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Tive a honra de receber das mãos do Major Ruy de Oliveira Fonseca, veterano da FEB, dois exemplares autografados de seus livros, lançados recentemente: Meu Pelotão e Eu e Vivências de Guerra e de Paz.

Recentes livros escritos pelo Major Ruy de Oliveira Fonseca

Meu Pelotão e Eu traz um apanhado de fotografias pessoais e do seu pelotão de Petrechos Pesados, da 4ª Cia do II Batalhão do 11º RI, que complementam e ilustram o seu outro livro, Vivências de Guerra e de Paz. Ambos dão continuidade à obra Uma Face da Glória, lançada pelo oficial em 2002.

Sempre atencioso e com uma memória invejável, o Major Ruy concedeu uma entrevista para o Projeto Memória Viva em dezembro passado, junto a diversos veteranos da ANVFEB de Juiz de Fora/MG.

Maj Ruy em entrevista para o Projeto Memória Viva

Dentre as muitas qualidades presentes em suas obras, destacam-se os pormenores da rotina e do relacionamento dos homens do seu pelotão. São informações de valor inestimável para historiadores, pesquisadores e os amantes da história da FEB em geral. Foram elas  transcritas, segundo o próprio autor,  de  ”três cadernos amarelecidos e manchados pelo suor e pela umidade das chuvas e da neve da Itália”.

O então tenente Ruy em 1944 (foto colorida digitalmente)

Na leitura das suas memórias, percebe-se não só a simplicidade, o patriotismo, a honestidade e a disposição em cumprir seu dever da melhor forma possível, mas, principalmente, a preocupação do tenente Ruy em ser um bom líder de pelotão, trazendo de volta seus homens ao Brasil. Conforme ele escreveu no livro Uma Face da Glória (Pg 61):

” Sinceramente, sinto medo, um medo danado, ainda maior de ter medo na hora “H”. Tenho, porém, consciência de minhas responsabilidades e acredito firmemente em minha capacidade de dominar esse apavoramento inicial. Tenho convivido com os homens do meu pelotão durante todo o tempo e os conheço bem e eles a mim; temos um bom relacionamento e formamos uma fraternidade, a maioria deles é de Santa Catarina e oriundos do Depósito da FEB, desde Caçapava. Há também baianos e paulistas. Uns extrovertidos, outros caladões, mas de qualquer maneira procuro atingir a todos; eles são minha responsabilidade e eu, que os trouxe, tenho a obrigação de fazer de tudo para levá-los de volta para o Brasil! “

O tenente Ruy guarneceu uma das mais avançadas e perigosas posições brasileiras: Case Guanella. Era um casario em forma de “U”, com abertura para o lado brasileiro, localizado no cocuruto de uma elevação da ordem de 750 metros, frontal ao Monte Castello, exposta aos  frequentes tiros de morteiro, metralhadoras, fuzis e tiros diretos de canhões de 88mm. O pelotão recebeu ordens de resistir naquela posição a qualquer custo, ordem cumprida com o sacrifício de muitos brasileiros.

Nas barbas do tedesco: A posição ocupada pelo pelotão do Tenente Ruy, em Case Guanella (abaixo à direita) distava poucas dezenas de metros das metralhadoras e morteiros alemães (em vermelho)

No vídeo a seguir, gravado próximo a La Cá (canto direito da imagem) pode-se visualizar uma das franjas do Monte Castello, C. Vitelline (posição avançada alemã), ao centro, e o topo do casario de Case Guanella, à esquerda.

Convivendo com o perigo 24 horas por dia, durante 17 dias seguidos naquela posição terrível, seu cuidado com os subordinados foi atestado por outro pracinha, o tenente Cássio Abranches Viotti, no livro Crônicas da Guerra (Pg. 222)

“Em Guanella conheci os tenentes Rui, Meireles e Bezerra, os dois primeiros cariocas, e o último, cearense.  O Rui era oficial da reserva como eu. Era alegre e brincalhão. Não admitia ser mandado ou mandar os seus soldados para apanhar aqueles cadáveres abandonados no campo de batalha. Dizia textualmente: – “Morreu? Caveira! Eu é que não vou morrer ou matar os meus soldados para buscar um morto!”.

Hoje, com 96 anos, o prefácio escrito pelo Major Ruy em seu livro Uma Face da Glória serve como uma verdadeira síntese do pensamento desse ilustre veterano da FEB.

“Relendo o que escrevi há mais de 50 anos, (..) surpreendo-me com um sorriso maroto, meio de saudade, meio de prazer, por me reconhecer sem neuroses, sem revoltas e até mesmo orgulhoso por ter resistido e superado as possíveis sequelas que os dias de combate no front deixaram em tantos companheiros.

Com as minhas atuais circunstâncias, sinto que sou o mesmo indivíduo e não me considero um predestinado, embora admita que somente a proteção de Deus, em quem sempre confiei, me tenha preservado a vida e a saúde.”

Palavras do Maj Ruy sobre o livro:

Ultimamente tem sido publicados livros sobre a vivência de pessoas com outrem, com objetos e até com plantas… “XYZ e Eu”. Então pensei: eu que passei mais de ano e meio convivendo com cerca de quarenta criaturas, por dias e noites, com sol, chuva e neve, com alegrias e tristezas, medos e angústia, sofrimento e dor, merecia igualmente uma referência que traduzisse essa situação toda especial, por se tratar de um compromisso deles e meu, que cada um de nós assumiu ao “jurar a Bandeira”, como cidadão a serviço da Pátria. Assim, “Meu Pelotão e Eu” sem preocupação de ser mais um livro sobre a FEB, mostra contudo, uma visão particular e intimista da guerra contada por uma pessoa comum, permitindo porém observar aspectos da natureza humana, revelados pelas fotos e gravuras expostas em suas páginas.

Valor: R$ 15,00, já com despesas postais

Pedidos do livro pelo e-mail da ANVFEB/JF: anvfebjfmg@gmail.com

MEMÓRIA VIVA – II

Patrulha da FEB nas imediações do Monte Castello – Tal qual numa patrulha com destino incerto, o Projeto Memória Viva avança. Se por um lado os obstáculos são desafiadores, por outro, os objetivos são nobres.

O Projeto Memória Viva vem repercutindo de forma extremamente positiva desde o seu lançamento. A chegada de inúmeras mensagens, de diversos pontos do território nacional, em busca de informações e orientações para a gravação de entrevistas com os pracinhas, evidencia um salutar e extremamente bem-vindo espírito de preservação da memória da FEB.

