Quem tem a oportunidade de conhecer a Toscana italiana, certamente fica admirado com a impressionante beleza natural da região. Além disso, a recepção aos brasileiros é afetuosa, em particular a oriunda dos habitantes mais idosos. Tirando a hospitabilidade italiana, há uma razão histórica para tal recepção. Na década de 40, lá esteve a Força Expedicionária Brasileira (FEB), durante a II Guerra Mundial, libertando dezenas de cidades e vilarejos do domínio nazifascista. Foi pensando nos brasileiros que para lá viajam, interessados em conhecer um pouco da atuação da FEB na Toscana, que este post foi escrito.
A presença brasileira da FEB na Toscana italiana, locada no Google Earth
A seguir, encontra-se a cronologia e locais por onde passaram os pracinhas brasileiros do Destacamento FEB, comandado pelo General Zenóbio da Costa, que realizou as primeiras operações militares em solo europeu.
16.07.1944 – Desembarque em Nápoles (Itália), dirigindo-se para a região de Agnaro. 04.08.1944 – Deslocamento para a região da Tarquinia. 14.08.1944 - Incorporação ao V Exército Americano. 21.08.1944 - Deslocamento de Tarquinia para a região de Vada. 13.09.1944 - Deslocamento de Vada para Ospedaleto. 14.09.1944 - Deslocamento de Ospedaleto para Vecchiano, para substituir o 434º Batalhão de Artilharia antiaérea norte-americano, recebendo a missão de progredir para o norte, tendo conquistado a Cidade de Massarosa, Monte Comunale e S. Stefano e Il Monte; 17.09.1944 – Captura dos maciços de Ghilardona, Il Vecoli, e C. S. Lucia; 18.09.1944 – Conquista das cidades de Camaiore, Castegnori, S. Martino in Fredane, C.Pellagio, Cucca, Terracia, Casciana, Monsagrati, Cota 404, Vl. De Canestrano e C. de Collecchio; 20.09.1944 – Conquista das cidades de Stignano, Auticiano, Fibiane, Bozzano e Cota 562; 25.09.1944 – Conquista dos morros M. Acuto – M.Valimoni e Garupa de Batoni, obrigando o inimigo a retirar-se para o norte;
26.09.1944 - Conquista de Monte Prana
27.09.1944 – Conquista das cidades de Lopleglia e Fianno; 28.09.1944 – Conquista das cidades de Covale, Pigaio, Villabuona, Piazzanelo; 30.09.1944 - Conquista de cidades de Pescaglia e Borgo a Mozzano;
06.10.1944 – Conquista de Coreglia Alteminelli e Fornaci; 07.10.1944 – Patrulhas da FEB entram, sem encontrar resistência, emGallicano, Fabriche e Cardoso; 11.10.1944 – Conquista de Barga e Gallicano;
24.10.1944 – Ocupação de Sommocolonia;
25.10.1944 – Ocupação de Trassilico e Verni;
28.10.1944 – Captura de Monte Facto;
29.10.1944 – Ocupação de Colomini;
30.10.1944 – Conquista de San Quirico, Lama di Sotto, Lama di Sopra, Pradoscello e Pian de Los Rios;
Muitas das localidades descritas na literatura da FEB são, na verdade, distritos pertencentes a um município próximo (comune) ou, ainda, agrupamentos de casas (paese), que não aparecem hoje nos mapas face ao seu tamanho reduzido, por terem mudado de nome e/ou por terem absorvidos por outras cidades, posteriormente.
Há algumas diferenças na nomenclatura utilizada na época com relação a atual. O Monte Prano é designado como Monte Prana no Google, por exemplo. Aliás, impressiona a sua altitude (1.221m) e o esforço que os pracinhas tiveram de empreender para sua conquista, partindo de posições quase ao nível do mar, como em Pisa (fotos). Em 1/05/2007 , foi colocada no topo do monte uma placa para relembrar a passagem dos brasileiros pelo local (fotos). Nesta outra foto aparece o cruzeiro, no topo do Monte Prana, com vista para o limite esquerdo do front brasileiro em 30/10/1944 (Pania Secca) no canto inferior direito do retângulo, por sua vez, próximo ao QG de uma Divisão SS alemã.
Um excelente estudo sobre a manobra do Destacamento FEB no Vale do Serchio foi elaborado pelo Prof. Dr. Dennison de Oliveira, da UFPR (link)
A chegada dos brasileiros, em 1944, foi motivo de festa para a população. Esteve aquela região sob o controle da 16ª Divisão Panzer SS (mapa a seguir) até o avanço dos Aliados na direção da Linha Gótica (assinalada em vermelho), que lá perpetraram atos de crueldade inimaginável. Um apanhado dos crimes de guerra na Toscana encontra-se no livro Le Stragi Nazifasciste in Toscana 1943-45e também neste link. Há cerca de 200 casos documentados, com vítimas que chegam a casa dos milhares. Ainda que, provavelmente, este número tenha sido superestimado pelo antagonismo ideológico, ainda intenso no país, os números são estarrecedores.
Mapa das operações militares em agosto de 1944 – No mês seguinte os brasileiros entraram em linha, próximo a Pisa
Apenas na cidade de Sant’Anna di Stazzema foram mortos 56o civis, entre homens, mulheres e crianças, inclusive bebês; um exemplo inequívoco da ação do mal sobre a natureza humana, agindo sob a capa de um regime totalitário e da guerra (link). Apenas em 2004, 60 anos após o massacre, os responsáveis começaram a ser julgados e condenados (link).
O cineasta Spike Lee dirigiu o filme Milagre em Sant’ Anna, que retrata esse triste episódio, ocorrido menos de um mês antes da FEB entrar em ação. A obra enfoca a 92ª Divisão “Buffallo” norte americana: a Divisão que substituiu aos brasileiros em outubro/novembro de 1944. O filme foi rodado na região da Toscana, onde os brasileiros estiveram.
As regiões nominadas no começo deste post podem ser visualizados neste link público para o Google Maps, passível de adição de novos locais pelos interessados. Foram elas localizadas com base em mapas históricos da FEB, com o auxílio do Google Earth.
Google Maps – acesso disponibilizado aos visitantes do Blog (posições da FEB em azul e amarelo)
O usuário do Google Earth pode fazer o download das suas coordenadas neste link, que também podem ser inseridas no GPS e servir como orientação para o visitante da Toscana.
Além dos locais onde esteve o Destacamento FEB, estão assinalados outros três de interesse turístico/histórico/cultural na região. São eles:
1. Passo Croce – Onde foram gravadas cenas do filme Milagre em Sant’ Anna (Posto de comando da 16ª Divisão Panzer SS)
Passo Croce – À direita o Mte. Corchia. Do outro lado dessa cordilheira estavam as posições avançadas da FEB
Visão panorâmica do Passo Croce – Ao fundo, à esquerda, o Monte Prana. Esta posição dista 7 Km (em linha reta) de Pania Secca, posição brasileira em 30 Set 1944
Os brasileiros mortos durante a campanha da FEB na Itália, exceto os “Soldados Desaparecidos”, foram enterrados no Cemitério Militar Brasileiro, mantido por décadas pelo Tenente Miguel Pereira: um ex-combatente que desde o final da Guerra permaneceu em solo italiano, com a missão de cuidar daquele pedaço de terra brasileira, cravado na região da Toscana .
