras; de fato, quase sempre funciona assim, e, às vezes, certas imagens ultrapassam as mil palavras. Foi baseado nesse pensamento que este post foi escrito.

As fotos a seguir podem enganar os desavisados, pois não registram uma passeata no Brasil, mas em um distante país estrangeiro na Europa. Trata-se das comemorações pela libertação da cidade italiana de Montese, pelas tropas da Força Expedicionária Brasileira (FEB), durante a II Guerra Mundial.

Montese Pracinhas

70 anos depois – Pracinhas brasileiros desfilam na Itália. No volante, Marco César Spinosa, com Vítor Santos de carona. Foto de Fabio Mantovani

Olhando as imagens, o observador perspicaz irá notar que as bandeiras do Brasil e os símbolos da FEB, levados pelas crianças, não foram impressos em gráficas, mas coloridas pelos estudantes. Em certo momento da atividade, a Canção do Expedicionário foi cantada em português pelos jovens. Ali não aconteceu uma mera atividade partidária — tão comum por estas bandas —, com faixas e cartazes encomendadas por políticos, e sim uma legítima manifestação de civismo e gratidão.

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Desfile da população em Montese. Fonte: Gazzetta di Modena

A bela homenagem do povo italiano, que realiza esta cerimônia há décadas, inspira uma reflexão. Não vamos tratar aqui do esquecimento dos nossos pracinhas no Brasil, seja pelo Poder Público, pela imprensa ou pelos educadores, que praticamente baniram a  FEB dos livros de História. Nem vamos debater acerca da tendência nacional em recorrer aos seus soldados apenas nos momentos de crise (guerras, governos corrompidos, etc), para esquecê-los em seguida. Trata-se de algo que parece ter origem em nosso legado cultural ancestral, apontado pelo Padre Antônio Vieira ainda no século XVII: “Se servistes à pátria, que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma”. Por ora, deixemos a tarefa de decifrar este enigma para os sociólogos.

Contudo, é possível enxergar algo mais. Sim, vivemos em uma sociedade indigna do sacrifício dos nossos febianos. Tal qual um narciso às avessas, ao menosprezarmos a História, cuspimos em nossa própria imagem. Não cultivamos os feitos heroicos dos nossos antepassados, certos de que a hipotética grandeza futura da nação independe deles. Mas nem tudo é motivo de lamento.

A FEB possui o seu valor marcado na História. Pouco importa se ele não é reconhecido pela historiografia atual — em grande parte desfigurada por manipulações de cunho ideológico, amadorismos ou interesses mesquinhos. Mesmo encontrando fortes obstáculos em sua formação, treinamento e equipamento, a Divisão brasileira teve um desempenho similar às melhores Divisões Aliadas no Teatro de Operações italiano, formadas em condições incomparavelmente melhores. Sobretudo, o carinho dispensado pelos pracinhas no trato com a população ficou incrustado na memória dos civis.

Os brasileiros que lutaram na Itália trouxeram a liberdade à dezenas de cidades e pequenas aldeias da Toscana e da Emília-Romagna. Tamanha é a gratidão aos pracinhas, repassada de geração em geração pelos habitantes dessas localidades, que os turistas brasileiros relatam histórias aparentemente irreais aos seus patrícios. Muitos, ao se identificarem como brasileiros, recebem o agradecimento de italianos de diversas idades por algo feito pelos febianos há quase 70 anos.  Um pouco deste reconhecimento pode se visto nesta sequência fotográfica.

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Reencenação da Rendição da 148º Divisão alemã em Collecchio-Fornovo. Fonte: 34 Red Bull Italia – Veicoli Storici Militari – auto d’epoca Parma.

Na foto abaixo, um menino italiano exibe sorridente o estandarte da FEB. Como no provérbio de Confúcio, esta imagem vale por um milhar de palavras que, por sua vez, podem ser resumidas em apenas três: “Obrigado soldados brasileiros!”.

Montese

Crianças italianas homenageando nossos Heróis da FEB na cidade de Montese. Fonte: Ana Claudia Camargo — em Itália, Abril de 2015.

zoom P.S. Obrigado povo italiano! Vocês se mostraram dignos do sacrifício da FEB.

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Fonte: Perfil do Museu da ANVFEB de Belo Horizonte no Facebook.

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A comemoração do 70º aniversário da participação brasileira na II Guerra Mundial coincidiu com o aniversário de outro evento notável da História do Brasil: os 150 anos da Guerra do Paraguai.