Um dos apoiadores é o historiador Derek Destito Vertino, do Portal FEB, que vem fazendo um precioso trabalho de resgate histórico da memória dos veteranos socorrenses na II Guerra Mundial. Pena que o último dos pracinhas socorrenses tenha falecido em 2005, sem poder estar presente nas belas homenagens agora feitas pela sua cidade natal e nem ao menos deixando o seu depoimento gravado para as futuras gerações de historiadores e pesquisadores.

Conforme anunciado anteriormente, estamos disponibilizando uma ficha de entrevista , para download,  com uma série de perguntas básicas a serem feitas ao veterano. Trata-se apenas de um guia, visto que uma entrevista bem-feita pressupõe, entre outros atributos, um conhecimento mínimo da história da FEB; um pouco das técnicas de entrevista; de local e equipamento adequado.

Recomenda-se com veêmencia a realização de uma pré-entrevista para um contato inicial com o pracinha, informando-o do objetivo da atividade. Esta pré-entrevista é útil para o reconhecimento do local da gravação e, principalmente, para se conhecer de antemão a trajetória da unidade do veterano, a fim de que lhe sejam feitas as perguntas pertinentes. Um entrevistador que mostra desconhecimento do tema, dificilmente terá êxito em sua empreitada.

Um bom exemplo de técnica de entrevista pode ser vista neste link, de autoria do Prof. MS Pedro Celso Campos.

Utilize este Guia para a sua entrevista

Para que a entrevista possa ser aproveitada no Projeto Memória Viva, é fundamental o preenchimento do Termo de Autorização de Uso de Imagem e Depoimentos pelo entrevistado.

Este website possui um guia completo com vídeos que ensinam em detalhes a execução de uma boa entrevista.

2. CONTATOS

O contato com os veteranos da sua região pode ser obtido nas Seções de Inativos e Pensionistas do Exército Brasileiro (SIP), com endereços disponíveis neste link na aba SIP. Obviamente, por tratar-se de uma informação restrita, deve ser feito o prévio contato com o chefe da seção, explicando-lhe a razão da solicitação. Outra forma de serem obtidos os contatos é por meio das sedes regionais da ANVFEB (Associação Nacional dos Veteranos da FEB) neste link, na aba Endereços das Associações.

3. VÍDEO

O vídeo talvez seja o componente mais dispendioso do equipamento de gravação. Entretanto, para o fim a que se destina, e em relação ao custo-benefício, uma modesta câmera que utillize fitas mini-DV, apoiada sobre um tripé simples, dá conta do recado com extrema facilidade, podendo gravar em uma única fita 90 minutos de entrevista.

4. ÁUDIO

O áudio é tão ou mais importante do que o vídeo na entrevista. Procure utilizar um microfone externo, direcionado para o rosto do entrevistado. Por mais simples que seja o microfone, ele fornecerá um áudio de maior qualidade do que o microfone embutido na câmera amadora. Este link traz boas dicas sobre microfones; já este outro  link traz informações úteis para sua utilização.

5. SITUAÇÃO ATUAL DO PROJETO

Solicitamos a prestimosa colaboração dos admiradores da memória da FEB para que possamos levar o projeto adiante. Como já dissemos, trata-se de uma iniciativa de origem pessoal, independente de qualquer instituição pública ou privada, sem recursos que não os do próprio bolso dos seus idealizadores.

O Projeto Memória Viva está idealizado em um tripé, cujas bases são o Espaço Físico e Pessoal, o Espaço Virtual e as Entrevistas. São bases que necessitam de um ínfimo apoio institucional ou empresarial. Para uma instituição ou empresa de médio porte, o custo para a implantação do Projeto Memória Viva talvez seja ultrapassado até pelo gasto rotineiro do cafezinho. Isso sem falar no retorno com a promoção da sua imagem institucional.

a. Espaço Físico e Pessoal

Procuramos o apoio de uma instituição que possa ceder um espaço físico permanente, a fim de  acomodar o material histórico da FEB (depoimentos gravados, documentos, cartas topográficas, fotografias, vídeos, filmes, fardamento, jornais, mapas, desenhos, etc…) que no momento dispomos e os que enriquecerão esse acervo no futuro. Nesse espaço físico, há necessidade da alocação de pessoal especializado para receber e catalogar o material doado, seguindo os critérios arquivísticos apropriados e acondicionando-os de forma a protegê-los da ação do tempo.

Dentre o pessoal encarregado de receber as doações, é fundamental a existência de um aparato de informática (computadores e scanners) destinado a digitalizar o material impresso, colocando-o à disposição dos estudantes e pesquisadores no próprio local e em um espaço virtual na rede mundial de computadores (internet).

b. Espaço Virtual

A segunda base do tripé trata da construção de um espaço virtual (website) que possa receber o material digitalizado, bem como as contribuições de historadores e pesquisadores em todo o Brasil. Inicialmente, foi imaginada a utilização de Blogs e outros sites gratuitos, mas a idéia esbarrou nas acentuadas limitações técnicas e na exígua capacidade de armazenamento inerentes a esses meios gratuitos. Um website que atenda as necessidades do projeto precisa de hospedagem paga, de um banco de dados,  um webdesigner para a construção do layout e a sua atualização e manutenção.

No Exterior, inúmeras iniciativas deste tipo são empreendidas a décadas. No Brasil, dada a pouca valorização do nosso passado, isso é visto como excentricidade ou preciosismo. A seguir, estão os links de acesso de páginas voltadas para a preservação da história oral dos veteranos de guerra na Europa e nos EUA.

http://www.natickvets.org/

http://dmna.state.ny.us/historic/veterans/vindex.htm

http://www.rusiviccda.org/oralhistory/

c. Entrevistas

Face a inexorabilidade do tempo, estamos priorizando a realização de entrevistas. Neste último sábado (3/12) participamos de uma reunião na Associação do Expedicionários Campineiros, como convidados, onde foram gravadas imagens para um futuro documentário.

Viúvas e filhas procurando manter viva a memória da FEB na AEXCamp: até quando?

Birochi e Justino: dois dos últimos veteranos da FEB em Campinas.

Nela estavam presentes três dos derradeiros pracinhas de Campinas (Antônio Birochi, Justino Alfredo e Antônio Borro). De todos, o veterano Birochi era o único que se movimentava sem auxílio de terceiros. A maior parte dos participantes era composta pelas viúvas dos pracinhas. Num canto do salão, três pequenas caixas de papelão guardam o que resta do outrora rico acervo da Associação, hoje dilapidado por terceiros e colocado à venda na internet de forma criminosa.