O Monumento é composto de uma plataforma que contém uma pirâmide triangular com as placas inaugurais, um grupo escultórico em homenagem às Forças Armadas, um painel metálico estilizando um engenho aéreo de guerra e duas colunas monumentais, entre as quais encontra-se o túmulo do “Soldado Desconhecido”, ponto central de todas as homenagens e solenidades ali realizadas.
Em dezembro de 1960, os restos mortais dos brasileiros foram transladados para o Brasil, no Monumento Nacional aos Mortos da IIGM, no Aterro do Flamengo (vide O Retorno dos Heróis)
Anos mais tarde, foram encontrados os restos mortais de um dos soldados brasileiros extraviados. Por decisão unânime dos ex-combatentes, o corpo permaneceu no local onde encontra-se o túmulo do “Soldado Desconhecido”, no Monumento Votivo Militar Brasileiro. hoje administrado pelo filho de Miguel Pereira, Mario Pereira: um verdadeiro embaixador da FEB em território italiano. (mais informações neste link)
Monumento Votivo Militar Brasileiro em Pistoia
O antigo Cemitério Militar brasileiro, nos anos 50
Existem inúmeros outros lugares na Toscana de interesse histórico/cultural relacionados à FEB. O link público disponibilizado do Google Maps permite novas adições e sugestões de locais de visita por eventuais colaboradores. Da mesma forma, aqueles que desejarem contribuir com fotos para enriquecer este artigo, fiquem à vontade para enviar o material por e-mail (favor utilizar a aba comentários no final do post). Futuros artigos irão contemplar a região onde atuou a FEB, a partir de novembro de 1944.
Campinas colaborou intensamente na composição das fileiras da FEB. De acordo com um levantamento disponível no site da Associação dos Expedicionários Campineiros - AExCamplink, 328 campineiros estiveram na Itália em cerca de 50 diferentes unidades. O maior efetivo esteve presente no 6º Regimento de Infantaria de Caçapava (210 militares).
Muito da história do batalhão paulista na IIGM foi pesquisada pelo Prof. Dr. César Campiani Maximiano, autor dos livros: Onde Estão Nossos Heróis, Irmãos de Armase Barbudos, Sujos e Fatigados ; em 2010, também foi publicado o livro Pracinhas Campineiros – Reminiscências de Vidas que Fizeram História: uma antologia da vida de sete ex-pracinhas campineiros e duas de suas esposas, organizado pelo Tenente Jefferson Biajone, então professor da Escola Preparatória de Cadetes do Exército.
Este novo post presenteia seus seguidores com uma rara história dos pracinhas campineiros na Itália, publicada na revista Coleção de Aventuras, em 1958. Tal publicação foi gentilmente cedida pelo pracinha Justino Alfredo e sua filha Guaraci, que ora lutam para que a Associação de Veteranos campineiros volte a funcionar efetivamente.
Nesta história em quadrinhos, inspirada nas lembranças de Amâncio Tofanello, é contada parte da sua vivência no conflito, em especial com relação ao seu amigo Oscar Rossin.
Da Esq. para a Dir.: Sd Fernando de Andrade, Sd Amâncio Tofanello e Sd Oscar Rossin
Oscar Rossin também era um poeta; no Brasil, parecia estar adivinhando seu próprio destino quando escreveu o poema Versos a um Rio. Mais informações sobre o cabo Oscar Rossin podem ser vistas no site não oficial da ANVFEB, origem das fotos deste post.
Versos a um Rio- Poema premonitório do autor
O soldado Tofanello foi gravemente ferido na Itália; como ele, outras centenas voltaram mutilados física e psicologicamente. São marcas indeléveis que o horror da guerra imprime no corpo e na alma daqueles que a vivenciaram. Sessenta e sete anos após o término do conflito, entrevistei pracinhas que declararam não conseguir dormir em paz, até hoje, por conta das lembranças no front. A simples exibição de filmes históricos da FEB provocou em um deles fortes emoções que forçaram a interrupção da entrevista. Talvez a mais terrível herança da guerra não esteja na lista de baixas, mas no dano permanente que causa aos sobreviventes.
A saga dos campineiros em HQ
O download completo da história em quadrinhos “Os Bravos de Campinas” pode ser feito no link a seguir: Os Bravos de Campinas
Para o cidadão pouco familiarizado com o cotidiano brasileiro dos anos 40, é um tanto difícil imaginar o que representou a campanha submarina do Eixo contra a navegação nacional durante a II Guerra Mundial. Abordando este tema, está sendo lançado o livro Torpedo – o terror no Atlântico, do escritor Marcus Vinícius de Lima Arantes.
O episódio dos afundamentos já havia sido analisado com propriedade, dentro de um contexto mais amplo, pelo jornalista Ricardo Bonalume Neto em seu livro A nossa Segunda Guerra: os brasileiros em combate, 1942-1945 e pelo professor Francisco César Alves Ferraz em Os brasileiros e a Segunda Guerra Mundial, entre outros. Desta feita, Marcus Vinícius ”mergulha” de cabeça nesse evento marcante da história brasileira.
Na década de 40, a ligação entre o Sudeste e as demais regiões (exceto a região Centro-Oeste) era feita através do mar, em sua quase totalidade. Ainda não existiam estradas modernas, ligando a capital federal ao nordeste ou ao sul do Brasil. Para se viajar do Rio de Janeiro a São Paulo, por exemplo, a alternativa à ferrovia era uma estrada de terra poeirenta. O meio aéreo, ainda incipiente, era privilégio das autoridades e de uma ínfima parcela de abonados. Assim, quando os U-Boat alemães e submarinos italianos iniciaram o torpedeamento da nossa frota mercante e de passageiros, interrompendo o tráfego marítimo, o país foi quase tomado pelo caos.
Para se chegar ao nordeste, começou a ser utilizada uma rota alternativa, viajando-se de trem até as cabeceiras do Rio São Francisco, no interior de Minas Gerais, onde era feito o embarque nas “gaiolas” do rio. Uma viagem de Pirapora até Petrolina chegava a durar 14 dias, se não houvesse contratempo. O corte das ligações ao saliente nordestino, conjugado ao sucesso do Afrika Korps de Rommel no norte da África, ensejou o medo de uma invasão nazista ao nosso território. Nas ruas, o povo exigia vingança contra a morte de civis e militares: homens, mulheres e crianças, cujo número subia exponencialmente a cada afundamento.
A obra descreve os submarinos agressores, identificando cada um deles e detalhando os ataques. À época, a propaganda nazi-fascista espalhou o boato de que a ação fora perpretada pelos EUA, destinada a forçar a entrada do Brasil na IIGM a seu favor. Por incrível que pareça, essa versão permanece até os dias de hoje inclusa no discurso de alguns educadores, hábeis na formulação das chamadas “Teorias da Conspiração”, com fundo ideológico e antiamericano. No cerne dessas teorias, o ataque à navegação brasileira na IIGM, o 11/09/2001, e outros episódios da história recente, são apresentados aos estudantes como ”planos de manipulação midiática dos ianques”. Também por conta disso, o livro de Marcus Vinícius chega em boa hora.