Seria razoável imaginar que o longo tempo decorrido após os dois conflitos possibilitasse um registro histórico sólido acerca da ação bélica brasileira nas duas guerras. Todavia, isso não ocorreu no Brasil. Nesta semana, um grande jornal carioca publicou uma matéria  que ressalta o conflito de versões sobre a Guerra do Paraguai (link).  Pior, em certos casos, o trabalho de sucessivas gerações de historiadores foi substituído por versões elaboradas por amadores.

Até hoje a narrativa da Campanha da FEB continua sendo ignorada pelos currículos escolares nas suas diversas instâncias, ao mesmo tempo em que temas de relevância altamente discutível têm espaço garantido (link). Nas universidades, em determinados cursos de História, a participação brasileira na guerra é interpretada como um exemplo clássico da luta de classes e do conflito entre o capital e o trabalho. Segundo algumas destas versões, as “elites” teriam recrutado à força “as classes oprimidas”, mandando-as para a guerra a fim de usá-las como moeda de troca para a construção da Usina Siderúrgica de Volta Redonda.

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Memória da FEB e o patriotismo: ausências ilustres na educação brasileira.

Por sua vez, a Guerra do Paraguai costuma ser apresentada aos jovens com base nas versões espúrias retiradas por Júlio Chiavenato de uma obra do argentino León Pomer — um militante político exilado no Brasil (link). Segundo Chiavenato, a causa da guerra teria sido o interesse do capital inglês em destruir a indústria paraguaia. Em vários livros de História financiados pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), o ditador Solano López é apresentado como o líder de uma nação socialista, enquanto Francisco Alves de Lima e Silva — O Duque de Caxias — sequer é citado Em alguns deles, o herói brasileiro é descrito aos jovens como um genocida.

Pergunta-se: por que essa é uma triste realidade na educação brasileira? Por que a exaltação das glórias militares é tão execrada pela historiografia nacional? A resposta a essas questões é de suma importância para o correto estudo da participação brasileira nas duas guerras.

Nos anos 90, Prof. Dr. César Campiani Maximiano colocou por terra a desculpa usual que atribui a ignorância sobre a jornada dos pracinhas às deficiências do sistema educacional. Numa pesquisa entre alunos da Universidade de São Paulo — uma das mais conceituadas universidades do Brasil — a esmagadora maioria dos universitários sequer conseguiu responder corretamente o que significava a abreviatura FEB.

Em seu trabalho, O Brasil na Guerra: um estudo de memória escolar, o Prof. Dr. Francisco César Alves Ferraz foi mais além, identificando as duas forças que colaboravam para “comprimir” a presença da FEB na memória escolar. Segundo Ferraz, uma primeira força, centrífuga, excluía a narrativa dos conflitos armados protagonizados pelo Exército contra inimigos de outras nações (holandeses, argentinos, uruguaios, paraguaios, alemães), valorizando cada vez mais aqueles em que as Forças Armadas regulares agiram contra revoltas e movimentos sociais internos. Outra força, centrípeta, atraía progressivamente novos conteúdos ao conjunto curricular, no espaço deixado pela expulsão das “histórias das batalhas”, destacando temas sobre movimentos sociais de classes subalternas e conflitos que traduzissem politicamente a contradição entre capital e trabalho.

Esta tendência historiográfica em descrever a história de forma negativa chamou a atenção do brasilianista norte-americano Stuart Schwartz. Ele a atribuiu a um suposto  pessimismo arraigado nos brasileiros (link).

“O pessimismo, no Brasil, é mais profundo do que se pensa. Fora dos momentos obrigatórios, há muito tempo o brasileiro deixou de ser otimista. Comparando os historiadores brasileiros com os americanos, por exemplo, nota-se uma diferença. O pesquisador americano procura no passado o que deu certo na sua História. Já o historiador brasileiro busca o que deu errado. Não quer estudar o que aconteceu de bom e de ruim, mas mostrar por que o Brasil nunca funcionou bem. Para ele, a independência não foi uma independência de verdade. A república também não é uma república. Os liberais não eram liberais, o progresso não era progresso e assim por diante. Isso vai além de qualquer discussão séria sobre os problemas reais do Brasil. É um modo pessimista de ver o país, definido, a priori, como um lugar onde nada dá certo.” [1]

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Stuart Schwartz: O pesquisador americano procura no passado o que deu certo na sua História. Já o historiador brasileiro busca o que deu errado.

Schwartz apontou a origem desse pessimismo no século XIX, no trabalho de Capistrano de Abreu,  intensificado na década de 20 do século seguinte com o livro Retrato do Brasil, de Paulo Prado — que definiu o país como um lugar apodrecido, onde toda tentativa de desenvolvimento estaria condenada ao fracasso. Segundo o norte-americano, estas obras construiram uma imagem que iria alimentar os grandes intelectuais do século XX,  formando a visão do país sobre si próprio.