Por conta da avançada idade, o pracinha Justino tem a sua visão e audição comprometidas, permanecendo em silêncio por boa parte do tempo. Entretanto, enquanto absorto em seus pensamentos, no relativo silêncio do evento, sua memória aguçada por certo relembrava as antigas reuniões da Associação. Justino parecia relembrar quando muitos dos 328 veteranos campineiros, ainda no vigor da juventude,  contavam os episódios da Guerra, enchendo o ambiente com os risos e animadas conversas. De volta ao presente, com a franqueza que lhe é peculiar, ele se vira e nos indaga: - Por que só agora vocês nos procuram para fazer um trabalho desses?

Não consegui respondê-lo.

Justino Alfredo e a pergunta sem resposta: por que só agora o interesse pela FEB?

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“O verdadeiro patriotismo não é o amor pelo solo, é o amor do passado, é o respeito pelas gerações que nos precederam”.

  Fustel de Coulanges.

Projeto Memória Viva

Estamos lançando o Projeto Memória Viva, com o objetivo de preservar a memória da Força Expedicionária Brasileira (FEB) para as futuras gerações.

Uma das atividades a serem empreendidas no projeto é a gravação em vídeo dos depoimentos dos veteranos da FEB. Juntamente com a coleta dos depoimentos, o projeto disponibilizará conteúdo online, para o estudo da história da FEB, em uma biblioteca virtual, destinado aos estudantes do Ensino Fundamental, Médio e de graduação. O acesso a essa biblioteca permitirá o download gratuito de documentos, fotografias, mapas, cartas e da bibliografia de referência do tema.

Justificativa

Em pleno Séc XXI, quando a revolução digital popularizou a gravação de vídeos por meio de câmeras de baixo custo e até por telefones celulares, é anacrônico que a narrativa dos protagonistas de um dos eventos mais significativos para história do Brasil — a participação da Força Expedicionária Brasileira na II Guerra Mundial — esteja restrita à memória escrita, tal qual os eventos ocorridos nos primórdios da civilização.

Da mesma forma, numa realidade onde o computador pessoal, conectado à internet, constitui o principal instrumento de pesquisa escolar, é lamentável a ausência de uma fonte de referência oficial sobre a história da FEB. Atualmente, a trajetória da FEB é encontrada de forma fragmentada em diversos sites espalhados pela rede.

Com progressivo fechamento das Associações Nacionais dos Veteranos da FEB (ANVFEB), boa parte do acervo material que essas associações mantinham vem sendo dilapidado, tendo como destino coleções particulares. Esvai-se, dessa forma, um precioso e insubstituível patrimônio histórico. Por isso, a digitalização de material iconográfico (fotografias, mapas, imagens e desenhos) e documentos (livros, manuscritos, panfletos, cartazes e cartas) proposta pelo projeto, visa perenizar e universalizar o acesso a esse material.

O desaparecimento das ANVFEB também extingue uma fonte de referência natural para as famílias dos veteranos falecidos, interessadas na doação do material pessoal dos seus entes queridos, visto a ausência de uma instituição pública ou privada sensível a essa questão.

Concito aos amigos e admiradores do tema, que se disponham a participar dessa nobre empreitada, o apoio na gravação de entrevistas com os pracinhas e/ou com fornecimento dos dados de contato com os veteranos nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. O meio de gravação não é o ponto principal: MiniDV, BETACAM, VHS, vídeos de celular, tanto faz. O mais importante é registrar as memórias do entrevistado.

Entrevista com o Veterano Justino Alfredo

Com o apoio do Professor Marcus Carmo, de Jaú – SP, nas duas últimas semanas foram realizadas 10 entrevistas e pré-entrevistas com todos os veteranos residentes em Campinas e cidades vizinhas, entre eles: Vet. Francisco de Assis Rodarte; Ex-combatente João Luís Lima; Vet. Osvaldo Birocchi; Vet. Justino Alfredo e Vet. Atílio Camperoni.

Entrevista com o Veterano Atílio Camperoni

Entrevista com Ex-combatente João Luís de Lima

Nosso Blog disponibilizará aos interessados um roteiro de perguntas a serem feitas e algumas dicas de gravação, além de suporte técnico via e-mail para os interessados.

Em breve, entrará no ar um website específico para o projeto. Sugestões, dúvidas e consultas podem ser encaminhadas na aba comentários, ao final deste post.

Participe!

Quem Somos

Prof. César Campiani Maximiano

Durval Lourenço Pereira Jr.

Prof. Marcus Carmo

Obs: Esta iniciativa possui cunho estritamente particular, não estando ligada a nenhuma instituição pública ou privada.

No próximo dia 19 de novembro, está previsto descerramento de uma placa em homenagem aos pracinhas da FEB na cidade de Socorro-SP. A iniciativa é do pesquisador Derek Destito Vertino, licenciado em História e pós-graduando em História Militar.

A Inauguração da placa é uma homenagem aos veteranos da Segunda Guerra que representaram a cidade de Socorro na Itália. O evento está aberto ao público e contará com a presença de familiares dos ex-combatentes, políticos e admiradores em geral.

Tal homenagem é a segunda vitória de Derek Destito Vertino no resgate da memória dos pracinhas socorrenses. Em maio, por influência direta do seu livro Da Glória ao Esquecimento, a Câmara Municipal de Socorro aprovou e incluiu o Dia da Vitória (8 de Maio) no calendário oficial da cidade. O livro é dividido em dois capítulos: no primeiro capítulo é feita uma abordagem genérica sobre a Segunda Grande Guerra; no segundo, é exposta a biografia de cada veterano e a cobertura da imprensa local sobre o assunto e, finalizando, há uma reflexão sobre o nazismo na região das Águas Paulista.

Segundo Derek, a idéia de pesquisar sobre os veteranos da Segunda Guerra Mundial surgiu através de um estágio realizado no Museu Municipal. Nesse período, ele encontrou um trabalho escolar, de um colégio municipal, sobre o veterano Thomas Borim. A partir desse material, foi feita uma pesquisa levantando os nomes dos demais pracinhas da cidade: Benedito Vaz de Lima, Luiz Granconato, Manfredo Lugli e Ramiro Zucato. Na seqüência, Derek elaborou um projeto para a construção de um monumento em homenagem aos veteranos.

O historiador conta que em outras cidades da região existem monumentos em memória aos veteranos da FEB, e o Dia da Vitória é comemorado por meio de sessões solenes. Munido do resultado da sua pesquisa, o autor participou de reuniões com a Prefeita e alguns vereadores, que se mostraram entusiasmados com o projeto. No Portal FEB, encontram-se diversas fotos oriundas da pesquisa de Derek.