Em 1942, o Brasil foi bem além dos “protestos enérgicos” e inócuos emitidos por sua diplomacia, quando do afundamento de nossos navios mercantes durante a I Guerra Mundial. Desta vez nosso país estava disposto a revidar à altura. Ao declarar guerra ao Eixo, éramos um país agrário que tomava uma decisão corajosa, jogando a sorte na aliança com os EUA, num momento onde o Eixo parecia invencível. Sobretudo, tomamos uma decisão que modificaria a história brasileira para sempre. E para melhor.
Quando se fala hoje em música proibida, a imagem que muitos têm é a de algum tipo de funk envolvendo a apologia ao tráfico de drogas e/ou recheado de palavrões. Mas este novo post trata de algo bem diferente: um samba proibido pela censura do DIP, o Departamento de Imprensa e Propaganda da ditadura Vargas. Uma obra-prima composta por ninguém menos do que o imortal Ary Barroso.
Ary Barroso: autor do samba sobre a FEB
A censura executada pelo DIP era de extrema eficiência. Agia em todos os segmentos da sociedade e, muitas vezes, os censores eram pessoas envolvidas pelo clima da época, que “entregavam”, até inconscientemente, as manifestações culturais que por acaso demonstrassem ideias contrárias ao governo, logo a seguir censuradas.
Foi este o caso do samba Onde o Sol Doira as Espigas (1944). Embora não mencione diretamente a FEB, a censura da DIP entendeu que a letra, com sua exposição realista dos males do conflito, faria baixar o moral de quem a ouvisse, assim prejudicando a mobilização. A bem dizer, numa época onde o esforço de guerra era continuamente sabotado — ainda que disfarçadamente — por integralistas, simpatizantes do nazi-fascimo e adversários do governo Vargas, a belíssima composição vinha em momento inoportuno.
Ary Barroso então reescreveu novos versos para a primeira parte, mais ácida, e mudou o título para “Uma Parte da História“: “O caboré piou/ nêgo tremeu/ pra senzala correu/ e lá ficou” (Caboré é o apelido de uma ave de rapina). Ao que parece, Ary Barroso já recebera notícias do horror e da fome característicos do front italiano, inserindo a batida do surdo, tal qual numa procissão fúnebre; e o toque de clarim, em acordes semelhantes ao toque de silêncio. Já os versos da segunda parte, de exaltação, permaneceram.
Moraes Neto (1918-2009) interpretou o samba no rádio por duas vezes, no máximo. Mais tarde, chegando ao estúdio de gravação, a composição não coube no disco (78 RPM) por ser muito longa. Depois de um incêndio na rádio Tupi, a partitura manuscrita queimou-se. Felizmente Morais Neto sempre reservava para si um cópia das gravações, a fim de usá-la em suas excursões.
Decorridos 47 anos, o samba foi regravado pelo próprio intérprete em sua versão original. Clique neste linkpara ouvir.
Quem costuma acompanhar o noticiário internacional, percebe no início do mês de maio uma série de eventos relacionados ao Dia da Vitória, comemorado nos países que deram a sua contribuição para a causa Aliada, na IIGM. A data varia entre os dias 5 e 9 de maio, sendo o feriado nacional mais importante do ano em muitas nações.
Em 2010, a comemoração do Dia da Vitória na Rússia teve a presença de tropas de vários países Aliados, inclusive norte-americanas. No palanque, diversos Chefes de Estado estrangeiros prestigiaram o evento. Da Chanceler alemã Ângela Merkel ao Presidente Hu Jintao, da China, antigos aliados e até ex-inimigos comemoraram juntos um dos acontecimentos mais significativos do Séc XX (assista o vídeo).
Tropas da 170ª Brigada de Infantaria (EUA), junto a tropas britânicas, francesas, russas e de outros países, marcham na Praça Vermelha, em Moscou, durante as comemorações do Dia da Vitória.
A comemoração festiva da data, bem como o reconhecimento ao sacrifício daqueles que lutaram no último conflito mundial, não se limita ao Dia da Vitória. Na primeira visita de um Chefe de Estado a um país estrangeiro, é praxe a inclusão de uma visita ao Túmulo do Soldado Desconhecido, ou local assemelhado, por parte das autoridades dos dois países. Lá chegando, em meio a uma cerimônia pomposa, o visitante deposita flores em homenagem aos heróis da nação anfitriã. Mais do que uma gentileza protocolar, trata-se de uma homenagem oficial ao valor dos homens e mulheres que construíram a história da nação visitada.
No Brasil, curiosamente, tais eventos acontecem de maneira diversa. Embora nosso país tenha contribuído consideravelmente para a vitória Aliada, enviando, inclusive, uma Divisão com mais de 25.000 homens para a Itáilia, nossa capital em Brasília, projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer, sequer possui um monumento com tal finalidade. Da mesma forma, as cerimônias realizadas no Monumento Nacional aos Mortos da IIGM, por ocasião do Dia da Vitória, são quase exclusivamente frequentadas por militares.
Homenagens ao Soldado Desconhecido nos EUA e Europa: na agenda da primeira visita oficial de um Chefe de Estado estrangeiro.
Por aqui, o desprezo aos heróis da Força Expedicionária Brasileira (FEB) infelizmente se estende aos demais heróis pátrios. Salvo raras exceções, a lembrança dos vultos históricos fica relegada a estátuas de praças públicas semi-abandonadas. Trata-se de uma realidade em nada edificante, advinda de um processo histórico originado em meados do Séc XX, que será objeto de reflexão neste post.
A Vulgarização do Mito
Não nos faltam heróis por estas bandas. Muito pelo contrário. Se prestarmos atenção às mensagens veiculadas pelos meios de comunicação, seremos apresentados a diversos “heróis” produzidos pela mídia. A vulgarização do mito chegou ao ponto do apresentador Pedro Bial construir um bordão infeliz quando dá início ao Big Brother Brasil: — E agora, vamos falar com os nossos heróis!
Em meio a tamanha banalização e desprezo aos heróis, alguns questionamentos merecem ser feitos: O que são heróis? Quem são eles? De onde vêm? Qual seu papel na identidade nacional?
A Origem dos Heróis
A figura do herói remonta aos primórdios da espécie humana. Há milhares de anos, quando o ser humano desenvolveu a linguagem como instrumento de preservação do conhecimento, nossos antepassados reuniam-se ao redor das fogueiras, transmitindo de geração a geração histórias de coragem e força de seus heróis. Figuras proeminentes da tribo eram lembradas por seus feitos, fosse na guerra contra inimigos, nas caçadas, ou nos embates contra animais ferozes.
Séculos mais tarde, a mitologia grega caracterizou o herói como a figura que reúne em si os atributos necessários para superar, de forma excepcional, um determinado problema de dimensão épica.
Para os gregos, o herói situava-se na posição intermédia entre os deuses e os homens, sendo, em geral, filho de um deus e uma mortal (Hércules, Perseu), ou vice-versa (Aquiles). Portanto, o herói possuía dimensão semidivina. Chamavam-no hrvV, traduzido para o latim heros.
Aquiles: Herói mitológico grego
Variando consoante às épocas, as correntes estético-literárias, gêneros e subgêneros, o herói é marcado por uma projeção ambígua: por um lado, ele representa a condição humana, na sua complexidade psicológica, social e ética; por outro, transcende a mesma condição, na medida em que representa facetas e virtudes que o homem comum não consegue, mas gostaria de atingir: fé, coragem, força de vontade, determinação, paciência, etc.