Embora reais, os exemplos apontados pelo historiador parecem ser oriundos mais da interpretação pessoal dos autores citados do que conduzidos por uma linha historiográfica — mesmo porque, a sistematização de currículos só aconteceria várias décadas depois. Além disso, não são poucas as pesquisas internacionais que apontam o brasileiro como um dos povos mais otimistas do mundo.

As verdadeiras raízes desse pessimismo originam-se na segunda década do século XX. Foram elas plantadas por intelectuais marxistas que buscavam implantar a ditadura do proletariado nas sociedades ocidentais. O revolucionário Antonio Gramsci foi um expoente desse movimento. Desconsolado com o fracasso da revolução comunista na Itália, Gramsci escreveu atrás das grades a sua obra mais famosa: Cadernos de Cárcere, em que analisa o fracasso da revolução bolchevique nos países da Europa Ocidental. O italiano percebeu que  a tomada do poder no Império Russo e no Ocidente exigiam estratégias diferentes, visto a sociedade ocidental possuir fortes “posições”, marcadas pelo nacionalismo, pelas instituições, e pela base religiosa judaico-cristã. Gramsci formulou uma nova estratégia, destinada à tomada das “trincheiras” da sociedade ocidental.

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Antonio Gramsci e os seus Cadernos de Cárcere: combate ao nacionalismo.

Os postulados de Gramsci e de outros pensadores marxistas foram aperfeiçoados nos anos 30 pelos intelectuais da Escola alemã de Frankfurt, que se encarregou de disseminá-los no Ocidente.  Assim, a partir do final da década de 1950, as sociedades ocidentais foram gradativamente transformadas. O movimento da contracultura nos anos 60 foi alimentado por tais conceitos, que chegam até nós na atualidade sob disfarces variados (ideologia de gênero, liberação das drogas, desconstrução da família, combate à religião, entre outros).

Conforme o seu propósito explícito, a Internacional Comunista (Komintern) lutava pela abolição dos Estados Nacionais em prol de um mundo dominado pelo socialismo. Por isso, no campo historiográfico, qualquer episódio que de alguma forma exaltasse a memória do país-alvo deveria ser reescrito pelos simpatizantes  do Komintern com viés negativo. O patriotismo deveria ser banido. E assim foi feito com sucesso no Brasil durante os anos 80. O ufanismo (o otimismo quanto às possibilidades do país) passou a ser visto como algo deplorável e o ufanista tornou-se um pária no meio historiográfico — uma espécie de leproso intelectual.

As cadeias mentais estabelecidas por esse processo foram tão sólidas que acometem até algumas obras bem-intencionadas sobre os pracinhas. Os êxitos militares e o notável poder de superação do combatente brasileiro costumeiramente subordinam-se aos percalços vivenciados pela tropa durante a campanha e no pós-guerra. Não raro, o tom de algumas produções sobre a FEB é pessimista, melancólico – quase um velório.

Não resta dúvida de que a FEB enfrentou sérios problemas — qual exército não os teve? Entre tantas dificuldades, destacam-se a desmobilização açodada e o apoio aos veteranos no pós-guerra. É certo que tais passagens mereçam ser estudadas e discutidas, contudo, elas não resumem a jornada dos brasileiros na guerra.

Aqueles acostumados ao convívio com os febianos sabem que o negativismo não predomina em suas narrativas. Dotados da maturidade que só a passagem dos anos oferece, estes senhores de cabelos alvos atribuem as dificuldades vivenciadas aos percalços indissolúveis da vida humana. A certeza — e o orgulho — que a maioria deles guarda da aventura italiana é a de terem lutado pelo lado certo na guerra, dando a sua contribuição para construção de um mundo melhor. Os pracinhas são bem mais patriotas do que pessimistas.

Infelizmente, a passagem dos anos não trouxe uma razoabilidade semelhante à historiografia brasileira, incapaz de elaborar uma versão consensual a respeito um conflito ocorrido no século retrasado. Na prática, o pessimismo historiográfico nacional vai muito além de uma tendência ou de questões que envolvam a razoabilidade, pois ele nada mais é do que o resultado da aplicação dos preceitos de uma ideologia.

O tempo é o senhor da razão? No Brasil, parece que não.


 

[1] O País do Presente, entrevista com Stuart Schwartz, brasilianista da Universidade de Yale, Revista Veja, 21 de abril de 1999.

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