Ao término da II Guerra Mundial, as cidades brasileiras acolheram os seus filhos combatentes com um profundo reconhecimento e calor humano. Fosse na Capital Federal ou na pequena cidade paulista de Socorro, as imagens históricas não deixam dúvida do grau de respeito e admiração da população local. Entretanto, a poeira do tempo cobriu as glórias e os feitos dos seus veteranos. Nas décadas seguintes, excluindo a memória autobiográfica e raríssimas exceções, a literatura, o cinema e os círculos intelectuais e acadêmicos, em geral, ignoraram a epopéia da Força Expedicionária Brasileira: algo típico de uma cultura onde o heroísmo e a luta por um ideal valem pouco — pelo menos com relação aos ideais que não lhes convém.

Recepção aos pracinhas socorrenses em 1945: a pequena cidade paulista acolheu seus filhos dignamente no retorno da guerra

A cidade de Campinas, por exemplo, a 3ª maior cidade do mais rico estado brasileiro, notável pólo de desenvolvimento econômico e cultural, entregou 328 dos seus filhos à luta contra o nazi-fascismo, muitos dos quais não retornaram para suas famílias. Contudo, o primeiro livro sobre os veteranos campineiros foi publicado apenas em 1998 — 43 anos após a guerra— pela própria associação de veteranos da cidade. Em 2010, o professor Jefferson Biajone publicou o livro Pracinhas Campineiros: um notável trabalho realizado junto aos seus alunos da EsPCEx, entrevistando os remanescentes da FEB na cidade.

Pobre da Nação que projeta o seu futuro desprezando os nobres valores do ser humano. Ilude-se o país que almeja ser rico, desenvolvido, forte e respeitado, unicamente pelo crescimento da sua economia, pois os frutos dessa riqueza hão de escoar sempre pela garganta faminta e insaciável da corrupção.

Parabéns ao historiador Derek Destito Vertino e à Prefeitura de Socorro pelo resgate desse episódio histórico. Que essa iniciativa sirva de exemplo e inspiração à nova safra de historiadores brasileiros.

“CONSPIRA CONTRA A SUA PRÓPRIA GRANDEZA O POVO QUE NÃO CULTIVA OS SEUS FEITOS HISTÓRICOS”


Introdução

O estudo trajetória da Força Expedicionária Brasileira (FEB), na II Guerra Mundial, vem ganhando novo impulso com a criação do Centro de Estudos e Pesquisas de História Militar do Exército (CEPHiMEx) e dos cursos de especialização em História Militar da UNISUL e da UNIRIO . Somam-se  a eles iniciativas empreendidas pelo meio acadêmico, com a promoção de Seminários de Estudo sobre a Força Expedicionária Brasileira (SESFEB).

A edição do II SESFEB, por exemplo, teve palco no Museu do Expedicionário, na cidade de Curitiba – PR, em junho de 2011, com a Comissão Científica e Organizadora presidida pelo Dr. Dennison de Oliveira (UFPR). Marcado pela excelência na sua organização e condução, o evento foi prestigiado com a presença de autoridades civis e militares, inclusive a do General Comandante da 5ª RM/DE, do Exército Brasileiro.

Museu do Expedicionário: palco do II SESFEB

As palestras dos conferencistas foram alternadas com a apresentação de estudantes, sendo várias delas de ótimo nível. Entretanto, uma das apresentações causou particular desconforto da audiência, quando o palestrante afirmou ter havido uma intensa animosidade entre os oficiais e praças da FEB. Baseada na impressão pessoal de um veterano, a palestra foi interrompida por apartes inflamados, sendo necessária a intervenção do mediador. Sentado ao meu lado, um pracinha escutava atento a discussão, enquanto chorava copiosamente.

Sem dúvida alguma as relações intrínsecas envolvendo os integrantes da FEB merecem — e devem  — ser objeto de estudo e discussão, até para que se evite a ocorrência de erros pregressos numa futura mobilização. Porém, para que o estudo do tema possa chegar a conclusões relevantes, antigos vícios na interpretação dessas relações precisam ser deixados de lado.

Vitimização

Um desses vícios é a “vitimização” generalizada, exarcebada e normalmente equivocada dos febianos. Essa vitimização materializa-se na construção de pressupostos do tipo: “Os pracinhas era analfabetos”; ” A FEB foi recrutada no laço”; “Os brasileiros foram servir de carne-de-canhão para os americanos; ”Os oficiais e sargentos viviam em conflito”. Tais manifestações são o resultado do parco conhecimento do tema e/ou de interpretações errôneas das relações interpessoais que permearam a campanha brasileira.

Inúmeras falhas podem ser apontadas na jornada da FEB – como a qualquer outra Força participante do conflito – em particular na rigorosa disciplina militar no Brasil, na desmobilização açodada, e no processo de amparo e reabsorção do veterano de guerra pela sociedade. Entretanto, generalizar essa “vitimização” só atrapalha a compreensão das causas e da real amplitude dessas falhas.

Durante a apresentação, o universitário amparou seus argumentos nas memórias de um pracinha, descrevendo uma profunda animosidade reinante na tropa. No que concerne ao método utilizado para a abordagem do tema, estabelecer um conceito genérico sobre as relações interpessoais da FEB, baseando-se unicamente em casos pontuais – e ainda por cima narrados por uma única fonte –   é algo desproposital, certamente mais afeto a um estudo de caso.

Companhia de Canhões Anticarro do "Lapa Azul": a memória da FEB não precisa ser vitimizada, mas estudada com propriedade

Maturidade

De uma forma geral, o estudo de temas que envolvem as relações interpessoais se revela uma aventura inusitada. Uma jornada repleta de caminhos traiçoeiros e atalhos sedutores num labirinto de possibilidades, mesmo para o profissional experiente. São caminhos que exigem do pesquisador uma bagagem que inclua, além de um profundo conhecimento do tema, algo que só a experiência de vida pode lhe dar: maturidade.

Sim, a experiência de vida é fundamental na análise de temas que envolvem o relacionamento humano, sobretudo nas relações de trabalho. Dessa forma, a vivência e o testemunho de situações de conflito funcional, na vida civil, servem de subsídio para a análise de situações correlatas na FEB. Reclamar do chefe, por exemplo, não é um privilégio do militar em combate. Se o burocrata, engravatado na repartição pública, costuma reclamar do superior quando lhe é dado trabalho em demasia, o que dirá do militar que recebe ordem para silenciar uma casamata inimiga, com o risco da própria vida.

Por experiência pessoal, durante a gravação de entrevistas em vídeo com quase meia centena de veteranos, verifiquei que uma parcela ínfima desse total manifestou desagrado com seus superiores. Dentre os que retinham uma memória negativa dos seus comandantes, ficou evidente que esse sentimento estava bem mais relacionado aos eventos do pós-guerra – nas incompreensões da sociedade e até dos familiares – do que propriamente aos vivenciados na FEB. Ou seja: a forma como o indivídio assimila e interpreta as suas experiências pessoais está profundamente relacionada à sua visão pessoal do mundo. Outros historiadores que fizeram tal pesquisa certamente tiveram uma percepção idêntica.