O herói é guiado por ideais nobres e altruístas: liberdade, fraternidade, sacrifício, coragem, justiça, moral, paz, etc… Eventualmente, buscará objetivos supostamente egoístas (vingança, por exemplo); no entanto, suas motivações serão sempre moralmente justas ou eticamente aprováveis, mesmo que ilícitas. Aqui é preciso observar que o heroísmo caracteriza-se, principalmente, por ser um ato moral.
Por centenas de anos, a figura do herói permaneceu inalterada em sua essência, sendo objeto de admiração e de culto cívico-patriótico. Pelo menos até meados do Séc XX.
Contracultura: o Herói sob ataque
Lançado em 1950, o influente livro de Theodor W. Adorno, A personalidade Autoritária (Authoritarian Personality – Studies in Prejudice) causou sensação no mercado editorial norte-americano, rotulando os defensores da cultura tradicional como “fascistas” e “mentalmente doentes”.
A Personalidade Autoritária: defensores da sociedade tradicional chamados de “fascistas”
Nos anos 50 e 60, Herbert Marcuse traduziu essa linha de pensamento para os livros escolares, com Eros e Civilization, obra que se tornou a “Bíblia” da nova esquerda dos anos 60 e do movimento da Contracultura. (Fonte: Free Congress Foudation).
Marcuse inoculou seus novos conceitos na geração Baby Boom, inspirando o ideário da contracultura que questionava os valores morais vigentes e instituídos na civilização cristã-ocidental. A longo prazo, foi ele bem-sucedido em sua empreitada, transformando o senso comum das sociedades que hoje reverenciam os conceitos de multiculturalismo, diversidade e o “politicamente correto” (political correctness).
Nessa mesma época, o movimento hippie materializou e popularizou os ideais da Contracultura, promovendo marchas de protesto mundo afora. Os EUA, Europa e Brasil foram palco de manifestações estudantis com raízes nesse movimento.
Movimento hippie: Contestação aos valores da sociedade tradicional; sexo, drogas e Rock’n Roll como novo estilo de vida
Hero: any person admired for courage, nobility, or exploits, esp. in war…
(Herói: qualquer pessoa admirada por sua coragem, nobreza ou façanhas, especialmente na guerra…)
— Webster’s New World College Dictionary (4th ed. 1999)
Dentre os obstáculos no caminho da Contracultura, havia um em especial a ser superado: o herói, protagonista dos atos morais. Para os idealizadores do movimento, as figuras históricas notáveis, consagradas pela sociedade, representavam os valores que precisavam ser destruídos. Assim, a galeria de heróis pátrios, formada em boa parte por militares, passou a ser questionada; daí a conotação antimilitarista do movimento. Protestar contra a Guerra do Vietnã nunca foi o verdadeiro alvo do movimento hippie, mas um slogan atraente para cooptar novos seguidores.
Seus integrantes adotaram religiões orientais como o budismo e o hinduísmo. Entraram na moda roupas coloridas e o adereço conhecido como “pé de galinha”: a cruz cristã invertida e de braços quebrados, curiosamente idêntica ao símbolo da 3ª Divisão Panzer nazista, durante a IIGM.
Símbolo hippie: a cruz cristã invertida e de braços quebrados
O Brasil e a Contracultura
Como não poderia deixar de ser, o Brasil copiou o modismo das passeatas de protesto à sociedade tradicional. Os grupos políticos retirados do poder, em 31 de março de 1964, coordenaram a Passeata dos Cem Mil, em junho de 1968, eco às revoltas estudantis da França, organizadas por grupos comunistas e anarquistas no mês anterior. Por conta da intensa agitação social urbana, combinada à realização de uma série de atentados terroristas — entre eles o que planejou assassinar o presidente Costa e Silva — o Regime Militar editou o Ato Institucional nº 5, em dezembro do mesmo ano.
O espírito contestador e rebelde da Contracultura fracassou ao tentar influenciar a índole pacífica e ordeira do nosso povo, inspirando apenas uma fração mínima — mas barulhenta — de brasileiros. Combinado a uma série de outros eventos, como a disputa ideológica da Guerra Fria, e a guerrilha rural e urbana, seu resultado prático foi provocar o endurecimento do Regime Militar, estendendo-o bem mais do que o previsto.
Revolta estudantil na França, em maio de 1968: reproduzida no Brasil em junho, foi uma das causas endurecimento e continuidade do Regime Militar
Nosso sistema educacional também não passou incólume. No começo da década de 80, a disciplina Educação Moral e Cívica foi banida dos currículos escolares. O aparelhamento político-ideológico, no meio acadêmico, fez valer sua rejeição ao Regime Militar, excluindo os ícones fardados dos livros didáticos. Mais do que isso, segundo o ideário da Contracultura, ensinar preceitos morais, civismo, e fazer conhecer os vultos pátrios aos jovens passou a ser algo “careta” ou “quadrado” — segundo a gíria da época — aos olhos dos novos educadores. Diferente do ocorrido em sociedades amadurecidas, no Brasil o movimento conseguiu banir os heróis e vultos históricos das salas de aula.
Livro de EMC dos anos 70: moral, civismo, heróis e vultos históricos logo seriam banidos das escolas
O movimento hippie e seu o slogan “Paz e Amor” caíram em descrédito no final de 1969, após o brutal assassinato da atriz Sharon Tate, grávida de oito meses, por um grupo de hippies. Outras seis pessoas também foram mortas por membros da seita liderada pelo “guru hippie” Charles Manson, que planejou assassinatos em grande escala nos bairros de brancos em Los Angeles, com objetivo de culpar a comunidade negra pelos crimes e desencadear uma guerra racial. Apesar de tudo, o ideário da Contracultura retornaria à cena anos depois.
Nova Era: a Contracultura sob nova roupagem
Por volta do início da década de 80, o movimento da Nova Era (New Age) trouxe de volta o espírito da Contracultura, agora sob uma nova roupagem menos contestatória e mais “amigável”. Segundo os novos conceitos, a Era de Peixes (da cristandade) seria substituída em breve pela Era de Aquarius.
De uma forma geral, era um amontoado de práticas oriundas do esoterismo, novamente baseadas em culturas orientais, crenças espiritualistas, animistas e paracientíficas. Assim como o movimento da Contracultura, a Nova Era trazia de volta propostas que iam no sentido contrário às estabelecidas pelo Cristianismo.
Ufologia: exemplo típico de crença paracientífica da Nova Era
O novo movimento trouxe uma interpretação curiosa das relações intrínsecas entre o bem e o mal. Segundo ele, o bem e o mal são forças semelhantes: “energias opostas que se complementam e vivem em harmonia”. O símbolo mais conhecido do movimento (yin e yang) expressa bem essa dualidade: o bem não é totalmente bom, pois contém um ponto preto; assim como o mal, com seu ponto branco, também não é totalmente mal. Ambos são idênticos na forma. Tudo é relativo.
Um dos símbolos da Nova Era: yin e yang; o feminino e o masculino; o bem e o mal; a ordem e o caos; – energias opostas que se complementam e que vivem em “harmonia”.
A Nova Era ampara-se no Relativismo: a teoria filosófica baseada na relatividade do conhecimento e que repudia qualquer verdade ou valor absoluto, partindo do pressuposto de que todo ponto de vista é válido. Afirma ainda que todas as posições morais, todos sistemas religiosos, todos movimentos políticos, etc., são verdades apenas relativas a cada indivíduo.
Diferente do ocorrido por ocasião do movimento da Contracultura, o herói deixou de ser contestado e excluído das salas de aula. Coerente com a nova doutrina relativista, daqui por diante ele foi submetido a uma “visão crítica”, sendo encarnado por novos personagens.
A Historiografia da Nova Era
Os mecanismos mentais oriundos dos conceitos da Nova Era influenciaram uma considerável parcela dos autores de livros didáticos. No Brasil, houve o nascimento da “História Crítica”, um ramo marginal da historiografia, especializada em reescrever os fenômenos históricos sob uma nova perspectiva, invertendo heróis e vilões ao sabor da predileção ideológica do autor.
Exemplos concretos dessa inversão de valores podem ser vistos em abundância nos livros escolares de História. Em muito deles, os EUA e Israel são apresentados como “Estados terroristas”, enquanto a Al Quaeda e o Hezbollah são “insurgentes”. Ao questionar uma instituição de ensino que adote tal referência bibliográfica em seu curriculo, muito provavelmente o responsável receberá uma resposta baseada nas “boas intenções” do relativismo da Nova Era. Manipulação ideológica? Que nada. Apenas uma visão “multilateral”.
Um dos expoentes desse novo ramo foi o autor Mario Schmidt e a sua Nova História Crítica: uma coleção de livros didáticos de primeiro e segundo grau. Usando vocabulário chulo, em meio à acintosa manipulação dos eventos históricos, o autor criou verdadeiras “pérolas”, tais como: ”Mao Tsé-tung foi umgrande estadista e comandante militar, amou muitas mulheres e por elas foi correspondido”. Em pleno século XXI, décadas após a queda do Muro de Berlim, a apologia da Luta de Classes foi exumada por novos autores, com o patrocínio do Governo Federal. Somente em 2005, o MEC comprou nada menos que 3,5 milhões dos seus exemplares. (fonte e mais exemplos da História Crítica em: Guia Politicamente Incorreto)
Trecho da Nova História Crítica, de Mário Schmidt. fonte:http://guiapoliticamenteincorreto.wordpress.com/
O ideário da Nova Era persiste em nossa sociedade até os dias atuais, em particular no meio escolar e historiográfico, na forma do “Politicamente Correto”. Sob o seu manto protetor, muitos reinterpretam o papel histórico do herói, ora banalizando-o, ora relativizando-o. No extremo oposto a Pedro Bial — que encontra heróis em seu reality show — há pessoas que não lhe atribuem papel relevante na formação histórica de uma Nação.
Programas de TV como o The History, por exemplo, dão espaço a essa visão. Segundo o jornalista Eduardo Bueno, nos seus inserts na programação do canal: ” A história não é feita por mocinhos ou bandidos, mas por gente de carne e osso. Aqueles que são heróis para alguns, podem ser muito bem vilões para outros. Tudo depende do ponto de vista..”
Esse tipo de relativismo que questiona a figura do herói — e, por tabela, do vilão — fornece a evidência visível do mais nocivo subproduto da Nova Era: a relativização do mal. Trata-se de um processo insidioso, que almeja conceder a cada indivíduo a pretensa autoridade moral para estabelecer os seus próprios valores, julgando o que é certo ou errado conforme seu bel-prazer. Não foi por acaso que entre as bandeiras da Nova Era estava a do movimento anarquista.
Símbolo do movimento anarquista: proposta utópica de sociedade
Graças a esse sofisma, hábil na inversão de papéis, marginais e drogados são vistos como “vítimas da sociedade”; políticos corruptos assaltam o erário, sem maiores conflitos interiores. Não há limites para a sociedade relativista. Até os estupradores podem tirar proveito desse modelo utópico, já que do ponto de vista de boa parte deles, as mulheres existem para a satisfação do prazer sexual masculino. Quem dirá o contrário numa sociedade relativizada?
O relativismo moral, bandeira da Contracultura, está presente em nosso cotidiano de forma direta ou indireta. Envolve questões que vão desde a liberação do uso das drogas, do aborto e da prostituição, até o combate à figura do herói, seja por esquecimento ou banalização. As forças que se apoiam na promiscuidade, no ataque à família, à religião, na degradação moral e dos costumes, e que estavam (ou estão) por detrás do movimento, conhecem bem o significado, o poder e a força inerentes ao herói, por isso o tem como um dos alvos principais.
Segundo o Relativismo, não existe direção certa. Nem errada. Tudo depende do “ponto de vista” individual
O Verdadeiro Herói
Se décadas atrás, um estudante brasileiro mediano tinha na ponta língua o nome dos heróis e vultos históricos do país: de Tiradentes ao Barão do Rio Branco; do Duque de Caxias a Santos Dumont; de Estácio de Sá a Rui Barbosa, graças aos sofismas da Contracultura e da Nova Era, hoje, provavelmente, o mesmo estudante teria o imaginário povoado por outros personagens.
No espírito juvenil, sempre ávido por modelos em quem se espelhar, o vácuo deixado pelos vultos históricos e heróis nacionais foi preenchido por outras referências: ícones esquerdistas, cantores de reggae, jogadores de futebol, artistas, ou brothers do BBB.
Novos ícones da juventude brasileira: Bob Marley e Che Guevara
Mas alguém poderia perguntar: “E daí? Que diferença isso faz?” Para responder a esse questionamento, bem como aos apresentados no início do post, acerca dos heróis (Quem são eles? De onde vêm? Qual seu papel na formação da identidade nacional?), é preciso antes estabelecer parâmetros e definições adequadas, pois a vulgarização do personagem causa grande confusão. Ao sabor da ideologia dominante, da mídia ou por pura ignorância, misturam-se heróis a vultos históricos, ídolos a personagens irrelevantes.
São variadas as definições do herói, umas mais abrangentes, outras mais restritas. Aquela que aparenta ser mais fiel ao personagem diz o seguinte:
“Herói é aquele que, impulsionado por nobres ideais, sem intenção de ganho ou glória pessoal, mostra grande coragem e força na presença da adversidade. “
Partindo dessa definição, podemos tirar algumas conclusões interessantes:
1. Um verdadeiro herói não possui ocupação específica. Pode ser tanto um militar, em combate, como um civil, atuando como bombeiro numa catástrofe.
2. Um cientista ou inventor talentoso pode ser considerado um benfeitor da humanidade, um gênio, mas não é herói;
3. Um esportista ou artista de sucesso pode ser um ídolo, mas jamais um herói;
4. Um soldado que dá a vida por seus companheiros em combate é um herói, não importa qual seja a sua nacionalidade;
5. Um terrorista que se explode, disfarçado na multidão, não é um herói e muito menos mártir (mártir é o herói que perde a vida em ação) pois usa de covardia e engôdo ao esconder sua condição de combatente perante o inimigo, travestindo-se de civil.