Senhas e Palavrões

Analisar as relações interpessoais dos integrantes da FEB exige uma abstração fora do comum. Na busca de informações para a elaboração de um roteiro cinematográfico sobre a FEB, por exemplo, indaguei o veterano José Maria Nicodemos a respeito da forma de tratamento e conversas utilizadas pelos pracinhas na guerra. Ele me respondeu o seguinte:

“Olha, as gírias eram as da época, mas os palavrões eram os mesmos de hoje. Com uma diferença: na guerra os palavrões eram proferidos com frequência e com muito, mas muito maior ênfase.”

De fato, essa informação bate com o registrado em muitas outras biografias que também registram, inclusive, a substituição das senhas por frases pornográficas. No front a testosterona corria solta, não há dúvida nisso. Os melindres, o tato, a boa-educação e o alto grau cultural se revelavam supérfluos e ineficazes com freqüência. Mesmo o General Mascarenhas de Morais, fluente em vários idiomas, se dirigia com aspereza aos subordinados quando preciso: uma necessidade típica de um ambiente em guerra. Uma necessidade que não difere o general do cabo.

Para compreender esse ambiente brutalizado, se faz necessário reproduzí-lo na medida do possível. Vivenciar esse ambiente, na sua plenitude, talvez seja impossível até mesmo para o mais talentoso historiador, que dirá a um jovem universitário. A distância que separa o cenário do combate da rotina de um universitário — que talvez nem mesmo o Serviço Militar tenha prestado — é similar a que separa um Campus brasileiro dos Apeninos italianos.

Mascarenhas, Castello Branco e Zenóbio: os alvos principais

É perceptível o aumento da intensidade das críticas à oficialidade conforme se ascende na escala hierárquica. Assim, o General Mascarenhas de Morais e o General Zenóbio da Costa, no topo da cadeia de comando, tornaram-se os alvos prediletos dos ataques. Na contra-mão dessa tendência, Mascarenhas de Morais escreveu o livro A FEB por seu Comandante, eximindo-se, por completo, em desferir ataques pessoais contra quaisquer dos seus comandados. Preferiu Mascarenhas atribuir as falhas verificadas na FEB às questões conjunturais do momento, jamais a esta ou àquela pessoa.

Tendo sido o Comandante da FEB, certamente tinha ele autoridade e munição de sobra para disparar contra muitos, abatendo em pleno vôo as pretensões carreirísticas dos seus desafetos. O general brasileiro já estava no mais alto posto do Exército e não acalentava sonhos na política após a guerra, muito embora pudesse ser eleito para o cargo público que desejasse, dada a sua imensa popularidade.  Resumindo: Mascarenhas não tinha nada a perder e ainda possuia a faca e o queijo em suas mãos; mas foi magnânimo. Nobre. À altura da sua grandeza. Já o mesmo não pode ser dito em relação ao seu Chefe de Estado-Maior, Lima Brayner, que aguardou  por 24 anos a morte do seu ex-comandante e de Castello Branco para incluir no livro, A Verdade sobre a FEB, pesadas críticas aos dois.

Generais da FEB: Mascarenhas de Morais (ao centro) e Zenóbio da Costa (à esquerda) foram os alvos preferidos dos críticos

A Pedagogia do Oprimido

À luz da sociologia, parte dessa vitimização envolvendo as relações interpessoais da FEB pode ser creditada à visão marxista da Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire. Ainda bastante popular no meio acadêmico, essa linha de pensamento enxerga o mundo através do embate entre “oprimidos e opressores”, limitando-o à sua lógica reducionista. Originalmente, Paulo Freire construiu a teoria voltada para a área da educação popular, tanto para a escolarização como para a formação da consciência política, e não para o estudo da história. Mas os fundamentos da sua Pedagogia do Oprimido — já ultrapassada — criaram modelos mentais que se encarregaram de influenciar o pensamento crítico de uma parcela considerável dos nossos pesquisadores e historiadores.

Paulo Freire e a Pedagogia do Oprimido: mundo dividido entre "vítimas e algozes", "oprimidos e opressores"

Fruto dessa enjambração, a análise das relações interpessoais da FEB gerou conclusões errôneas, porém adaptadas à concepção ideológica desejada. De quebra, essa visão distorcida também serviu como uma luva aos anseios daqueles que desejavam desvincular as glórias da FEB da oficialidade que apeou João Goulart do poder, em 1964. Contraditoriamente, porém, as baixas e derrotas sofridas lhes permaneceram imputadas: “A oficialidade era composta por aristocratas que oprimiam os subalternos pobres e incultos” ou “Os bravos pracinhas morreram às centenas por causa da incompetência dos oficiais, que insistiram em ataques frontais ao Monte Castello” , são exemplos de frases proferidas, com maior ou menor freqüência, e que sintetizam bem esse tipo de pensamento.

Patton

A (má) interpretação sociológica desse fenômeno fica latente quando se observa um exemplo semelhante, ocorrido nos EUA, na figura do general George Smith Patton, Jr. Conhecido como “Old Blood and Guts“, era admirado por tratar-se de um guerreiro nato e criticado pelo fato de ser rígido ao ponto de não admitir que seus soldados sofressem fadiga de batalha. Quando Patton visitou um dos hospitais montados para receber os feridos, após a tomada de Palermo, teria dito: “Este é um santuário para guerreiros, tirem estes covardes daqui, eles fedem”, após xingar e bater suas luvas na face de um soldado, internado por fadiga de batalha. Antes do episódio, Patton já esbofeteara um soldado internado com malária, no 15º Hospital de Evacuação.

Hoje Patton é venerado como herói de guerra nos EUA, tendo sua história sido retratada por Hollywood. A figura mítica do general norte-americano está reproduzida em diversas estátuas, em locais de destaque nos EUA, inclusive na Academia Militar de West Point. Fosse ele brasileiro e submetido à Pedagogia do Oprimido, ao invés de ser homenageado em monumentos, Patton seria lembrado como um “aristocrata opressor”, substituindo Judas na malhação da Semana Santa.

Herói de Guerra: Monumento em homenagem a Patton, em West Point

Espírito de Corpo

Do ponto de vista militar, supor que havia uma animosidade generalizada entre oficiais e praças é algo risível, no mínimo. Sem um forte Espírito de Corpo: o forte de laço de companheirismo e camaradagem que une os integrantes de uma contingente militar, uma tropa mal sai de suas trincheiras; e, se sair, seu rendimento é pífio, como foi o da 92th Divisão norte-americana, composta por negros segregados em sua maioria. Jamais, portanto, a FEB teria alcançado as suas vitórias sem a existência de um acendrado Espírito de Corpo.

Frank McCann, Jr e Mascarenhas de Morais

Novas pesquisas sobre o tema precisam ser empreendidas no meio acadêmico — com a diligente orientação por quem de direito — na pesquisa em fontes confiáveis e, sobretudo, espelhando-se no trabalho e na humildade de historiadores consagrados, que já percorreram tais caminhos muitas décadas atrás. O também brasilianista Frank D. McCann, Jr. é um bom exemplo.

Embora McCann também tenha sido um dos críticos do General Mascarenhas, no prefácio do seu consagrado livro Aliança Brasil – Estados Unidos 1937-1945 ele resume seu pensamento com relação ao general, a fim de evitar más interpretações. Em sua obra, o norte-americano mostra talento, profissionalismo e a visão madura de um historiador que avalia o personagem pelo conjunto da obra e não por eventos isolados.

Frank D. McCann, Jr e a FEB: exatidão histórica e maturidade

“Se numa ou outra passagem me mostrei crítico de ambos, essa colocação foi motivada pela necessidade de exatidão histórica e não pela falta de respeito ou admiração. Mascarenhas enfrentou e superou obstáculos que teriam derrubado um homem de estatura menor. Ele foi, para usar a expressão do General Crittemberger: ‘o baixinho mais determinado que já usou coturnos!’.”

Prefácio do livro Aliança Brasil – EUA, de Frank McCann

Conclusão

Casos isolados e pontuais de animosidade  aconteceram na FEB, é claro. Impossível de não acontecerem num conflito armado. Muito menos tais casos se restringiram aos brasileiros. Por sinal, se ao invés de seguir para a guerra a FEB tivesse ido para um spa, o relato dos mais de 25.000 homens do seu contingente também não seria 100% positivo.

O que caracterizou a FEB não foi a animosidade, mas o elevado Espírito de Corpo entre os seus componentes. Foi ele o verdadeiro sentimento que aglutinou a tropa. Um sentimento que, muitas vezes, fazia os feridos — alguns deles com as feridas ainda  cicatrizando — desertarem do Depósito de Pessoal e hospitais, na tranqüila retaguarda, para reaparecerem na frente de combate, de volta à sua Cia ou Pelotão.

Se por um lado, o desprezo pela memória da FEB constitui algo deplorável, num outro extremo a sua vitimização generalizada também não trará beneficio algum.

 Capitão Yedo

O leitor deste blog já deve estar se perguntando: “E o que o Capitão Yedo tem a ver com isso?”  Vamos lá: o Capitão Yedo Jacob Blauth, era o o Comandante da 3ª Companhia, do 1º Batalhão do Regimento Sampaio. Durante o ataque vitorioso ao Monte Castello, em 21 de fevereiro de 1945, sua companhia foi atingida por um bombardeio alemão, sendo ele gravemente ferido e o Tenente Godofredo Cerqueira Leite morto, este após recusar por três vezes ser evacuado.

Fatos como esse eram corriqueiros, mas o que fez a diferença nesse episódio foi a constituição da terceira companhia: nela estavam vários praças — instrumentistas e compositores talentosos — que mais tarde compuseram o samba Capitão Yedo Comandou, de autoria do Cabo Seraphim José de Oliveira. A música, bem humorada, conta a epopéia da Cia na tomada do Monte Castello, além de fazer uma homenagem ao seu Cmt ferido. Se os argumentos já apresentados não foram suficientes para sensibilizar os incrédulos, acerca da intensidade do Espírito de Corpo da FEB, quem sabe esta música os convença.

Capitão Yedo Comandou: versão musical da tomada do Monte Castello

A foto a seguir mostra o exato momento onde o Cap Yedo recebe a sua Bronze Star. Esta foto foi tirada nos Estados Unidos, enquanto o Cap Yedo tratava-se nos hospitais americanos, indubitavelmente com mais recursos que os Hospitais de Campanha da Itália ou mesmo os do Brasil. O Capitão perdeu uma das pernas, por conta de um ferimento provocado por um estilhaço de granada, sendo-lhe adaptada uma prótese, posteriormente.

Nos EUA: Capitão Yedo recebe a medalha Bronze Star (Foto gentilmente cedida por Júlio Zary museuvirtualfeb.blogspot.com)

Medalha Bronze Star

Da direita para a esquerda: Capitão Yedo Jacob Blauth, Tenente Afrânio de Souza Jardim, Ingrid Bergman e o Tenente Túlio Campello de Souza (Foto gentilmente cedida por Júlio Zary museuvirtualfeb.blogspot.com)

Ao contrário do ocorrido em nosso país, os veteranos norte-americanos não foram esquecidos pela sociedade. Atores e atrizes de sucesso no cinema (como Ingrid Bergman, na foto acima) visitavam constantemente os militares hospitalizados ou convalescendo nos centros de recuperação nos EUA. Melhor sorte tiveram eles, em relação aos veteranos que precisaram de atendimento médico no Brasil.
Clique no símbolo abaixo para ouvir a música, cedida gentilmente pelo Ten Israel Rosenthal, da Casa da FEB-RJ. Há alguns vídeos modernos neste link do youtube , reproduzindo este belo e inspirador samba.

Capitão Yedo Comandou

Planejamento da Ofensiva de Primavera

Estavam os generais Aliados reunidos no PC de Castellucio, em 08 de abril de 1945, discutindo acerca da Ofensiva da Primavera, destinada a expulsar de vez os nazistas da península italiana. O General George P. Hays, Comandante da poderosa 10ª Divisão de Montanha norte-americana, havia recebido a missão de conquistar a cidade de Montese e as elevações que a circundavam por nordeste,  entre outros objetivos na sua zona de ação.  Durante a exposição da manobra da sua tropa, o general americano manifestou sua preocupação ante os desafios da missão que lhe foi atribuída. Nisso, intervém o General Mascarenhas de Morais, Comandante da Divisão brasileira, assessorado pelo Tenente-Coronel Coronel Humberto de Alencar Castello Branco e pelo intérprete da Divisão: o Major Vernon Walters. Mascarenhas sugere que seja deixado o encargo de Montese para a FEB.

Incrédulo, o Gen Hays agradece e pergunta desconfiado:

- O Comandante da Divisão brasileira tem a certeza de cumprir essa missão?

Ao que Mascarenhas responde de bate-pronto:

- Tem o Comandante da Divisão norte-americana a certeza de aproveitar o êxito da ação brasileira? 