6. Um “brother” de reality show ser chamado de herói é um atentado à inteligência do espectador.
O Herói na formação da identidade de uma Nação
O herói representa muito mais do que a banalização midiática procura nos vender. Ele reune o que de melhor existe em um povo, materializando os mais nobres sentimentos, ideais ou virtudes. É um elemento catalisador da Nação; o agente atemporal que une passado, presente e futuro. Aquele que nos faz lembrar das lutas e dificuldades vencidas pelos antepassados, projetando a esperança no amanhã: um verdadeiro alicerce da consciência nacional.
Mesmo que se retire de um povo o seu território, ainda que lhe sejam aplicadas as mais terríveis perseguições, a figura do herói, enquanto ramo fundamental da cultura, desempenha um papel ímpar na sobrevivência desse grupo.
O Estado judeu, por exemplo, foi destruído e teve seu povo expulso de Jerusalém e da Terra Santa, em 135 DC. Os remanescentes da diáspora foram perseguidos, primeiro pelos romanos até o Séc V; depois pelos cristãos, durante a Idade Média. No século XX, sobreviveram ao Holocausto, ao nazi-fascismo e ao comunismo. Em 1948, após mais de 1.800 anos, o Estado de Israel renascia. No dia seguinte à sua declaração de independência, foi ele atacado pelos países árabes que o cercaram.
Campo de concentração nazista durante a IIGM: apenas uma das muitas perseguições ao povo judeu ao longo da história
Mas Israel resistiu a tudo; seu povo preservou intactas a cultura milenar, a religião, a memória dos patriarcas: Abrahão, Isaque e Jacó, bem como de uma série de outros profetas e heróis bíblicos, como Sansão e Davi, entre tantos. Sem eles, o povo judeu não passaria de uma vaga lembrança na história. No Novo Testamento, a tradição religiosa cristã reconhece o valor dos heróis bíblicos judeus:
“Venceram reinos, praticaram justiça, alcançaram promessas, fecharam bocas de leões extinguiram a violência, escaparam ao fio da espada, da fraqueza tiraram a força, fizeram-se poderosos em guerra, puseram em fuga exércitos de estrangeiros” Hebreus 11:33,43
David contra Golias: herói bíblico na milenar tradição judaico-cristã
Por outro lado, a história também nos mostra a ascensão e queda de grandes impérios, Assírios, Persas, Babilônios, Sumérios, Persas, Romanos, Otomanos, entre tantos, construíram impérios de grandeza e poder militar fabulosos, bem maiores que Israel, mas se desagregaram ou foram conquistados e assimilados por outros povos. Muitos deles desapareceram na poeira do tempo, sendo conhecidos apenas por escavações arqueológicas. Outros, nem isso.
Soldado em combate: o herói que transcende culturas
Nações fortes x Nações “relevantes”
Quando se estabelece comparações entre o Brasil e outros países que lutaram na IIGM, é preciso evitar conclusões apressadas. Muitos invejam certas nações européias pela sua organização e qualidade de vida. De fato, várias delas são dignos de aplauso, em especial aquelas de elevado IDH e que reconhecem o papel do herói na sociedade.
Porém, é comum encontrar pessoas que sonham importar e aplicar no Brasil, de forma automática, as mesmas políticas formuladas e direcionadas a países de 1º Mundo. Propor soluções idênticas para sociedades distintas, simplesmente porque são políticas oriundas de nações “relevantes” e de “1º Mundo”, é fruto de um raciocínio leviano.
Apregoar que determinado modelo adotado por uma nação europeia seria bem sucedido em outra, do 3º Mundo, não passa de futurologia especulativa. Se em Paris, por exemplo, o sistema de transporte baseado em bicicletas gratuitas é um sucesso, não significa que na África subssaariana aconteceria o mesmo.
Esse tipo de conclusão apressada origina-se da falácia de que uma nação de 1º Mundo é, automaticamente, mais “relevante” do que uma africana, ou latina. Algo semelhante a afirmar, por exemplo, que um político engravatado é mais digno e/ou virtuoso do que um operário, só porque enquanto o primeiro usa carro de luxo, o segundo anda de trem: uma lógica simplista, materialista e preconceituosa, sobretudo falsa.
A Alemanha nazista e a União Soviética de Stalin foram países ricos, poderosos, desenvolvidos, e dos mais “relevantes” do seu tempo, sendo admirados em boa parte do mundo (inclusive no Brasil); contudo, representam o que de pior o ser humano construiu na história contemporânea, em termos de política e ideologia .
Stalin e Hitler: líderes de dois dos regimes mais poderosos e “relevantes” do seu tempo, mais tarde varridos para o lixo da história
Conclusão
A maior virtude de um País não reside, portanto, no poder das armas, nas suas riquezas, conhecimento científico-tecnológico, e nem mesmo em sua posição no ranking do IDH. Logicamente, todos esses atributos são importantes e fazem parte das Expressões do Poder Nacional (Militar, Econômica, Política e Científica-Tecnológica) porém, não são origem, e sim resultantes dasua Expressão Psicossocial.
A Expressão Psicossocial é a mais preciosa das Expressões de Poder. Só ela é capaz de fornecer condições para a construção, fortalecimento, manutenção e ressurgimento das demais. Nela ocupa local de destaque o culto aos heróis, preservando o firme e duradouro elo histórico-cultural-religioso que une determinado povo. Se este elo for realmente poderoso, o povo sobreviverá, ainda que o Estado seja destruído. Assim, não é exagero afirmar que o futuro de uma Nação está atrelado ao empenho em preservar a memória dos seus heróis no presente.
Sem dúvida alguma, a IIGM teve um impacto incomparavelmente maior na trajetória das nações européias e dos EUA. Por isso, é natural que nesses países a comemoração do Dia da Vitória seja grandiosa. Todavia, no Brasil, o ”esquecimento” dos heróis da FEB, bem como dos demais brasileiros de valor, seja nas cerimônias oficiais ou nos manuais didáticos, é algo que precisa ser reavaliado.
Temos um magnífico patrimônio imaterial, hoje desprezado pelo ranço vingativo dos admiradores de ideologias fracassadas. Mais do que um desperdício, é um sintoma da aceitação dos sofismas da Contracultura e da Nova Era em nossa sociedade.
Parafraseando o relativismo de Eduardo Bueno, se a história é feita por “homens de carne e osso”, como ele afirma, ela é transformada e conduzida por obra e inspiração dos seus heróis.
“Conspira contra a própria grandeza o povo que não cultua os seus feitos históricos”
Em 1985, foi lançado o polêmico livro “As duas Faces da Glória”, de William Waack, sobre a Força Expedicionária Brasileira. À época, o jornalista trabalhava como correspondente do Jornal do Brasil na Alemanha, desde 1979.
Um dos méritos do livro foi divulgar uma série de informações e relatos até então desconhecidos do público. Waack foi talvez o primeiro pesquisador brasileiro a realizar a busca de informações sobre a FEB em arquivos alemães, norte-americanos, ingleses e italianos.
Outro mérito do autor, que merece ser destacado, foi a complexa localização de veteranos das unidades alemães que tiveram os brasileiros como oponentes, durante a II Guerra Mundial. Waack conseguiu entrevistar uma série deles, espalhados pela então Alemanha Ocidental.