A resposta espirituosa do brasileiro provoca uma calorosa salva de palmas dos presentes, aliviando a tensão do momento.

Mas a apreensão do Gen Hays tinha fundamento. Sabia ele da importância estratégica daquele setor para o ataque da sua Divisão. Era região de maior altitude em poder dos nazistas naquela frente de combate, dispondo de observatórios que devassavam toda a zona de ação do IV Corpo. Além do quê, era certo dos alemães empreenderem uma resistência deseperada, pois ali terminavam as últimas posições defensáveis do Eixo na região. Novas posições de defesa distavam 130 quilômetros para o norte, já nos Alpes. Se os alemães não detivessem os Aliados naquele local, toda a Itália estaria perdida.

O Ataque Aliado

A Ofensiva de Primavera começou tenebrosa. Marcada inicialmente para o dia 12 de abril, a neblina impediu o apoio aéreo às operações. Para complicar ainda mais a situação, na noite do dia 12 de abril chega a notícia do falecimento do Presidente Roosevelt e o dia seguinte era uma sexta-feira 13…

Finalmente, às 13:30 hs de 14 abril, o terreno calcinado e repleto de crateras da região de Montese foi o palco de um dos mais heróicos episódios registrados na história brasileira. Coube ao 11º Regimento de Infantaria, de São João del Rei – mais precisamente ao seu III Batalhão, o “Lapa Azul” – o encargo da ação principal. Dentro do batalhão,o escalão de ataque estava composto pela 8ª e a 9ª Cia: as protagonistas daquela que seria a mais sangrenta batalha da FEB em toda campanha.

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Tive a honra de entrevistar vários integrantes dessa tropa, entre eles o Cel Sérgio, à época Comandante do 2º pelotão da 8ª Cia; Raimundo Nonato, Sgt da 9ª Cia e os soldados Firmo Gomes de Carvalho, Antônio de Pádua Inham e Antero Saint-Clair: todos estes fuzileiros do 2º pelotão da 9ª Cia.

O veterano Agostinho José Rodrigues narra no livro III Batalhão – O Lapa Azul  a partida do antigo pelotão que comandava (2º/8ª Cia), agora sob o comando do Ten Sérgio:

“A um simples gesto dos tenentes, os pracinhas deixaram seus abrigos…Erguem-se, a um mesmo tempo, na linha de crista e a meio corpo. E, agachados como podem, começam a descer rápidos colinas abaixo. Lá se vai o Tenente Sérgio, meu substituto no Segundo. Vejo-o acenar aos meus homens. Sei Disso. Pressinto dizer: “Mais rápidos, mais rápidos”! Magote neles! Distingo-os. Correm Marocco, Lair, Prates, Joãozinho, Randi, Fedorowicz, Uka, Kaminski, Sabino, Pereira…”

Morre um Bravo

O Soldado Oswaldo Ferreira Lage, do 2º Pel da 8ª Cia, deu seu testemunho da agonia do Sargento Randi no livro Histórias dos Pracinhas Contadas por Eles Mesmos:

” Também no dia 14, em Montese, o bravo sargento Randi tombou ferido perto de mim. Com grande dificuldade para falar, pediu-me uma caneta e água para beber. Não pude atender o seu pedido, visto que a ordem que tínhamos era para avançar a qualquer preço. Os feridos deveriam ficar para serem atendidos pelos padioleiros. Durante muito tempo  este acontecimento martelou o meu sub-consciente e, quantas vezes, me senti oprimido por um sentimento de culpa por não ter atendido o pedido daquele companheiro.”

Consta da Parte de Combate do Cmt do III/11º RI o seguinte texto:

“Anexo a esta parte uma bandeira nazista encontrada nas mãos do Sgt Orlando Randi, morto heroicamente quando do assalto a uma casmata inimiga que defendia o pavilhão em apreço. Este comando sela esta juntada aos troféus do Regimento como preito à memória deste herói da FEB.

Ass. Maj Cândido Alves da Silva, Cmt do III/Btl do 11º RI”

Ofensiva da Primavera: em 17 de abril, após a conquista de Montese, a Divisão brasileira (BEF) recebeu ordens de não mais atacar, mantendo a posição conquistada e guarnecendo o flanco da 10ª Divisão de Montanha

Perdas Civis

A população civil da cidade, mesmo abrigada como pôde nos porões, foi duramente atingida. O jornalista Ricardo Bonalume Neto escreveu em seu livro A Nossa Segunda Guerra:

“O que os filmes deixam de mostrar é o efeito da guerra na população civil. Montese foi a comuna da província de Módena mais devastada na guerra, diz o autor italiano Walter Bellisi. De 1.121 casas, foram destruídas 833. Até o fim de 1946, os feridos e mutilados – incluindo os que pisavam nas minas alemãs espalhadas pelo campo – passavam de 700. Os mortos – homens, mulheres, crianças – da cidade na guerra foram 189.”

Tropa brasileira em Montese

O Resultado Final do Combate

A vitória brasileira custou caro ao III Batalhão. Sobre Montese foi lançado o mais devastador bombardeio inimigo na Campanha da Itália, superado apenas pelo realizado sobre o desembarque Aliado em Anzio, em 1943. Só no 2º Pelotão da 8ª Cia, dos 41 militares que iniciaram a ação, em 14 de abril,  restaram apenas 14 ao final do combate. Nos demais pelotões da 7ª, 8ª e 9ª Companhias, as baixas foram semelhantes. No total, a FEB teve 426 baixas: o maior número, num combate, desde a Campanha da Tríplice Aliança.

Patrulha do 11º RI (Foto cedida gentilmente pela Sra. Zenaide Duboc)

Foto do Vet.  João Rodrigues da Costa, do 11º RI, que está com o telefone em mãos.

O vigor e o ímpeto da manobra brasileira impressionaram vivamente os oficiais Aliados. O 2º Tenente Luiz Paulino Bomfim conta:

“Eu pertencia a E2, comandada pelo Ten.Cel Amaury Kruel, que tinha a missão de atuar na área de Informações de Combate (Combat Information  Center), em estreito contato com a G2 do 4º Corpo de Exercito, sob o Comando do general Crittenberg …. por um ou dois dias todos na 10ª Div. de Montanha me cumprimentavam com calorosos ‘you felllows did all right’, ‘you Brasils are damn good soldiers’.”

Em seu Livro Montese – Marco Glorioso de uma Trajetória, O Cel Adhemar Rivermar de Almeida afirma que o Gen Crittenbeger – Cmt do IV Corpo de Exército – registrou da seguinte forma o ataque do dia 14 em seu Boletim Diário;

“A DI Brasileira foi a única Grande Unidade que cumpriu integralmente a missão recebida. As outras (92ª Divisão Americana, 1ª Divisão Blindada, A 10ª Divisão de Montanha e a 6ª Divisão Blindada Sul-Africana) pouco progrediram e sofreram grandes perdas. A Divisão Brasileira recebeu, dentro de Montese, só numa noite, mais granadas que todas as outras somadas, sem arredar pé das posições conquistadas.”

No planejamento da Ofensiva da Primavera, estava reservado ao IV Corpo um papel de mero coadjuvante e diversionário na estratégia Aliada. O esforço principal da Operação estava direcionado para o outro lado da península italiana, na costa do Adriático. O General Crittenberger deixa isso claro em seu livro: A Campanha ao Noroeste da Itália, onde recorda, orgulhoso, a inversão do papel de sua tropa: de coadjuvante à protagonista do rompimento da Linha Genghis Khan. Não foi por menos que a sua narrativa literária – extremamente sóbria – abre espaço para um belo elogio à Divisão brasileira.

Combate violento: Das 1.1.21 casas de Montese, 833 foram destruídas

A ação brasileira em Montese retribuiu, na mesma moeda, a façanha que  o 1º/86th da 10ª Divisão de Montanha havia realizado, nas escarpas do Riva Ridge, em proveito do ataque brasileiro, pouco antes da tomada do Monte Castello. Desta vez, coube aos brasileiros, por meio do “Lapa Azul”, a honra de iniciar a abertura da porta que levaria os Aliados ao Vale do Pó, possibilitando aos norte-americanos aproveitarem – brilhantemente, diga-se de passagem – o êxito da FEB.

Mais do que isso, a epopéia de Montese atestou o que o General Mascarenhas havia afirmado, sutilmente, ao General Hays, no PC de Castellucio: não duvide da capacidade da Divisão brasileira.

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Agradecimentos:

Esse post não teria sido escrito sem a prestimosa colaboração do 2º Tenente R1 Luiz Paulino Bomfim, que aos 89 anos permanece ativo, lúcido e com uma memória impressionantemente aguçada dos eventos citados.

À Sra. Zenaide Duboc, filha do veterano Maj Álvaro Duboc, que nos presenteou com uma rara edição do livro Histórias dos Pracinhas Contadas por Eles Mesmos, do seu pai, contendo a compilação de entrevistas junto aos pracinhas juizforanos, feitas nos anos de 1975/76 e 1981/1982.

Agradeço também a inestimável colaboração do Dr. César Campiani Maximiano com preciosas informações sobre a história do 11º RI e a manobra brasileira.

Num país como o Brasil, tradicionamente avesso à preservação da sua história e cultura, é natural que a memória dos eventos históricos se perca na poeira do tempo. Mesmo a participação brasileira na II Guerra Mundial, ocorrida quase na metade do Séc XX,  quando já se dispunha do cinema, do rádio e da fotografia para o seu registro, possui um legado audiovisual muito aquém do seu potencial. E o mais grave: boa parte desse legado se esvai para o ralo.

Não fossem as associações de veteranos, mantidas por meio dos recursos pessoais dos ex-combatentes, terem servido ao longo dos anos como referência para a guarda das recordações pessoais de guerra, fosse por intermédio dos pracinhas ou de suas famílias, esse quadro seria ainda pior.

Embora tenha sido a FEB a nossa última experiência bélica, contendo inestimáveis ensinamentos para as Forças Armadas – seja na mobilização ou no combate propriamente dito – passados quase 70 anos da entrada do Brasil na guerra, por incrível que pareça, ainda não existe uma entidade oficial, civil ou militar, encarregada especificamente da pesquisa, guarda e preservação do seu acervo material. Uma entidade que sirva de referência para a doação dos acervos pessoais dos veteranos e de suas associações, visto que quase todas elas já estão fechadas - ou em vias de – face a avançada idade dos veteranos remanescentes (o veterano da FEB ”mais jovem” possui hoje 86 anos).

Acervo da FEB: com o fechamento das associações, um patrimônio histórico órfão.

Curiosamente, em 2008, enquanto o museu da Casa da FEB – o principal museu da FEB na região sudeste - fechava as suas portas por falta de recursos para a manutenção, a União Nacional dos Estudantes (UNE) era contemplada com R$ 30.000.000,00 de reais em recursos para a reconstrução da sua sede, no bairro do Flamengo. Por sinal, originariamente o local não lhe pertencia, mas à Sociedade Germânia: um clube de imigrantes alemães, fundado em 1929, e despropriado por decreto pela ditadura Vargas, em 1942, quando da entrada do Brasil na IIGM.

Sociedade Germânia: desapropriada pelo populismo da ditadura Vargas e "presenteada" à UNE.

Coube à iniciativa privada, por meio das empresas Tecnolach, Mobilazh, Sparch e Printech, do Grupo CHG a missão de proporcionar a associação os meios materiais necessários, reformando o Museu da FEB segundo um moderno e arrojado projeto que objetiva a perpetuação desta importante instituição.

O volume de material histórico que certamente já foi para a lata do lixo, ou para a mão de colecionadores particulares, ao longo das décadas, é incomensurável. Irreversível. Felizmente, de todo o legado audiovisual da FEB, a parcela que talvez tenha sido mais preservada foi o seu legado musical.

A Canção do Expedicionário, obra que encabeça esse legado, é o verdadeiro Hino da Força Expedicionária Brasileira. Foi lançada em disco em outubro de 1944, na oportunidade em que 3 dos 5 escalões da FEB já estavam na Itália. Em setembro, os pracinhas já tinham recebido o batismo de fogo.

A música é do maestro Spartaco Rossi e o poema de Guilherme de Almeida. São versos maravilhosos que retratam os valores do homem brasileiro que vai lutar, levando no coração a saudade da Pátria. Guilherme de Almeida aproveita nomes e versos de canções e expressões de uso corrente nessa genial criação. Uma canção militar de inspiração inusitada. Quando ia ser impressa, o maestro Spartaco Rossi mandou um pedido aos irmãos Vitale, para que o primoroso poema de Guilherme de Almeida fosse publicado na íntegra. Isso aconteceu.

Guilherme de Almeida: o príncipe dos poetas brasileiros

Nosso Blog oferece aos seus leitores, orgulhosamente, a raríssima composição original da Canção do Expedicionário, cantada na voz inconfundível de Francisco Alves, numa homenagem ao imortal poeta e aos heróicos Expedicionários que ele exaltou. Francisco Alves, sem dúvida, oferece-nos a interpetação mais perfeita que se conhece desta canção.

Canção do Expedicionário

Francisco Alves: sua voz inesquecível interpretou a Canção do Expedicionário.

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