Fig.1 – As Duas Faces da Glória: pioneirismo na pesquisa em arquivos alemães e entrevistas com veteranos da Wehrmacht
O autor relatou que os arquivos da 232ª Divisão de Infantaria alemã, referentes às tentativas de tomada do Monte Castello, foram destruídos num bombardeio a Berlim, em 1945. Mesmo assim, conseguiu disponibilizar registros pertencentes ao Estado-Maior alemão e à 114ª Divisão Ligeira: cartas topográficas, mapas de situação, arquivos do julgamento de Nuremberg e relatórios diversos. Um trabalho de pesquisa formidável.
A leitura da obra pode feita sem dificuldade, graças à linguagem clara e a boa sintaxe. A escrita em estilo jornalístico é fluida, apresentando ao leitor idéias perspicazes, baseadas na interpretação pessoal do material de pesquisa escolhido. Waack revela um talento precoce que futuramente lhe daria — com justiça, diga-se de passagem — o posto de âncora do Jornal da Globo.
Entretanto, se quanto à forma e pesquisa a obra pode ser considerada admirável, infelizmente seu embasamento histórico é inversamente proporcional. Aliás, seria uma proeza se o autor conseguisse apresentar uma obra de conteúdo sólido, sobre um tema tão complexo, durante o intervalo de tempo utilizado. Enquanto historiadores renomados levam, por vezes, quase uma década de pesquisas para escrever um único livro sobre a IIGM, Waack revela ter dado início ao projeto da obra meses antes, em 1984, lançando-a já no ano seguinte (isso a par das suas obrigações rotineiras de jornalista).
Dada a característica meramente informativa deste Blog, a análise do livro de Waack não descerá a pormenores, inclusive os que a metodologia de pesquisa histórica preconiza. Até porque, dissecar todos os aspectos de “As Duas Faces da Glória” — em especial a abundância de erros, contradições e omissões — seria algo cansativo e inadequado para um simples Blog. Mais do que isso, pelo conjunto, a obra não merece tanto.
1. Os alemães – A Wehrmacht de Waack
Logo de início, o autor procura desqualificar as divisões alemãs que a FEB enfrentou na Guerra e, por conseguinte, o mérito das vitórias brasileiras. Segundo ele:
“A FEB enfrentou nove divisões alemãs ou esteve em contato com elas, durante os meses que permaneceu na Itália: a 42ª Ligeira, a 232ª de Infantaria, a 84ª de Infantaria, a 114ª Ligeira, a 29ª Motorizada, a 334ª de Infantaria, a 305ª de Infantaria, a 90ª Motorizada e a 148ª de Infantaria. O leitor deve ter observado os ‘números altos’ da maior parte dessas divisões — para o especialista, isso indica que a unidade se formou já no final da guerra, às pressas, com recursos reduzidos e deficiência de tropas aptas” (Pg. 39).
Fig. 2- A Wehrmacht: segundo Waack, as divisões que a FEB enfrentou na Itália eram “deficientes”
Mais adiante, curiosamente, o próprio autor afirma que o General Eccart Von Gablenz (Fig. 3), comandante da 232ª Divisão alemã, já havia comandado uma outra divisão de infantaria: a 384ª Divisão alemã, na batalha de Stalingrado, ainda em 1942 (Pg 133): uma unidade de numeração superior a quaisquer das unidades com que a FEB se deparou. A “numeração alta” das unidades não é, portanto, determinante para classificar uma divisão segundo a seu poderio ofensivo. Essa é a primeira de uma série de contradições. Waack não menciona quem foi o “especialista” responsável por tal premissa. Seja ele quem for, deve encontrar sérias dificuldades ao lidar com números.
Fig. 3 – General Von Gablenz: apontado pelo próprio autor como o comandante da 384º Divisão alemã em Stalingrado, em 1942. Fonte: Axishistory.com
Em outra vertente, o livro procura descaracterizar a capacidade combativa da 232ª, com base numa suposta composição de faixa etária elevada. Entretanto, os informes do autor uma vez mais são contraditórios, quando afirma: ” A esmagadora maioria dos 9 mil homens da 232ª compunha-se de veteranos de diversas campanhas”(Pg. 46). Ou seja, mesmo tendo a 232ª Divisão alemã sido formada em junho de 1944, sua espinha dorsal era composta por oficiais e graduados veteranos de diversas campanhas, inclusive do Afrika Korps e da frente russa, para onde Hitler enviou suas melhores tropas. Mais do que incoerência, desprezar a qualidade desses homens é um ato de leviandade. No mínimo.
O autor prossegue nesse raciocínio, desta feita com relação aos mais jovens: “Apenas 10% do efetivo eram soldados bens jovens, de 17 anos, recrutados na região de Frankfurt.” (Pg. 46) Esse é um caso típico de menosprezo (por sinal, sem referência documental explícita) que embosca os aventureiros do tema IIGM. Quando os Aliados desembarcaram na Normandia, por exemplo, encontraram boa parte das divisões alemãs compostas com efetivos de faixas etárias heterogêneas, que incluíam veteranos e jovens: uma formação comum para unidades com missão defensiva. Nem por isso o desembarque Aliado — especialmente em Omaha Beach — deixou de ser um dos episódios mais dolorosos da história militar dos EUA.
Fig. 4 – Prisioneiros da 232ª Divisão alemã: segundo o autor, “veteranos cansados”
Com base na experiência de guerra alemã, em especial a da IGM, sua logística sabia recompor batalhões dizimados em novas unidades, mesclando a experiência de veteranos com o vigor da juventude. Já o fator idade, por si só, não significa muita coisa, pois um jovem com o dedo no gatilho de uma metralhadora pode ser tão ou mais mortal que um adulto.
Calcula-se que em Omaha Beach, no dia D, o soldado Heinz Severloh, de apenas 20 anos, foi o responsável por boa parte das 4.200 baixas norte-americanas no setor, disparando durante 9 horas seguidas cerca de 12.000 cartuchos da sua MG-42. Severloh ficou conhecido como a “Besta de Omaha” (Fonte: A Vida no Front).
Fig.5 – Heinz Severloh, um jovem de apenas 20 anos: a “Besta de Omaha”
A obra revela algumas informações particularmente interessantes sobre os oficiais da 232ª, em especial sobre o seu comandante, o General Gablenz: “O Barão foi um dos mais bem-sucedidos comandantes de tropa na frente de batalha da França… e, aos 49 anos, tornou-se em 1940, o mais jovem tenente-general do Exército alemão, um dos primeiros oficiais a ostentarem a Cruz de Cavaleiro sobre a Cruz de Ferro” (Pg. 54)
Todavia, o capítulo destinado aos alemães desvia-se do eixo temático da obra. Aborda detalhes menores da vida pessoal dos entrevistados no pré e pós-guerra, insistindo em afirmar que a maior parte dos alemães da 232ª desconhecia haver lutado contra os brasileiros. A intenção do texto é óbvia: tornar irrelevante a participação da FEB.
De fato, o repasse de informações do Comando alemão à linha de frente era problemático. Um do relatórios da 3ª Seção da FEB, feito com base no interrogatório de prisioneiros alemães logo após a batalha de Montese, revelou que 80% deles pensava estar lutando contra ingleses. Se tal desinformação foi deliberadamente premeditada pelo Comando alemão ou não, isso é assunto para um novo post. Contudo, não há dúvida de que a inteligência nazista acompanhava os movimentos da FEB em detalhes.
A propaganda psicológica que os alemães lançavam sobre nossas posições, ainda em dezembro de 1944, por exemplo (Fig. 6 e 7, fonte: Cobra Fumando), prova de que o Comando alemão conhecia não só a nossa presença, como até mesmo a divisão regimental da FEB.
Fig. 6 – Panfleto de guerra psicológica alemã lançado sobre as posições brasileiras em 1944: detalhe para a identificação da composição regimental da FEB. De resto, propaganda nazista, esquizofrênica e antiamericana, repetida até o presente.
Fig.7 – Verso do panfleto: segundo um pracinha entrevistado, os panfletos eram utilizados pela tropa para atividades, digamos, menos nobres
Conclusão
Com relação às forças inimigas que a FEB enfrentou diante do Monte Castello, a obra minimiza a capacidade combativa da 232ª Divisão alemã, composta, na maior parte, de veteranos com quase 5 anos de experiência de combate, do seu comandante até os graduados, algo que nenhum brasileiro sequer sonhava possuir.
Waack acerta quando menciona o poder combativo debilitado da 232ª, o que não era novidade alguma para o Exército Alemão nos idos de 1944-45. Porém, a missão dessa Divisão era essencialmente defensiva, limitada à ocupação de posições estáticas nos Apeninos, tarefa que exige muito menos tempo de preparação, esforço físico e a presença de recursos de toda ordem.
Mesmo que, supostamente, os alemães não tenham recebido o melhor treinamento (os que ainda não dispunham) e equipamento, estavam eles meses à frente do grosso da FEB. Os brasileiros do 2º e 3º escalões só chegaram à Itália no final de setembro de 1944, trazendo apenas a roupa do corpo, a bagagem pessoal, e ainda sem treinamento específico para o combate.
Somente a 10ª Divisão de Montanha norte-americana — tropa de elite treinada e equipada para o combate em ambiente de montanha — sofreu 999 baixas durante a tomada da região fortemente defendida pela “deficiente” 232ª (entre 18 Fev e 05 Mar de 1945). Assim, menosprezar a capacidade militar da Divisão alemã evidencia uma visão rasteira do seu poderio bélico, aliado ao terreno, além de um notório desconhecimento de aspectos fundamentais da sangrenta Campanha Aliada na Itália.
Por fim, o leitor interessado em conhecer como os alemães da 232ª realmente enxergavam os brasileiros, deve procurar o relato dos seus veteranos, sem intermediários, como no livro Bombardeiros, Caças e Guerrilheiros(BIBILEX)“Bomber, Jabos, Partisanen. Die 232. Infanterie-Division 1944/45″,de Heinrich Boucsein, veterano da 232ª Divisão alemã, que lutou do primeiro ao último dia da IIGM; em especialno capítulo “Die Brasilianer und der Monte Castello”: Os Brasileiros diante do Monte Castello.
Fig.8 – Bombardeiros, Caças e Guerrilheiros: a FEB vista pelos alemães da 232ª. Sem intermediários
Em menos de uma semana, a cidade cearense de Maranguape perdeu dois filhos ilustres. Ao falecimento do humorista Chico Anísio, no dia 23 de março, somou-se a morte do febiano Raimundo Nonato Monteiro, na última terça-feira, 27 de março, em Juiz de Fora-MG. O talento e a fama de Chico Anísio dispensam maiores comentários, mas a trajetória do seu conterrâneo Raimundo Nonato Monteiro — um dos três naturais de Maranguape que integraram a FEB — também merece ser relembrada.
Atitude comum nos veteranos que vivenciaram situações terríveis em combate, Raimundo Nonato não gostava de falar sobre a guerra. Por motivos óbvios, preferia contar episódios pitorescos ou, no máximo, situações vividas por companheiros seus. Com um sorriso nos lábios, lembrava da primeira frase que aprendeu em italiano: “belle gambe” (belas pernas), a fim de paquerar as moças que passeavam de bicicleta.
Gostava de lembrar de “causos” envolvendo um soldado medroso e “raro” do pelotão, apelidado de “Branca de Neve” — um negro retinto, muito seu amigo. Certa feita, quando “Branca de Neve” estava de sentinela, à frente do seu posto apareceu de surpresa um soldado alemão desertor, oferecendo rendição. Mais tarde, já recolhido o prisioneiro ao PC do Batalhão, um Capelão Militar perguntou ao soldado tedesco o que havia causado o enorme galo proeminente em sua testa. O alemão respondeu que foi por conta de um brasileiro que lhe havia jogado uma pedra. Estava enganado. Não foi uma pedra, mas uma granada de mão arremessada pelo assustado “Branca de Neve”; a granada foi encontrada mais tarde, ainda travada com o pino de segurança ….
Raimundo Nonato Monteiro aos 20 anos, em abril de 1945: Herói da FEB
Era muito fácil se deixar levar pela sua conversa descontraída. Ouvindo as histórias, um observador desavisado poderia imaginar que a trajetória de Raimundo na Itália não passou de uma excursão animada, com direito a alguns sobressaltos. Mas a realidade foi outra. São impressionantes, por exemplo, os relatos das patrulhas que empreendeu. Numa delas, ele conta que o comandante de pelotão lhe mandou reconhecer uma posição defensiva alemã:
“—Vai lá Raimundo, você que é cearense e filho de índio!”
Raimundo rasteja com habilidade até o local, surpreende o sentinela cochilando e apanha sorrateiramente a sua metralhadora. Nisso, sai do abrigo um suboficial que lhe aplica uma coronhada, jogando-o ao chão. Logo a seguir, o alemão desfere um tiro que perfura seu capacete e que, milagrosamente, apenas raspa o couro cabeludo. Ainda caído, Raimundo atira, acertando dois alemães. Na confusão, sua patrulha captura a guarnição alemã. Raimundo Nonato foi promovido, por bravura, de cabo à graduação de 1º Sargento, algo raro na Força Expedicionária Brasileira. Participou de várias batalhas, inclusive as de Monte Castello e de Montese, integrando a 9ª Cia, do III Batalhão, do 11º Regimento de Infantaria: O “Lapa Azul”.
Na região de Montese, Raimundo Nonato vivenciou momentos cruciantes da campanha brasileira:
“— Foi horrível, nem gosto de lembrar”, dizia. Nesse combate, foi ele ferido por uma granada de mão, sendo evacuado para tratamento no Fitzsimons Army Medical Center, em Denver, nos EUA (vídeo a seguir). Lá recebeu um enxerto de pele e um implante de metal na mão direita.
60 anos depois, tive o privilégio e a honra em entrevistá-lo, sendo recebido com muito bom humor, ouvindo suas memórias sobre a guerra e o implante metálico que volta e meia lhe causava embaraços, travando a porta giratória dos bancos. Raimundo se orgulhava dos feitos da sua 9ª Cia, segundo ele: “A primeira unidade do V Exército a atingir os seus objetivos na Ofensiva da Primavera”.
Perdeu assim Maranguape dois dos seus mais valorosos “Raimundos Nonatos”: o fictício, interpretado por Chico Anísio, na Escolinha do Professor Raimundo; e o real, na figura do sargento da FEB. Respectivamente, ambos tiveram “alunos” e soldados, “raros” e/ou destemidos. Respectivamente, também, nos deram muitas alegrias e nos legaram um mundo melhor, livre das ideologias totalitárias que combateram.